Primeiro capítulo da vida da estrela mais popular das telas de cinema




   Ao longo de sua vida, a misteriosa dama das telonas, Greta Garbo, concedeu somente 15 entrevistas. Uma delas, publicada em três edições da revista Photoplay, em 1928, você confere na íntegra e em tradução exclusiva da autora convidada Camila Cruz.

   Nesta primeira parte, Garbo relata seus primeiros anos em Estocolmo – a infância taciturna, a aproximação do teatro e do cinema e o início como atriz.


(Foto: Reprodução)



Ditado pela própria Greta para Ruth Biery




Era início da noite de sábado, véspera de ano novo, 1927. Greta Garbo estava sentada em uma mesinha de uma sala de chá modesta em Santa Monica, Califórnia. Ela tinha acabado de tirar dos ombros um enorme casaco de pele cinzento "desses que usamos na Suécia" e olhava ansiosamente pela janela como se pudesse se misturar aos segredos obscuros da noite.

"Não vamos falar de mim!" ela suplicou. "É véspera de ano novo. Na Suécia isso significa muito, muito mesmo. Lá nós vamos à igreja, comemos, bebemos, visitamos todos os nossos conhecidos. Eu fiquei triste o dia todo. Em casa, em Estocolmo, eles estão esquiando, patinando no gelo, jogando bolas de neve uns nos outros... de bochechas avermelhadas - oh, por favor, não vamos falar de mim.


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"Eu nasci; eu cresci; eu vivi como qualquer outra pessoa. Por que as pessoas falam de mim? Todos nós fazemos as mesmas coisas de formas que são apenas um pouco diferentes. Nós vamos à escola, aprendemos; somos maus de vez em quando; somos bons em outras vezes. Nós encontramos algo em que trabalhar e trabalhamos nisso. É isso o que acontece na vida de todo mundo, não é?

"Eu tenho lido sobre a vida de outras pessoas. Algumas delas nascem em casas de tijolos vermelhos, outras em casas brancas. Qual é a diferença? Todos nós nascemos em alguma casa. Eu não quero que seja publicado que eu nasci nessa ou naquela casa; que minha mãe era isso e meu pai era aquilo. Eles eram minha mãe e meu pai, da mesma forma que seus pais são seus pais. Para mim é isso que conta. Por que o mundo deveria falar deles? Eu não quero que o mundo fale da minha mãe e do meu pai.

        "Nem do meu irmão, nem da minha irmã. Minha irmã morreu quando vim para os Estados Unidos - e eu não vou entender isso até o momento em que eu voltar para casa e realmente ver que ela não estará lá para me receber.

(Foto: Reprodução)


"Meu irmão quer vir para a América. Eu não sei. Filmes? Ele é tão tímido. Mas até aí eu também era tímida.

"Por que eu deveria falar para o mundo sobre eles? Eles são meus! Não, eu sou a mais nova, mas eles sempre me trataram como a mais velha. Eu não me lembro de como é ser jovem, jovem de verdade, como as outras crianças. Eu sempre tive as minhas opiniões, mas nunca fazia com que outras pessoas mudassem as próprias pelas minhas. Ninguém nunca pareceu pensar que eu era jovem demais.

"Meu pai morreu quando eu tinha 14 anos. Deus, que sentimento horrível. Alguém que você ama está com você e de repente já não está mais. Está em algum lugar onde você não pode mais ver ou falar com ele. Você vai para o estúdio, trabalha o dia todo, volta para o hotel, deita, apaga as luzes e pensa nele.

"A mesma carne, o mesmo sangue - e ainda assim ele se foi para nunca mais voltar - meu Deus, que sentimento horrível. Eu sempre fui taciturna. Quando eu era só uma criancinha, tão pequena quanto posso me lembrar, eu já queria ficar sozinha. Eu detesto multidões, não gosto de muita gente. Eu engatinhava para um canto e me sentava para pensar, apenas pensar nas coisas. Quando eu era só uma criança eu sempre pensava e ficava imaginando o porquê das coisas, o porquê de estarmos vivos.

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"Deveriam permitir que crianças fossem seres pensantes; não deveriam aborrecê-las. 'Vai lá brincar agora', dizem as mães e os pais. Eles não deveriam fazer isso, pensar significa muito até mesmo para crianças pequenas.

"Quando eu não estava pensando, não estava imaginando o que que significava viver, eu estava sonhando. Sonhando em como eu poderia me tornar uma atriz.

      "Ninguém da minha família veio do teatro. Acho que isso surgiu apenas dentro de mim. Porque quando eu era pequenininha eu tinha desses jogos de tinta guache, assim como todas as outras crianças tem. Só que eu desenhava no meu próprio corpo ao invés de desenhar no papel. Eu pintava meus lábios, minhas bochechas... eu achava que era assim que as atrizes faziam as maquiagens.

