"A Esposa Solitária": a mulher, a tradição e o amor em Satyajit Ray


Por Rafaella Britto –

Aos 17 anos, meu divertimento consistia, sobretudo, em ver filmes. Valia tudo, dos romances silenciosos de Valentino à agilidade provocadora de Godard; das comédias açucaradas aos grandes musicais hollywoodianos – não importava. O cinema representava o escape da poeirenta rotina de estudante colegial – rotina a qual eu, involuntariamente e ansiosa para crescer, tinha de me sujeitar.
Acompanhava com assiduidade as mostras internacionais e sessões de chanchadas e clássicos americanos, apresentadas por Rubens Ewald Filho, na TV Cultura. Assistia, também, aos ciclos de cinema da TV Brasil, que exibiam obras consagradas de todos os continentes. Diariamente eu sentava-me em frente à televisão, pontualmente às onze da noite, aguardando o início da nova sessão. Em uma destas auspiciosas madrugadas cinéfilas, descobri Charulata (no Brasil, A Esposa Solitária), tesouro da cinematografia mundial que incluiu Satyajit Ray em meu panteão pessoal de diretores-mestres inesquecíveis.


A atriz Madhabi Mukherjee em Charulata (1964), obra-prima do cineasta bengali Satyajit Ray (Foto: Reprodução)

Falar de Satyajit Ray, cineasta por quem nutro amor desmedido, é particularmente honroso para mim. Surpreende-me que o mais famoso dentre os cineastas indianos seja pouco mencionado mesmo entre o público amante da sétima arte. Seus filmes são, em grande parte, confinados aos acervos das cinematecas, cineclubes e pequenos cinemas de arte, destinados à apreciação de poucos.
Nascido em Calcutá, Satyajit Ray consagrou-se como um dos mais proeminentes e importantes diretores do século 20. Versátil, sua filmografia possui, ao todo, 37 títulos, entre longas, curtas e documentários. Ray foi, inicialmente, influenciado por cineastas como Jean Renoir, John Houston e Vittorio de Sica. Distanciando-se das extravagâncias de Bollywood, - sistema de produção massificada do qual foi um ferrenho crítico -, o cineasta empenhou-se na construção de um estilo discreto e reflexivo. 
Seu primeiro filme, A Canção da Estrada (Pather Panchali, 1955), realizado de forma amadora, conquistou o prêmio do júri no Festival de Cannes. A Canção da Estrada é o primeiro dos três filmes que compõem a Trilogia de Apu, completada por O Invencível (Aparajito, 1956), Leão de Ouro no Festival de Veneza, e O Mundo de Apu (Apur Sansar, 1959), Melhor Filme no Festival de Londres. Eleito pelo British Film Institute como um dos três maiores diretores de todos os tempos, Ray foi homenageado em Berlim com uma retrospectiva de seus filmes, e, em 1992, recebeu o Oscar honorário.


Vencedor de prêmios como Leão de Ouro, Urso de Prata e Oscar honorário, Satyajit Ray é, ainda hoje, o mais famoso cineasta indiano (Foto: Reprodução) 

Lançado em 1964, Charulata, vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim, é descrito por Ray como sua obra-prima. “O único filme que eu faria novamente do mesmo jeito, se eu tivesse que fazê-lo de novo, seria Charulata”, disse em entrevista à revista Cineaste. De fato, embora já consagrado por obras como a Trilogia de Apu, é em Charulata que Ray realiza-se como diretor, construindo uma obra perfeita sob os aspectos da cinematografia e humanidade.
Ray transporta-nos à Bengala de 1870, período da história indiana marcado pela influência europeia. Pertencentes à alta classe intelectual bengali, Charulata (Madhabi Mukherjee), Bhupati (Shailen Mukherjee) e Amal (Soumitra Chaterjee) são os membros dessa sociedade em constante mudança, que confronta tradição e renascimento.


O triângulo amoroso formado por Bhupati (Shailen Mukherjee), Amal (Soumitra Chaterjee) e Charulata (Madhabi Murkherjee): os três são membros e protagonistas de uma sociedade em constante mudança (Foto: Reprodução)

A câmera enquadra em plano detalhe as mãos que bordam um lenço, enquanto correm os créditos iniciais, acompanhados do som plangente de uma cítara. Em seguida, temos em primeiro plano a bela Charulata, que, fatigada, abandona o bordado, e, buscando maneiras de entreter-se, põe-se a caminhar através dos suntuosos cenários da mansão onde vive enclausurada. Seus dedos percorrem as lombadas dos livros na estante. Apanha um livro. Lê. Chamam-lhe a atenção os sons externos partidos da rua. Com seu binóculo, Charulata, movida por uma intensa curiosidade de ver o mundo, observa, através das frestas das janelas, os passantes, a gente comum.


