Glam rock: nas ondas coloridas da androginia

Por Thayane Maria –

Em meados das décadas de 60 e 70, os jovens vestiam-se de liberdade. Ela era a força motriz que movia o rock, a moda, o cinema, a literatura, a política e a sociedade como um todo. Embora a elite conservadora se colocasse contra, o estado de libertação era unânime e incessantemente procurado pelos jovens. Assim surgiu, na cena underground inglesa, o fenômeno glam rock.

Bryan Ferry e Roxy Music, ícones do glam rock (Foto: Reprodução)

A palavra “glam” deriva de “glamour” ou “glamoroso”, e, no dicionário urbano, tornou-se, graças ao seu fenômeno cultural nos anos 70, um adjetivo dado a indivíduos que se vestem de forma exuberante, chamativa, geralmente com cores fortes e muito brilho. O movimento penetrou tão profundamente na cultura urbana que deixou de ser apenas uma moda, ou uma prossecução de um subgênero do rock, mas um ponto de vista, uma posição ou convicção e, principalmente, uma forma de exteriorizar uma personalidade ousada e progressiva.



Com bastante influência do surrealismo, o glam explorava também a faceta narcisista e hedonista. Marc Bolan, Elton John, Bryan Ferry, Brian Eno e, no Brasil, Rita Lee, enalteciam a si mesmos, abusando de cílios postiços, cores, brilhos e adereços moralmente não aceitos, como arcos espalhafatosos, casacos brilhantes, plumas coloridas e saltos plataforma. Essa falta de seriedade e compromisso apenas com o prazer foi outra característica marcante do movimento.

Bryan Ferry (Fotos: Reprodução)

Marc Bolan (Fotos: Reprodução)

Brian Eno (Fotos: Reprodução)

Elton John (Fotos: Reprodução)

Rita Lee (Fotos: Reprodução)

A cultura glam teve uma grande influência na aceitação social e individual de inúmeros dogmas presentes na sociedade daquele início de década, como a sexualidade e a recém-descoberta e ainda pouco explorada possibilidade de expressão do próprio self através das roupas, sem a necessidade de escolha de um prognóstico concreto sobre a própria sexualidade. O estilo ia muito além da distinção entre o masculino e femininoele navegava nas ondas coloridas da androginia.

O casal da década: Gloria Jones e Marc Bolan (Foto: Reprodução)

Personalidades como o Rolling Stone Mick Jagger – um womanizer (mulherengo) que vivia cercado de groupies – e David Bowie com sua persona alienígena Ziggy Stardust, chocaram o mundo ao explorarem o corpo e a sexualidade, entendendo o gênero como uma linha tênue cheia de nuances e matizes, passível de transmutação.

Mick Jagger (Fotos: Reprodução)

David Bowie (Fotos: Reprodução)

Esse era o estado de espírito da era glam, que contagiou praticamente todas as personalidades do show business da época, provocando a quebra de paradigmas, e mantendo seu significado devidamente valorizado até os dias de hoje. Estilistas como Calvin Klein, Jean-Paul Gaultier e Ralph Lauren trouxeram as influências visuais do glam em suas cole
ções e temporadas para as passarelas do mundo.

Gaultier, Dior e Calvin Klein inspiram-se no colorido do glam rock (Fotos: Reprodução)

A era glam começou sendo mais um movimento da moda nascido no subúrbio de Londres, mas foi pouco a pouco modificando a forma como as pessoas olhavam para si próprias e descobriam como queriam ser vistas. O estilo ajudou a criar uma imagem visual na qual a sexualidade pudesse ser expressa livremente e sem rótulos, exteriorizando a essência dos sentimentos mais abundantes.

Ziggy Stardust & The Spiders from Mars (Foto: Reprodução)


Por trás das inúmeras cores, plumas, glitter, purpurinas e saltos plataforma, havia uma intenção fidedigna de quebrar tabus, movimentar o status quo e incentivar a sociedade a sair de dentro da sua própria caixa. O que começou apenas como uma tendência fashion culminou em uma profunda ruptura do modus operandi do cotidiano, causando uma reação em cadeia na qual artistas se sentiam influenciados e influenciavam pessoas comuns, que também se sentiam artistas por estarem no controle de si mesmos
e de sua própria arte. O glam realizou com maestria a principal função da moda, que é refletir no vestuário os costumes, hábitos e diversos estilos que compõem uma época.
Sobre a autora:
Thayane Maria, 23 anos, jornalista e futura cineasta. Pin-up, mística e selvagem. Além de colaborar com o Império Retrô, também escreve para o blog da Estante Virtual. Ama cinema clássico, coleciona fantasias – (quase) todas colocadas em eu lírico – e vive em eterna busca pelo que é excêntrico. 

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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