A controversa história da moda plus-size



Por Rafaella Britto –



Voluptuosas, curvilíneas, robustas, cheias, plus-size: estes são adjetivos empregados pela publicidade, ao longo da história, para designar as não-magras. É fato: todas as mulheres já se sentiram, alguma vez, desintegradas do modelo estético vigente – e ainda mais, muito mais as mulheres gordas. A chamada moda ‘plus-size’ conquista espaço, porém é, ainda, repleta de controvérsias que perduram ao longo das décadas.

O quadro "A Vênus Adormecida", de Giorgione (1508-1510), representa o ideal de beleza feminina da Renascença (Foto: Reprodução/Cambridge)


Houve época em que o padrão estético era ditado pelas mulheres “cheias”. Este modelo atravessou as diversas civilizações, da Pré-História à Renascença, e permaneceu durante o surgimento e consolidação da industrialização, quando a fome alastrou-se pelo mundo ocidental e as classes dominantes estabeleceram a gordura como atributo físico indicador de prosperidade, nutrição e ‘boa saúde’. Em vista das mudanças ocorridas em nossos dias, causa espanto que as figuras roliças das atrizes Lillian Russell e, mais tarde, Theda Bara, fossem a máxima personificação da sensualidade feminina, entre fins do século 19 e início do século 20.

As gordinhas ditavam moda: Lillian Russell e Theda Bara, sex symbols femininos entre o fim do século 19 e início do século 20 (Foto: Reprodução)

O termo ‘plus-size’ foi cunhado na década de 1920 e popularizado pela designer Lane Bryant, que, inicialmente, produzia roupas em larga escala para gestantes. Bryant, uma jovem viúva, sustentava a si e ao filho pequeno trabalhando como costureira e, em 1904, abriu as portas de sua loja na Fifth Avenue, em Nova York.

A pedido de suas clientes gestantes, que buscavam por peças que fossem “apresentáveis, mas confortáveis de se usar em público”, Bryant criou um modelo de vestido com elástico na cintura e saia plissada. A Lane Bryant tornou-se, assim, a primeira marca especializada em roupas para gestantes, criando, também, espartilhos e lingeries.

A pedido de suas clientes gestantes, Lane Bryant criou um modelo de vestido com elástico na cintura e saia plissada . A Lane Bryant especializou-se em moda para a maternidade (Foto: Reprodução)


Anúncio da marca Lane Bryant trazendo um modelo de corset para gestantes (Foto: Reprodução) 

A partir de 1922, os catálogos da Lane Bryant apresentavam as “Misses Plus Sizes”, oferecendo peças em tamanhos maiores para mulheres ‘robustas’. Tanto foi o sucesso das ‘misses’ de Bryant que, cinco anos mais tarde, outras lojas de departamento ao redor dos EUA passaram a oferecer em seus catálogos casacos e vestidos ‘plus-size’.

As "Misses Plus Sizes" de Lane Bryant, oferecendo peças em tamanhos maiores para mulheres 'robustas' (Foto: Reprodução/Mic)

É válido dizer que, até esta época, o termo ‘plus-size’ era utilizado para designar roupas e não propriamente mulheres. Para mulheres, o termo mais empregado em anúncios publicitários era ‘stout’ (robusta) e, menos comum, ‘chubby’ (gorda). A expressão ‘mulheres plus-size’ foi empregada pela primeira vez em 1953, em um anúncio da marca Korell, veiculado em um jornal local da Carolina do Norte com os dizeres: “wonderful action-plus dress for the plus-sized woman”.

Anúncio da Lane Bryant datado da década de 1920: "Mulheres robustas: vista-se na moda, fique esbelta" (Foto: Reprodução)


Anúncio da Lane Bryant datado da década de 1950, apresentando o termo 'stout' (robusta) (Foto: Reprodução)


Note que o que tais marcas ofereciam como a moda viável às mulheres ‘plus-size’ estava distante de ser aquilo que de melhor a moda oferecia às mulheres de maneira geral: os chapéus não deveriam ser grandes, mas também não muito pequenos; decote ‘V’ ou coração, mangas longas, saias abaixo dos joelhos e estampas discretas eram alternativas para alongar a silhueta; os cintos eram forrados pelos mesmos tecidos dos vestidos; os tecidos mais utilizados eram o crepe de chine, o crepe romano e o jérsei; brilhos e ombreiras deveriam ser evitados.

