Clarice Lispector entrevista Elke Maravilha



Por Rafaella Britto –


Consagrada escritora brasileira, Clarice Lispector transitou pelos diversos gêneros literários – da poesia ao romance. Menos conhecida, porém, é sua passagem pelo jornalismo: durante anos, a autora de A Hora da Estrela figurou na imprensa brasileira através de pseudônimos, com os quais assinava crônicas, reportagens, entrevistas e reflexões sobre comportamento e moda em jornais como A Noite e Diário do Povo. Estes textos foram reunidos pela pesquisadora e professora do Instituto de Ciências Humanas e Letras da UNIFAL-MG, Aparecida Maria Nunes, no livro Clarice na Cabeceira: Jornalismo (Rocco, 2012).

Dentre os trabalhos jornalísticos que compõem a coletânea está uma entrevista com Elke Maravilha, realizada em dezembro de 1976 para a revista Fatos e Fotos/Gente. Nesta conversa intimista, a modelo e atriz conta à Clarice suas perspectivas acerca da vida e carreira. Confira.

Entrevista de Elke Maravilha à Clarice Lispector na revista Fatos e Fotos/Gente, em 1976 (Foto: Arquivo de Vera Helena Saad Rossi)


 Ela nasceu em Leningrado e saiu pelo mundo afora com escala em Itabira do Mato Dentro. Capricha muito na arte de viver, mas o que sabe mesmo é interpretar seu melhor personagem.

 Quando telefonei, marcando um encontro em minha casa, às nove e meia da manhã, perguntei:

- Você é pontual?

Respondeu-me logo com sua voz macia:

“Sou mineira, nunca perco um trem.”

 Apareceu-me ela com um vestido longo de cetim branco, com pala de brocados, sobrancelhas raspadas e pintadas de quase vermelho até as têmporas. Ela é linda e se finge de tola, quando na verdade é muito inteligente e criativa. Cria suas próprias roupas que, se parecerem malucas, não importa: têm uma grande beleza exótica. Tudo a enfeita.

- Vi você na leitura prévia da peça de Heloísa Maranhão, A rainha morta. Quando você falava a plateia e eu caíamos na gargalhada, só ao ouvir o som da sua belíssima voz cantante. Você tem consciência de que tem um grande talento histriônico? Você roubou o papel de todos?

- Olha, amor, eu acho que eu como Elke me garanto. Aprendi a jogar minha pessoa para fora. Mas tendo um papel nas mãos, como Inês de Castro ou Clarice, aí já é outro papo. É uma coisa muito mais difícil para mim. Sobretudo porque não tenho prática de atriz.

- Você não precisa de prática, Elke.

- Você acha mesmo? Eu tenho minhas dúvidas.

[...]

- Adoro! Viver é minha única obra de arte e nela trabalho todos os dias com ardor para me construir toda, inteira na vida.

- Já a magoaram muito?

- Todas as pessoas já foram magoadas. Mas eu compreendo as que me magoam.

- Você tem medo de envelhecer?

- Adoro a velhice. Acho-a muito bela, cada idade tem sua graça e rugas nunca tiraram a beleza de ninguém.

- Se você não fosse Elke Maravilha, o que gostaria de ser?

- Clementina de Jesus. Clementina é uma deusa.

- Você costuma rezar?

- Sim, embora não sejam preces comuns.

- Você é supersticiosa?

- Não sou. Mas vejo que você bate na madeira.

- O que é mais importante para você: o amor ou o trabalho?

- O amor está ligado a tudo. Sempre trabalhei com amor e é por isso que me dei bem em todas as profissões que tive. Já fui bancária, secretária, professora, bibliotecária, tradutora.

- Você gosta de bichos? Para mim são essenciais.

- Gosto sim, mas mais de gente. Tenho uma gata que se chama Frineia.

- Diga a coisa mais linda do mundo.

- Você.
 26 de dezembro de 1976




Referências:

  • MARIA NUNES, Aparecida. Clarice na Cabeceira: Jornalismo. Ed. Rocco, 2012.
  • Revista Fatos e Fotos/Gente. Edição no 801. Ano XV. 26 de dezembro de 1976.
  • Revista CULT/Arquivo pessoal da professora Aparecida Maria Nunes


Foto Capa: Reprodução/Revista CULT


*Agradecimentos especiais a Heloísa Iaconis, que contribuiu com a pesquisa para a produção desta matéria. 

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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