Quantas mulheres há em Clarice?



Por Heloísa Iaconis, autora convidada –


Joana, Virgínia, Lóri, G.H., Laura, Ana, Lucrécia, Macabéa e Ângela: algumas das personagens femininas de Clarice Lispector. Não, números não cabem aqui; eles não dão conta de contar o que há para ser contado. Entende? Quantas mulheres, afinal, há em Clarice? Sem perigo de erro, o resultado: todas. Como? Cada uma que floresce mundo afora. A escritora brasileira (que, apenas por acaso, nasceu na Ucrânia) entra por debaixo da pele, aperta feridas e toca no âmago. Despe a alma humana e a coloca ali, nua, sem máscaras grossas e hipócritas. O feminino aparece, em grande parte de sua obra, como força motriz e palco, interior e íntimo e vívido, da mulher se conhecendo enquanto mulher e humana. Ir de encontro às angústias e contradições intrínsecas ao que é vivo - em cenários, por vezes, rotineiros (mistérios espreitam o cotidiano). Da juventude ao envelhecer: os escritos clariceanos acompanham o périplo da menina que, anos mais tarde, ostenta cabeça branca. Entende? Mais do que ler: sentir as palavras (e as não-palavras) de Clarice é comer, como massa branca de uma barata, a vida das muitas mulheres que moram ao seu lado. Das muitas mulheres que vivem em você. Fruir, doce-amargo-amargo-doce, o próprio eu.


Foto Capa: Reprodução

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário