[CRÍTICA] Nossas Noites: o reencontro de Jane Fonda e Robert Redford


Por Rafaella Britto –



O charme do casal Robert Redford e Jane Fonda eternizou Descalços no Parque como uma das mais irresistíveis comédias românticas do cinema americano. Agora, 50 anos mais tarde, o galã de Butch Cassidy e a eterna Barbarella se reencontram em uma trama menos eletrizante, porém igualmente sedutora: Nossas Noites (no original, Our Souls at Night), longa produzido pela Netflix, convida-nos à reflexão acerca da paixão, o amor e os caminhos da existência.


(Foto: Divulgação)

A história se inicia quando a viúva Addie Moore (Fonda) decide bater à porta de seu vizinho Louis Waters (Redford), professor aposentado, também viúvo, para propor-lhe que ele vá à sua casa de vez em quando para dormir com ela. Ela garante, no entanto, que não se trata de sexo: trata-se de proporcionar, um ao outro, alívio contra a insônia e a solidão. A proposta, realizada de maneira indecente e inusitada, deixa o sóbrio galã octogenário sem palavras. Ele, porém, cede aos encantos da bonita senhora, e os vizinhos que inicialmente se conheciam apenas de vista começam a estreitar relações em conversas que perpassam as escolhas do passado de cada um e suas consequências no tempo presente – ele, um pai ausente, e ela, marcada pela tragédia da perda de uma filha. Os laços de intimidade tornam-se mais fortes a partir da chegada do filho de Addie, Gene (Matthias Schoenarts), e o neto Jamie (Iain Armitage, da série Young Sheldon), que passará alguns dias na casa da avó. Addie e Louis veem-se novamente em suas respectivas funções de mãe e pai, e descobrem, na convivência, o significado da amizade e do amor.


(Foto: Reprodução)

Dirigido pelo indiano Ritesh Batra (de The Lunchbox, 2013) e com roteiro de Michael H. Weber (A Culpa é das Estrelas, 2014), Nossa Noites é baseado no best-seller homônimo de Kent Haref, romance do popular gênero da literatura contemporânea conhecido como ‘reifungsroman’, que retrata o amadurecimento na velhice. O mérito da obra está, sobretudo, na fuga aos estereótipos acerca da terceira idade comumente propagados pelo cinema: aqui não se pretende tecer críticas contundentes ao tratamento dispensado aos idosos pelas sociedades modernas. Distante da perspectiva senil e resignada, os idosos vivem sós, possuem a vivacidade, a lucidez e a independência que os fazem autores de suas próprias histórias.


(Foto: Divulgação)

A narrativa linear percorre o crescimento interior do casal protagonista, refletido de maneira sutil na mudança de figurinos, que tornam-se mais coloridos à medida em que floresce, entre ambos, o sentimento. Destaque para a fotografia de Stephen Golbatt (de Histórias Cruzadas, 2011) e também para a trilha sonora composta por clássicos do country como Emmylou Harris e The Highwaymen, que ditam o tom nostálgico do romance outonal ambientado em uma típica cidadezinha do Colorado.   


Jane Fonda e Robert Redford: reunidos 50 anos depois (Foto: Reprodução)


Nossas Noites teve sua estreia no último Festival de Veneza, onde Robert Redford e Jane Fonda foram homenageados com o Leão de Ouro. Na obra de Ritesh Batra, os astros revivem tipos semelhantes aos de Descalços no Parque – a donzela atrevida e o bonitão reservado. O filme torna-se digno de nota mais pelo casal principal – ambos em idade avançada e comprovando a química atestada outrora em A Caçada Humana (1966) e Cavalo Elétrico (1979) – do que pelo roteiro, embasado nas já conhecidas fórmulas do romance “água com açúcar”, previsível e, sob determinados aspectos, pouco ousado. Redford e Fonda, símbolos do cinema mundial, tornam Nossas Noites um hino aos “oldies”. O filme serve como doce e poética lição sobre o amor – o verdadeiro, que transcende o erotismo e firma-se no companheirismo, no gesto terno, na mão-amiga. Entretenimento mais que recomendável para as tardes de domingo.



Foto Capa: Divulgação

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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