Anúncio de 1945 da Lane Bryant: a moda plus-size era padronizada (Foto: Reprodução)

As mulheres ‘plus-size’ estavam, portanto, sujeitas a uma moda padronizada, monótona e limitada em sua liberdade de criação. As que buscavam vestir-se conforme seus desejos deveriam recorrer aos ateliês particulares e às encomendas sob medida.

Anúncio de 1954 da Lane Bryant: cores foscas e austeridade marcavam moda 'plus-size' (Foto: Reprodução)


Maysa e Ella Fitzgerald mostravam que as mulheres 'robustas' também podiam ser símbolos de sofisticação e requinte.

Maysa nos anos 50: sofisticação e requinte com vestidos assinados por Chanel, Dior e Dener (Foto: Reprodução)

Ella Fitzgerald: decote 'V' e saia plissada eram a marca das produções da diva do jazz (Foto: Reprodução)

Durante as décadas de 1960 e 1970, o ícone da moda ‘plus-size’ foi Cass Elliot, também conhecida como Mama Cass. A cantora, integrante do grupo vocal The Mamas & the Papas, incorporou ao seu visual o colorido hippie, contrariando as limitações impostas às gordinhas. Batas e vestidos em estampas e cores berrantes e brilhos – muitos brilhos! – compunham seu guarda-roupa eclético e nada convencional.

Mama Cass trouxe ao seu visual o colorido hippie (Foto: Reprodução)

Traçar um panorama histórico da moda ‘plus-size’ não é tarefa fácil, uma vez que a atenção dispensada a este nicho mercadológico é pequena e autênticas fontes de pesquisa são escassas. Entretanto, é possível constatar um forte crescimento das boutiques ‘plus-size’ a partir da década de 1980 com o surgimento de marcas especializadas como Forgotten Women ('Mulheres Esquecidas') e Marina Rinaldi.

Catálogo da Forgotten Women, marca plus-size criada na década de 1980 (Foto: Reprodução/Etsy)

Data também deste período a criação da Big Beauties/Little Women, a primeira agência de modelos para mulheres ‘plus-size’, fundada em Nova York por Mary Duffy, em 1984. Modelo, palestrante motivacional e ativista feminista, Mary Duffy, há mais de 30 anos, trabalha no intuito de expandir os conceitos de moda e beleza para além dos estereótipos propagados pela indústria.

Atualmente, Duffy coordena o projeto Fashion 4 the Rest of Us, que visa empoderar mulheres na terceira idade. “’Moda para o resto de nós’ pode referir-se a todo mundo”, diz. “Se você não vai estar na capa da Vogue, ou se você não será a próxima Miss América, ou se você nunca atravessou um tapete vermelho com vários flashes no seu rosto, então você é o resto de nós. Pessoas reais. Mulheres reais que não têm 24 horas devotadas à aparência.” E completa: “Acredito que há muitos problemas que assolam as mulheres. Alguns têm a ver com o peso, outros com a idade.”  

Mary Duffy, fundadora da Big Beauties/Little Women, a primeira agência de modelos 'plus-size' (Foto: Reprodução/Mary Duffy)

Na atualidade, diante das constantes demandas por representatividade e a popularidade de modelos como Ashley Graham, que contribuem para o empoderamento de mulheres ao redor do mundo, o mercado começa a flexibilizar-se e o setor da moda ‘plus-size’ cresce a cada dia.

Modelos como Ashley Graham desafiam padrões de beleza (Foto: Reprodução/Getty Images/The Independent)

Diferentemente de anos anteriores, em que a moda para as mulheres gordas era ditada por conceitos uniformes, hoje é possível que aquelas que vestem acima do manequim 46 “tenham estilo”. Entretanto, ainda persistem conceitos errôneos acerca do ‘ideal’, o que impede que a moda ‘plus-size’ tenha a versatilidade da moda popular. Para ser revolucionária, a moda deve ir de encontro aos desejos e necessidades das mulheres reais. Mas, para isso, é preciso ouvi-las.  



Foto Capa: Reprodução




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Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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