Naomi Sims, a primeira top model negra



Por Rafaella Britto –


Se nos dias de hoje é ainda rara a figuração de negros no cinema, na televisão ou na publicidade, há 50 anos esta representatividade era inexistente. Na segunda metade da década de 1960, a modelo Naomi Sims causou furor ao estampar as capas das principais publicações da alta moda. Considerada a primeira top model afro-americana, Sims quebrou barreiras de estereótipos raciais, tornando-se o rosto-símbolo do movimento Black is Beautiful. O Império Retrô resgata sua trajetória e legado.

(Foto: Reprodução)


EM BUSCA DO SONHO

Nascida no Mississipi em 30 de março de 1948, Sims era a caçula de três irmãos. Após o divórcio dos pais, mudou-se com a família para Pittsburgh, porém, com a mãe doente, foi enviada a lares de adoção. Aos 13 anos, sua pele marrom e tipo esguio – exótico para os padrões americanos do período – granjeavam-lhe apelidos entre colegas. A infância marcada pela pobreza tornou-a determinada a ser “uma pessoa muito importante” em uma época de revolução cultural e movimentos civis pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos.

Vogue, 1973 (Foto: Reprodução)

Em 1966, Sims dividia sua rotina entre os estudos no Fashion Institute of Technology, em Nova York, e, à noite, o curso de Psicologia na Universidade de Nova York. Diante das necessidades financeiras, foi encorajada por professores e colegas a tentar a sorte como modelo. As agências, no entanto, recusavam-na por considerarem sua pele muito escura.
Sims posou para publicações de baixo orçamento como Ebony e Jet, até ser descoberta pelo fotógrafo do New York Times Gosta Peterson, que clicou-a para a capa da edição de agosto de 1967 do suplemento Fashion of The Times. A fama bateu-lhe à porta quando foi convidada para estrelar o comercial da companhia telefônica AT&T, ao lado de uma modelo branca e outra asiática, todas vestidas pelo estilista Bill Blass. “Depois que foi ao ar, as pessoas quiseram saber sobre mim e me usar”, contou a modelo.

Fotografada por Gosta Peterson para a Fashion of the Times, suplemento do jornal New York Times, em 1967 (Foto: Reprodução)


ÍCONE DA MODA ABRIU CAMINHO PARA A ACEITAÇÃO DA BELEZA NEGRA NA INDÚSTRIA

Naomi Sims estampou capas de publicações renomadas como Ladies’ Home Journal, Essence, Life e Cosmopolitan, e foi eleita a Modelo do Ano de 1968 pela Vogue americana. Visto que os estúdios e agências possuíam pouca experiência com peles negras, Sims era a responsável por suas próprias maquiagens multicoloridas. Durante anos, foi a favorita de estilistas e marcas como Giorgio di Sant’ Angelo, Halston e Teal Traina.

(Foto: Reprodução)

No auge da Era Disco, quando brancos vestiam calças bocas-de-sino e enrolavam os cabelos, e na contramão dos estereótipos raciais, que enxergavam o negro sob a perspectiva do exótico – a exemplo de Josephine Baker na década de 1920 –, seu estilo moderno contribuiu para revolucionar a visão da sociedade acerca da beleza negra. “Naomi foi a primeira”, disse o designer Halston em entrevista ao New York Times em 1974. “Ela foi a grande embaixatriz do povo negro. Ela quebrou todas as barreiras sociais.”

(Foto: Reprodução)

A modelo foi cogitada para protagonizar o clássico do ‘blaxpoitation’ Cleopatra Jones (1973), mas recusou ao ler o roteiro e considerar o filme racista, sendo substituída pela atriz Tamara Dobson. Em 1973, aos 25 anos, deixou a carreira alegando que “nada é mais triste do que uma modelo velha e sem dinheiro, e há muitas modelos que não têm nada ao final da carreira”. Sims se casou com o negociante de artes Michael Findlay, pai de seu único filho, e fundou seu próprio império multimilionário de perucas e produtos de beleza. Escreveu, ainda, os livros All About Health and Beauty for the Black Woman, How to Be a Top Model e All About Success for the Black Woman, especialmente destinados ao empoderamento da mulher negra.

Naomi Sims na revista Life (Foto: Reprodução)

Pouco antes de sua morte, em Agosto de 2009, Sims foi destaque na exposição The Model as Muse, ocorrida no Museu Metropolitano de Arte de Nova York. A mostra explorou o eterno caso de amor recíproco entre a moda e os ideais de beleza através das figuras de importantes modelos do século 20. “A simetria belamente contornada do rosto de Sims e a flexibilidade de seu corpo, apresentadas nas outrora excludentes páginas dos jornais da alta moda foram evidência do grande movimento social do Orgulho Negro e a completa expressão do ‘Black is Beautiful’”, escreveram os curadores Harold Koda e Kohle Yohannan.

(Foto: Reprodução)


Sims foi a precursora de modelos como Beverly Johnson e Naomi Campbell. “Ela quebrou o teto de vidro para abrir caminho às modelos e executivas negras, que seguiram seus passos”, disse Cambell ao site Essence. “Com tantas realizações em sua carreira, como a primeira modelo negra nas capas do suplemento do New York Times Fashion of The Times e da revista Life, Naomi foi uma inspiração para mim. Ela tinha estilo, beleza, graça e um ar de mistério. Sua elegância não será esquecida”. 

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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