Feud: Bette e Joan



Por Letícia Magalhães, autora convidada –


Ryan Murphy é uma dessas pessoas em Hollywood que têm um toque de Midas. Todas as séries que ele criou foram aclamadas, por isso não foi surpresa quando, logo após o anúncio da sua nova série Feud, ela já atraiu a atenção de todos. Mais e mais pessoas ficaram curiosas quando foi anunciada que a primeira temporada trataria da famosa rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford, duas divas da Era de Ouro de Hollywood.
Todos já sabiam que a série seria interessante. Quando o elenco foi escolhido, a série se tornou ótima. Quando a sequência de créditos foi relevada, a série se tornou imperdível. Quando finalmente foi ao ar, Feud entregou tudo o que prometeu, e muito, muito mais.

A histórica rivalidade entre as atrizes Bette Davis e Joan Crawford foi retratada na primeira temporada da nova série de Ryan Murphy 'Feud' (Foto: Reprodução/Everett Collection)

Feud: Bette and Joan nos dá uma nova visão acerca das vidas e do que se passava nas cabeças das duas grandes atrizes. A história começa em 1962, mas há algumas reconstituições perfeitas de eventos anteriores. A caracterização é perfeita – incluindo as roupas, cabelos e cenários. Susan Sarandon está incrível em sua performance como Bette Davis.
Joan Crawford é interpretada por Jessica Lange. Embora Jessica não se pareça com Joan, ela traz profundidade e humanidade à atriz. Joan teve seu legado permanentemente manchado quando, após sua morte, sua filha Christina publicou o livro difamatório Mamãezinha Querida, que foi adaptado para o cinema em 1981.

Susan Sarandon e Jessica Lange encarnam Bette Davis e Joan Crawford em 'Feud' (Foto: Divulgação)

Feud nunca foi uma série sobre escândalos. É sobre Bette e Joan, os seres humanos vendidos como deuses das telas. De acordo com Ryan, é ainda mais sobre os bastidores de Hollywood, e como a Era de Ouro foi de ouro apenas para jovens homens brancos e heterossexuais. A velha Hollywood era machista, misógina, uma linha de produção na qual não havia espaço para mulheres, homossexuais, pessoas mais velhas e negros.
Bette e Joan foram colocadas uma contra a outra para que ambas saíssem enfraquecidas e não pudessem lutar pelo que acreditavam. As mulheres eram menosprezadas, como acontece com a personagem Pauline, que queria dirigir um filme e não tinha apoio de ninguém – porque, como seu próprio chefe diz, ninguém deixaria uma mulher dirigir um filme! E é interessante ver o que acontece aqui: as mulheres não podiam ser diretoras na era de ouro, mas quase metade dos oito episódios de Feud foi dirigida por mulheres.

(Foto: Divulgação)

E o preconceito contra mulheres mais velhas? Tanto Bette quanto Joan estavam na casa dos 50 anos quando O Que Teria Acontecido a Baby Jane? foi filmado, e ambas eram tratadas como mulheres no fim da carreira. Na Era de Ouro, envelhecer era um pecado – não havia papéis de destaque para mulheres acima dos 40. Felizmente, isso também está mudando.
Feud: Bette and Joan também serve como um grande estudo da psiquê humana. Nós vemos como ambas sofreram da síndrome do impostor, algo que só acontece porque elas viviam sob o sistema de estúdio de Hollywood.
Feud: Bette and Joan foi a melhor série que estreou em 2017 até agora. Ela desmistifica uma época que é geralmente tida como “os bons e velhos tempos”, quando havia glamour arrasador e talento verdadeiro. Mas a que preço?

Foto Capa: Reprodução

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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