Senhorita Garbo faz sua estreia no cinema e surge, como um cometa, no céu norte-americano




Segunda parte da entrevista de Greta Garbo à Photoplay.

Por Ruth Biery. Tradução de Camila Cruz – 


Capítulo II


A infância na Suécia, um pouco solitária, mas colorida por sonhos inseguros e ambições tímidas - este foi o tema da primeira parte da história de Greta Garbo. Lá, também, a senhorita Garbo contou sobre seu teste para ser admitida na Royal Dramatic School na Suécia e da sua enorme vontade de se tornar uma atriz. Ela francamente descreveu seu costume reprovável de se atrasar para as aulas.

Interrompemos o relato no primeiro encontro dela com Mauritz Stiller, o diretor que foi o primeiro a descobrir a possibilidade de levá-la para as telas do cinema. Agora continuaremos com o segundo capítulo da vida desta mulher fascinante.

(Foto: Reprodução)


“E uns dias depois, Mr. Stiller me ligou pedindo para que eu fizesse um teste no estúdio da ‘The Swedish film Company.’ Eu fiquei contente, mas ainda não estava muito ansiosa. Eu não me animo até que eu tenha algo concreto.

“Eu fui de bonde para o estúdio com uma garota chamada Mona Mortenson. Ela está aqui na América – em Hollywood – agora. Mas ela voltará para a Suécia. Ela não deu muito certo aqui. Nós duas éramos da Royal Dramatic School. Não é engraçado que tenhamos nos conhecido enquanto nós duas iríamos fazer um teste e voltamos a nos encontrar agora, nessa cidade?

“O teste, para mim, foi muito divertido. O teatro é muito diferente do cinema. No teatro você pode contar com a voz, mas nos filmes você só pode usar seu rosto.

(Foto: Reprodução/Getty Images)

”Eu estava muito insegura. Eu entrei no estúdio, eles me maquiaram, então me levaram para um lugar, mandaram que eu deitasse em uma cama e ficasse doente, muito doente. Eu não entendia o que estava acontecendo. Parecia uma brincadeira, como eu poderia vir da rua e imediatamente ficar doente assim?

“E eu fiquei com vergonha. Eu estava com vergonha de tentar fazer o que pediam e cair em alguma brincadeira. Eu nunca tinha caído em uma brincadeira assim e fiquei com medo de que acontecesse e me fizessem de boba.

“Mr. Stiller aguardou por um tempo, então disse ‘Meu Deus, não pode fingir estar doente? Você não sabe como é estar doente?’

“E então eu descobri que não estavam brincando comigo e que não estavam tentando me enganar. Eu descobri que em filmes algo assim poderia ser necessário e então eu me transformei em uma moça muito doente.

“Eu voltei para casa. Ainda não sabia se eu havia conseguido um papel. Eu fui à escola e uns dias mais tarde ele me ligou e disse que tinha um papel para mim. Agora eu tinha alguma coisa e poderia ficar pelo menos um pouquinho animada.”

Gösta Berling's Saga, 1924 (Foto: Reprodução)


Greta Garbo pausou para lembrar a excitação de, aos dezoito anos, conseguir seu primeiro emprego no cinema.

"E ele me deu o papel da Condessa Dohna [sic, ela foi a filha adotiva da Condessa] em Gösta Berling. 'O melhor papel no meu melhor filme!'" Ela pausou novamente para se lembrar.

"No primeiro dia de trabalho eu estava tão assustada que eu não conseguia trabalhar. Eu estava muito assustada mesmo. Então todo mundo saiu do estúdio e me deixou sozinha. Os eletricistas, os assistentes, até o Mr. Stiller. Ele disse que me deixaria ensaiar sozinha. Mas eu sabia que ele estava olhando de algum canto. Eu olhei para todos os lados e não o encontrei, mas sabia que ele estava lá. Então eu não ensaiei. Eu não ficaria ensaiando sozinha, - eu não ia fazer papel de boba.

"Lars Hansen era o meu par no filme. Ele voltou para a Suécia já -" Ela se interrompeu com a voz um pouco tremida pela saudade.

"Mas nós não tivemos cenas românticas; nem um beijo. Não era um filme americano.

Com Lars Hansen em Gösta Berling's Saga, 1924 (Foto: Reprodução)


"O filme demorou muito para ficar pronto. Algumas cenas tinham que ser na neve e tivemos que aguardar o inverno para filmá-las. Quando acabou, eu já não tinha mais medo. Mas eu sempre fico nervosa e inquieta quando faço um filme. Não posso evitar. É por isso que eu não gosto que as pessoas assistam enquanto atuo. Eu não permito que ninguém fique no set. Eu fico sozinha tanto tempo quanto é possível enquanto estou fazendo um filme. Eu sento sozinha em um canto, ou vou para o meu camarim, ou vou para fora para caminhar um pouco, sozinha, enquanto os outros estão trabalhando. Eu não gosto que alguém simplesmente chegue perto de mim e diga 'e aí, o que achou da partida de futebol de ontem?' como eles fazem aqui na América. Eu não consigo voltar para o lugar de onde eu vim. Eu não consigo me concentrar novamente para dar o meu melhor se isso acontece. É a mesma coisa com todos os filmes - eu fico tremendo, toda vez.

"Quando terminamos 'Gösta Berling' eu não tinha mais nenhum filme para gravar, então voltei para a escola. Nós temos que gravar no verão, tirando cenas que precisam de neve - Não, as coisas não mudaram na escola. Eu continuava a Garbo desobediente e continuava chegando atrasada de manhã.

"Quando o verão chegou novamente, eu recebi um telegrama de Mr. Stiller. 'Não faça planos para o verão,' dizia ele. Claro, havia agora outras empresas que talvez quisessem me contratar. Mas eu não fiz nenhum plano. Fui para o interior. Oh, sim, sozinha. Eu sempre ia sozinha. É assim que eu gosto - ir para o interior, completamente sozinha. Um casal de velhinhos cozinhava e mantinha a casa arrumada para mim. Na América não tem muitos lugares onde se pode ficar sozinho." A voz dela entristeceu. "Aqui sempre tem gente - eu sinto falta daquilo. Algumas pessoas precisam de outras pessoas. Eu preciso ficar sozinha, sempre. No meu país se tem tanta privacidade no verão. No solstício você pode ler a noite inteira, ao ar livre. Com os ruídos do interior, o ar maravilhoso - Ah, - isso conquista qualquer um." Ela pausou e fechou os olhos para lembrar.

(Foto: Reprodução)


"Enquanto estava lá," passaram-se, possivelmente, cinco minutos antes que ela continuasse, "recebi uma carta do Mr. Stiller. Eles queriam que eu fosse à Berlim para a estreia de 'Gösta Berling'. Eu voltei para Estocolmo e Mr. Stiller foi me ver - eu devo tudo nesse mundo ao Mr. Stiller. Eu nunca vi uma pessoa tão linda por dentro!

"Não, eu nunca tinha saído de Estocolmo antes. Eu não estava muito animada" - Greta Garbo hesitou, cruzou as mãos sobre o colo e esperou por alguns momentos. Então, muito devagar, ela voltou a explicar pausando em cada palavra. "Eu não sei como deveria dizer isso. As pessoas provavelmente não acreditarão no que eu digo - mas eu tenho esse sentimento maravilhoso, - eu sinto como se tivesse vivido - antes. E nunca fico surpresa com nada. Eu sinto, sempre, como se já tivesse passado pelo que está acontecendo - que não é uma experiência completamente nova. Eu não saberia descrever, mas aqui -" e ela tocou o próprio peito - "eu sinto isso.

(Foto: Reprodução)


"Miss Lundequist, uma atriz sueca muito famosa, atuou no filme conosco. Ela é uma pessoa maravilhosa. Tem a melhor opinião de todos que conhece... e é muito empenhada - o que a deixa esgotada, sempre.

"Essa estreia em Berlim foi muito boa para nós. Oh, sim, foi uma estreia enorme. Tudo o que Mr. Stiller faz na Europa é enorme. Lá ele é um grande mestre. Todo mundo vai ver os filmes dele.

"Nós aparecemos no palco. Eles nos mandaram muitas flores. Eles fizeram aquilo se tornar uma ocasião importante para todo mundo. Os alemães são maravilhosos. Eles não nos tocam, mesmo que estejam praticamente te abraçando - nunca tocam.

"E Ber-lim!" Eu gostaria de poder reproduzir a pronúncia exata de Greta Garbo quando diz Ber-lim. O amor que ela coloca na palavra.

"Eu nunca vou esquecer quando fui para lá. O cheiro da cidade. Um cheiro maravilhoso da mistura de tudo que há lá. Você pode sentir no fundo do peito, quando puxa o ar. Eu nunca tinha estado em uma cidade tão grande antes - um lugar onde há tanta, tanta gente. Mas eu podia sentir o cheiro antes mesmo de entrarmos na cidade - e também era como se eu já tivesse sentido aquele cheiro," ela abaixou um pouco a voz, "como se já conhecesse Berlim, da forma como falei antes.