"Muito antes de conhecer o teatro, eu fazia isso. Eu não sei de onde surgiu: de filmes, da conversa de outras pessoas - ou de mim mesma, de dentro de mim. Eu não brincava muito. Exceto por patinar, esquiar e atirar bolas de neve, a maior parte das minhas brincadeiras era pensando. Eu brincava um pouquinho com meus irmãos, fingindo que estávamos em espetáculos, como outras crianças, mas normalmente eu fazia sozinha o meu próprio faz-de-conta. Era cheio de altos e baixos. Em um momento era algo muito feliz, no próximo não havia mais nada.


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"Então eu descobri um teatro. Eu tinha seis ou sete anos. Dois teatros, na verdade. Um era um cabaré, o outro um teatro normal, - de frente um para o outro. E havia um beco atrás deles onde os atores e as atrizes iam para chegar à porta dos fundos. Eu costumava chegar lá às sete da noite, quando eles entravam, e esperar até às oito e meia. Via eles entrando, ouvia-os se arrumar. A porta dos fundos estava sempre aberta, mesmo quando estava muito frio.

"Ouvia as vozes deles ao interpretarem os papéis nas montagens. Sentia o cheiro da maquiagem! Não existe cheiro no mundo como o cheiro do 'quintal' de um teatro. Nenhum cheiro significará tanto para mim - jamais.

        "Na noite passada, pela primeira vez desde que eu vim para esta cidade, eu fui a um teatro. Fui ao Biltmore, em Los Angeles. Fui lá para os camarins e conversei com as moças; assisti enquanto elas se maquiavam. Senti o cheiro do 'quintal' do teatro, exatamente como fazia quando era pequena.

(Foto: Reprodução)


"Noite após noite eu me sentava ali, sonhando. Sonhando com quando eu estaria lá dentro, me arrumando. Sozinha. Eu não gosto de estar com pessoas - e eu não suporto nenhum tipo de briga.

"Uma noite, quando eu estava voltando para casa, eu vi dois homens brigando. Eles estavam bêbados. Eu não suporto bêbados! Um era grandalhão e o outro pequeno. O grandalhão estava machucando o menor. Eu fui até lá e puxei a manga do grandalhão. Perguntei o que é que ele estava fazendo. Ele olhou para mim... eu tinha oito anos.

"'Tudo bem. Pode ir embora, graças à sua filhinha.' Aí eu saí correndo. Eu não era filha dele.

"É a mesma coisa hoje em dia. Se eu vejo um acidente ou ouço duas pessoas brigando eu fico incomodada. Eu nunca brigo e sequer interpreto brigas no cinema.

"Eu odiava a escola. Odiava as obrigações que ela trazia consigo. Tinha tanta coisa para fazer lá fora. Minha matéria favorita era história. Mas eu tinha medo dos mapas - vocês chamam de geografia. Mas eu tinha que ir à escola como todas as outras crianças. Escola pública, como as que vocês têm aqui.

"E eu ia ao cinema, como as outras crianças. Eu não assisti a nenhuma peça - na plateia - até completar doze anos. Mas eu ia bastante ao cinema. Eu geralmente pagava pelas minhas entradas, mas às vezes conseguia persuadir o rapazinho na porta ser gentil e o dinheiro não era necessário.

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E isso foi tudo o que eu soube dos palcos até meus dezesseis anos. Aí eu conheci um ator. E eu disse para ele, assim como milhões dizem para atores, que eu gostaria de interpretar. Perguntei para ele, como todo mundo faz, como eu poderia fazer isso. Ele procurou um ator mais conhecido que ele e nos apresentou.

"Era o Franz Envall. Ele já faleceu, mas tem uma filha na Suécia que ainda atua. Ele disse que pediria para que tentassem me admitir na Dramatic School of the Royal Theater em Estocolmo.

"A escola fazia parte do teatro do rei e da rainha da Suécia. Não, não cobram nada para você estudar lá, mas você também não recebe pelo trabalho.

"Você faz um teste para ser admitido. Tem um júri de umas vinte pessoas. Críticos de jornal, pessoas do teatro, atores, diretores da escola e outras pessoas.

"Eu estudei por seis meses. Eles me deram uma peça sueca escrita por Selma Lagerlov e 'Madame Sana Gene,' que é francesa.

"Meu teste foi em um dia muito bonito de agosto. Não estava frio, mas não estava calor também, mais ou menos como é aqui nesse país. Eu me lembro que tinha passado um pouco do meio dia. Eu tinha apenas dezessete anos e estava assustada. Meus joelhos tremiam.

"Eu tremia inteira. Oh, eu quase desmaiei quando terminou!

"Eu não via ninguém. Eles estavam na parte da frente da plateia. Tudo o que eu podia ver era a escuridão - um espaço escuro enorme. Tudo o que eu ouvia eram alguns sussurros. Eu estava tão envergonhada! Eu nunca tinha tentado atuar. Os novatos - que estavam lá havia um ano - estavam no palco. Eles liam as outras falas. Eu disse as minhas. E depois eu corri para fora do palco. Até esqueci de me despedir. E estava morrendo de medo. Eu achei que pensariam que eu tinha sido mal-educada por ter esquecido de dizer adeus. Uns dias depois eles me telefonaram anunciando que eu tinha conseguido."

