Estilo: o romantismo punk de Patti Smith


Por Rafaella Britto –

Que Patti Smith é uma das mais influentes figuras femininas do rock ‘n’ roll, disso todos nós já sabemos. Entretanto, para além de sua importância musical, Patti é também ícone de moda: a "poetisa do punk", como tornou-se conhecida, quebrava as barreiras de gênero já na década de 1970. Seu charme andrógino e atitude inconscientemente afrontosa para com as normas sociais fizeram-na uma das mais representativas personalidades da contracultura.


Aos 20 anos, em 1967, Patricia Lee Smith deixou a família, o emprego de operária e o filho recém-nascido em Nova Jersey e partiu para Nova York sem dinheiro, trazendo na bagagem somente uma muda de roupas, um livro de Rimbaud e o sonho de ser artista. Sem ter onde dormir ou o que comer, foi amparada pelo então aspirante a artista plástico Robert Mapplethorpe – posteriormente, um dos mais celebrados fotógrafos de sua geração.
Vivendo como amantes errantes no famoso Hotel Chelsea, reduto da contracultura, Smith e Mapplethorpe aproximaram-se de célebres artistas da vanguarda norte-americana, como o pintor pop Andy Warhol, os poetas beatniks Allen Ginsberg e William S. Burroughs, o estilista Bruce Rudow, e os músicos Jimi Hendrix, Janis Joplin e Johnny Winter.

Patti Smith e Robert Mapplethorpe (Foto: Reprodução)

Patti Smith ascendeu ao estrelato a partir de seu disco de estreia, Horses, lançado em 1975. O álbum incorporou ao punk rock lirismo e poesia. A imagem que ilustra a capa – de autoria de Robert Mapplethorpe – traz Smith em seu mais memorável momento fashion: de traços alongados, conservando uma leve penugem sobre os lábios, vestindo uma camisa branca de punhos cortados adquirida em uma loja do Exército da Salvação, gravata, cabelos desfiados à la Keith Richards e paletó sobre os ombros imitando Frank Sinatra, Patti retoma suas influências estéticas de Rimbaud, Genet e Baudelaire. De maneira descompromissada e, ao mesmo tempo, agressiva, impõe sua imagem dominadora, transcendendo as fronteiras entre masculino/feminino.
“Tirada em alto contraste contra uma parede branca, [a foto] une a austeridade dos filmes de arte europeus com a alta-moda glamorosa das revistas”, escreve Camille Paglia em seu livro Free Women, Free Men. “Amarrotada, esfarrapada, despenteada, hirsuta, Smith desafia as regras de feminilidade. Atordoada, abatida e emaciada, arrogante e sedutora, ela é santo louco, dândi e trovador [...]”.

Patti Smith na capa de seu disco de estreia Horses (1975) (Foto: Robert Mapplethorpe)

Despojada, Patti Smith construiu seu estilo visando originalidade e acessibilidade. “Eu encarava a roupa como uma figurante que se prepara para uma participação em um filme da Nouvelle Vague”, conta em seu livro de memórias Só Garotos. “Tinha poucas opções de figurino, como uma camiseta listrada de gola canoa e um cachecol vermelho, como o de Yves Montand em Salário do medo, um figurino Rive Gauche beatnik de calças verdes justas e sapatilhas de balé vermelhas, ou minha versão de Audrey Hepburn em Cinderela em Paris, com sua blusa preta comprida, calça preta, meias brancas e sapatilhas pretas. Qualquer que fosse o roteiro, eu geralmente só precisava de dez minutos para ficar pronta.”  

(Fotos: Reprodução)

(Fotos: Reprodução)

(Fotos: Reprodução)

(Fotos: Reprodução)

(Fotos: Reprodução)

(Fotos: Reprodução)

(Fotos: Reprodução)

(Fotos: Reprodução)

(Fotos: Reprodução)

(Fotos: Reprodução)

Aos 70 anos, Smith conserva os jeans surrados, cabelos desalinhados e peças oversized que consagraram sua imagem. “Meu estilo é 'olhe pra mim, não olhe pra mim’. É ‘eu não me importo com o que você pensa’”, diz. A poetisa do punk é inspiração para designers como Yohji Yamamoto e Ann Demeulemeester.


Patti Smith no desfile da coleção Inverno 2007 da estilista belga Ann Demeulemeester (Foto: Reprodução)

Em 2014, Demeulemeester lançou um livro que leva seu nome, no qual descreve sua trajetória na moda e o processo criativo de suas coleções. O livro teve prefácio da própria Patti Smith, amiga de longa-data da estilista belga. “Nunca mais subi ao palco sem vestir uma peça de Ann”, contou à Vogue. Uma jaqueta, um colete, uma camisa... elas são parte de mim. Fazem com que eu me sinta confiante, fazem com que eu me sinta verdadeiramente eu mesma. São talismãs.”

Referência:

SMITH, Patti. Só Garotos. Companhia das Letras – São Paulo, 2010. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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