"Enquanto estivemos lá, na semana da estreia, algumas pessoas falaram com o Mr. Stiller sobre irmos para a América. Ele conversou com essas pessoas, mas foi apenas isso. Nós voltamos para Estocolmo e nos preparamos para fazer um filme alemão.

(Foto: Reprodução)


"Um mês depois voltamos para Berlim e depois fomos para a Constantinopla, onde faríamos as filmagens. Haveria muitos turcos no filme.

"Constantinopla! Eu nem sei como descrevê-la Não é como as pessoas falam. Eles não estão fantasiados. Eles se vestem como qualquer outro europeu... tirando os turcos muito velhos, que são sujos.

"As ruas estreitas cheias de pequenas lojinhas sujas; cafés sujos cheios de comida gordurosa. Turcos ociosos - eles são fascinantes.

"Um dia eu estava caminhando sozinha na rua e comecei a seguir um dos turcos mais velhos; dos sujos com calças engraçadas. Já viu um deles? Eu não sei por quantas horas eu o segui. Ele não foi a lugar algum; não fizemos nada além de caminhar sem rumo. Ele estava tão sujo, mas era tão fascinante.

"Nós nunca começamos aquela filmagem. A empresa faliu. Mr. Stiller teve que voltar à Alemanha para verificar porque o dinheiro não estava chegando para nós. Eu fiquei sozinha na Constantinopla. Oh, sim, Einar Hanson" - ela pausou, "o menino sueco que morreu aqui em Hollywood não muito tempo atrás - estava lá também. Ele iria atuar comigo no filme, mas não o vi muitas vezes.

"Eu fui convidada a ir à embaixada Sueca. Fui duas vezes, mas não gostei. Eu não queria ficar com muita gente. Eu gostava de ficar sozinha na Constantinopla. Eu ia aos bazares com um guia. Eles são enormes. Você nunca conseguiria se encontrar ali sem alguém para te guiar.

"Eu estava tão inquieta. Era frustrante não ter dinheiro para o nosso filme. Mas eu não me sentia solitária. Eu andava pela cidade antiga completamente sozinha a maior parte do tempo.

(Foto: Arnold Genthe/Reprodução)


"Eu amo viajar. Eu gostaria de ter dinheiro o bastante para viajar. Não tem nenhum lugar específico para o qual eu queira ir - exceto para a Suécia. Eu quero conhecer todos os lugares! Quero conhecer as montanhas chinesas, o Japão. Chineses e japoneses têm rostos tão estranhos. Eu fico pensando como eles devem ser por dentro. Eu gostaria de ir à China para tocar naquelas coisinhas que estão na Terra há tantos milhares de anos. Eu não quero companhia. Não é necessário ter companhia quando viajamos. Se eu voltar à Suécia," ela suspirou. "Eu não sei. Talvez fique um, dois, três meses. Talvez ela seja pequena demais para mim. Eu quero ir a todo lugar e ver todo tipo de gente.

"Sim, eu gostaria de voltar à Constantinopla. Mas não para morar lá. As cores daquele lugar! Não dá para descrevê-las. Eu gostaria de vê-las novamente, mas não ficaria lá mais do que o mês que fiquei da outra vez.

"Foi um pouco chocante não fazer aquele filme. Mas não foi minha culpa. Mesmo que eu estivesse tão inquieta, por que eu deveria me preocupar? Existiam outros lugares para se trabalhar e eu era jovem - e eu estava sozinha em uma cidade enorme e linda.

(Foto: Reprodução)


"Mr. Stiller voltou e me levou para Berlim para fazer outro filme que ele não estava dirigindo. Era 'The street of Sorrow.' Um péssimo filme. Quando exibiram em Nova York as pessoas não gostaram.

"Louis B. Mayer [um dos donos MGM] estava em Berlim. Ele queria assinar um contrato conosco para a empresa dele. O que quer que Mr. Stiller dissesse, eu sabia que era a melhor coisa a se fazer. Eu perguntaria, 'É bom?' e se ele dissesse, 'É bom.' eu simplesmente faria.

"Quando conheci o Mr. Mayer ele mal olhou para mim. Acho que deve ter olhado um pouco de soslaio, mas eu não o vi. Toda a negociação foi feita apenas com Mr. Stiller.

"Assinei um contrato de três anos. Era para receber 400 dólares por semana. Eu não faço ideia do quanto eu recebia na Europa.

"Mr. Stiller entregava para mim o dinheiro e eu gastava, não sou muito boa com essa coisa de economia.

"Voltei a Estocolmo para me preparar.

(Foto: Russell Ball/Reprodução)


"Era um sentimento muito estranho. Eu estava indo para um lugar onde nunca fora antes. Não fazia ideia do que aconteceria.

"As pessoas daqui não entendem o que significa vir para a América para alguém do meu país. Nós sempre choramos muito - temos uma sensação de que quem vai nunca mais voltará para o próprio país e para o próprio povo. Meu povo não entende como esse mundo é pequeno. Eles não sabem como funcionam os trens e os navios. Eles acham que quem vai, vai para sempre.

"Minha mãe não disse muita coisa. Ela disse, 'Acho que você sabe bem o que está fazendo, e quero que vá para onde achar que deve.'

"Minha mãe, minha irmã e meu irmão foram até a estação de trem. Minha mãe ficou parada olhando para mim. Os olhos dela muito inchados - enormes.

"O nome do meu irmão? Da minha irmã? Qual a importância? Eles são meus. Por que devo dizer os nomes deles para outras pessoas? Nomes não importam. Se eu os lesse em algum lugar isso iria me magoar... iria me machucar aqui." Ela cobriu o coração com as mãos, como se pudesse protegê-lo.

"Eu fui muito corajosa. Tudo o que disse foi 'voltarei em um ano, apenas doze meses.' Eu não volto para casa há dois anos e meio.

"Minha irmã. Eu a chamo de minha irmãzinha, mas ela era dois anos mais velha. Apenas dois meses depois que vim para cá ela, uma pessoa da minha família, morreu.

"Essa é a pior parte. Estar tão longe quando algo acontece. Gente do seu próprio sangue -

"Eu não conseguia entender. Ela sempre foi muito saudável. Ela era tão linda. Aí ficou doente - só um pouco doente - e -" um soluço escapou dos lábios de Greta Garbo. Ela conteve um segundo, apressando-se a voltar a falar - "Eu a traria para cá hoje em dia. Ela estaria no cinema também - Mas a forma como as coisas funcionam... a forma que temos que trabalhar para conseguir resultados! Talvez seja melhor que - minha irmã -

Com a mãe, Anna Lovisa (Foto: Reprodução)


"Nós zarpamos de Gutemberg. Oh, foi maravilhoso, no oceano. Eu adoraria repetir aquela viagem. Você se sente livre no oceano. Você está lá - e não pode fugir daquilo.

"A não ser que queira ir para a água. Isso tira um peso de você. Você fica quase" - a voz dela saiu como um semi-sussurro - "você se sente quase feliz.

"Feliz," ela repetiu.

"Feliz é uma palavra grande demais para que se use com frequência. Significa muito no meu país - a palavra 'feliz', nós quase nunca a usamos. Aqui vocês usam com muita frequência.

(Foto: Arnold Genthe/Reprodução)


"Eu usava um casaco pesado enquanto andava o deck e observava o oceano. Eu não falava com ninguém, a não ser um garotinho. Pequeno Thommy. Eu queria muito dar bolos e tortas para ele. Mas ele nunca tinha comido essas coisas. Os pais dele eram muito cuidadosos.

"As crianças não se apegam. Você pode dizer coisas muito inteligentes para elas. Quando você fala alguma bobagem, eles apenas olham para você, e você nota que eles estão pensando: 'Por que você está falando tanta besteira?' Crianças são pessoas muito sensíveis.


"Chegamos ao porto de Nova York à noite. Quando avistamos as luzes, muitas pessoas gritaram. Eles eram nova-iorquinos. Dava para notar.

"Eles sentiam como vou sentir quando voltar para a Suécia.

"Eu achei que na América tudo seria ótimo. Eu imaginei que haveria praticamente um tapete de flores nas ruas de Nova York. Mas não estava muito animada.

"Eu não me animo muito. Mas eu estava pronta para ver as flores nas ruas das cidades americanas.



Miss Garbo encontrou flores nas ruas das cidades americanas?

Provavelmente nenhuma mulher da indústria cinematográfica teve uma carreira tão agitada quanto a da senhorita Garbo. "Temperamental", "difícil de lidar", "uma mulher que diz 'vou embora!'" são algumas das maneiras como se referem a ela nesse país. O porquê disso ela irá contar no próximo número da Photoplay.





 Publicado por Ruth Biery em Maio de 1928 na revista Photoplay. Tradução de Camila Cruz.


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Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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