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Greta Garbo parou de falar, suspirou profundamente três vezes, abriu os braços e continuou:

'Ah, meu Deus, como eu estava feliz. Eu quase morri de felicidade. Ah... hoje, mesmo hoje, eu mal posso respirar quando me lembro. Porque eu sabia que, muito em breve, eu seria uma atriz de verdade!

"Mas," a voz dela soou um pouco arrependida. Então ela riu e seus olhos brilharam. As pessoas não veem os olhos de Greta Garbo brilhar com muita frequência.

"Mas eu era uma criança terrível. Eu irritava a escola inteira. Eu gostava de sair a noite. Nós vivíamos em Estocolmo e as coisas não são muito distantes lá. Você pode pegar um táxi e estar em praticamente qualquer lugar em menos de cinco minutos. Em qualquer teatro da cidade. Eu gostava de ir ao teatro a noite.

"Então eu estava atrasada quase todas as manhãs! Os exercícios eram a primeira parte das aulas - e quase sempre eu os perdia. As outras alunas eram mocinhas lindas, encantadoras que eram sempre pontuais. E então vinha a Garbo, atrasada como sempre.

"Eu chegava na porta e dizia, 'Eu ouvi um boato de que a escola estava ainda no mesmo lugar. Mas estou tão cansada; Garbo está tão cansada -'

"E ninguém dizia NADA para mim!

"Mas começou a se tornar algo sério. Eu comecei a me atrasar muito. Se alguém tem privilégios, você sabe como é... não, eles não me repreenderam. Se me repreendessem eu seria pontual. Eu não suporto ser repreendida. Geralmente nós saíamos para tomar café, todos juntos, na hora em que eu finalmente chegava para a aula. Sim, eles nos ensinavam a dançar. Mas eu não danço. Eu tinha muita vergonha de dançar. Eu era muito grande. Oh, sim, eu era enorme. Eu já era do tamanho que eu sou hoje quando tinha uns doze anos. Eu não cresci nem um pouco desde então. Não sou sortuda?

"Em todo lugar que eu ia quando era criança as pessoas me apontavam porque eu era grande - muito, muito grande.

Greta Garbo (última, à direita) em seus primeiros anos como modelo publicitária na Suécia (Foto: Reprodução)


"A escola de teatro era maravilhosa. Tínhamos os melhores professores. Eles nos davam algumas peças para estudarmos. Sempre com dois alunos por professor.

"Não, nós nunca nos apresentávamos. Ficávamos na parte dos fundos do Royal Theater.

"Nós nunca reclamávamos.

"Apenas continuávamos a aprender o que vocês chamam de presença de palco.

"Normalmente o curso durava dois anos, mas eu estava começando o terceiro quando um dos professores disse que Mauritz Stiller queria uma moça para aparecer em um filme dele. Eu disse 'É mesmo? Eu vou procurá-lo!' Não pensei muito sobre o assunto. Eu nunca fiquei muito ansiosa por alguma coisa até que ela realmente estivesse acontecendo. É muito doloroso quando a gente se desaponta.

(Foto: Reprodução)


"Naquele dia, depois da escola, eu fui até a casa dele. Eu nunca tinha visto o Sr. Stiller. Para mim ele era apenas um homem muito importante.

"Ele é muito conhecido na Europa, um dos mais conhecidos.

"Ele não estava em casa. Então eu sentei e esperei. Logo ele apareceu com um cachorro imenso.

"Eu comecei a tremer.

"Ele era muito engraçado. Olhou para mim, de cima a baixo. Me observou em detalhes.

"Depois de um tempo ele ainda sabia me dizer exatamente o que eu vestia, até os sapatos e tipo de meias que eu estava usando - meias e sapatos pretos de saltos baixos. Na hora ele apenas disse alguma coisa sobre o tempo.

"Às vezes parecia que ele olhava para algum outro lado, mas eu sei que ele estava olhando para mim o tempo inteiro. Depois de um tempo, ele disse 'Você não vai tirar seu chapéu e seu casaco?' - como se já tivesse me pedido uma centena de vezes antes, mas ele não tinha pedido nenhuma.

"Então ele me observou mais um pouco e disse, 'Qual é o seu telefone?'
"E eu tinha certeza que era aquilo, 'ele não está interessado', eu pensei 'Eles sempre pedem nossos telefones quando não estão interessados.' Por isso coloquei o meu casaco, o meu chapéu, e fui embora. 
Não, eu não estava preocupada. Eu sequer pensei naquilo depois -"

Mas estava mesmo acabado? Miss Garbo, tida por milhões como a figura mais interessante do cinema e certamente a mais misteriosa continuará a história da carreira dela no próximo número.



Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

4 comentários:

  1. Parabéns pela matéria! Sempre quis ler alguma das poucas entrevistas que Garbo deu :)

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    1. Obrigada, Lê, fico feliz que tenha gostado! Aguarde a segunda parte.

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