Enclausurada em uma suntuosa mansão, Charu observa o mundo através da janela (Foto: Reprodução)

No cômodo ao lado, seu marido, Bhupati, ocupa-se da edição de seu jornal político, O Sentinela. Homem íntegro e ingenuamente honesto, Bhupati ama verdadeiramente sua esposa, porém o jornal e as preocupações políticas, em especial as que dizem respeito à Independência de seu país, ocupam-no integralmente, de maneira que não tem tempo para ela. Bhupati abriga na opulenta residência – além dos criados – seu assistente e cunhado, Umapada (Shyamal Ghoshal) e a esposa deste, Manda (Geetali Roy).


Membros da alta-sociedade, Charu e Bhupati vivem as dores de um casamento infeliz (Foto: Reprodução)

Percebendo a solidão de Charu e seu interesse por artes e literatura, Bhupati pede ao primo, Amal, que faça companhia a ela, e que, eventualmente, incentive seu talento para a escrita. Amal é um jovem advogado recém-formado que ambiciona a carreira de escritor, cultivando o estilo simbólico dos autores clássicos, repleto de metáforas disparatadas.
Românticos, Amal e Charu constroem para si um ninho, um universo particular de poesia. A amizade entre ambos transforma-se em um amor intenso e não consumado – amor que nasce de maneira sutil, porém cuja força será catalisadora de uma tragédia doméstica que porá em cheque a moral, a fidelidade e o perdão.

Da amizade entre Amal e Charu, nasce um amor improvável cuja força é catalisadora de uma tragédia doméstica que porá em cheque a moral, a fidelidade e o perdão (Foto: Reprodução)










O roteiro de Charulata é baseado na novela Nashtanir (traduzido em inglês como The Broken Nest), de autoria do poeta e místico bengali Rabindranath Tagore, o primeiro não europeu vencedor do prêmio Nobel de Literatura. Publicada pela primeira vez em 1901, The Broken Nest possui importância significativa na literatura indiana por ser uma das primeiras novelas escritas no idioma bengali. Em tempos de dominação britânica, o inglês consolidava-se como a língua do governo e da administração pública; o sânscrito, a mãe das línguas indo-europeias, conservava seu prestígio como expressão filosófica e religiosa; o bengali, por sua vez, não possuía, até então, status social ou literário.
O imperialismo britânico trouxe ao meio cultural indiano poetas como Shakespeare e Shelley, que moldaram o espírito da nova geração de escritores da Bengala, introduzindo-os a novos gêneros textuais como o conto, a novela, o romance, o ensaio e o comentário jornalístico. É neste contexto que Tagore escreve The Broken Nest. [1]


Tagore, poeta e místico bengali autor de The Broken Nest, novela que inspirou o clássico de Satyajit Ray Charulata (Foto: Reprodução)

Em comum, Satyajit Ray e Tagore possuem o fato de incorporarem à sua arte a tragédia das pessoas simples e esquecidas da Bengala. Como seu mestre, Ray haveria de tornar estes heróis anônimos a força de sua ficção, e haveria de revelar-se, também, um poeta. Entretanto, sua poesia não é escrita, e sim filmada: Ray é fiel ao transpor para as telas o realismo psicológico da novela de Tagore. Sua obra é construída, em grande parte, no silêncio. Charulata não dá voz aos seus desejos e nem mesmo projeta-os conscientemente, porém estes explodem na força e intensidade do desastre.


Satyajit Ray transpõe para as telas o realismo psicológico de Tagore (Foto: Reprodução)

A independência e o espírito insubordinado de Charulata são elementos notáveis: indo contra a maré usual dos filmes indianos, onde predominam figuras femininas frágeis e submissas, Ray preocupa-se em representar a mulher como dona de sua própria história. O diretor já havia contribuído para o debate acerca da condição feminina no ano anterior em Mahanagar (1963). Também estrelado por Madhabi Mukherjee, Mahanagar discute as realidades contemporâneas das classes médias urbanas da Índia e os efeitos das novas atitudes de emancipação da mulher diante do sistema patriarcal. As figuras femininas desempenham papéis destacáveis em A Canção de Estrada (1955), Nayak (1966), entre outras obras.


Em seu cinema, Satyajit Ray debate a condição feminina através de figuras femininas de força (Foto: Reprodução)

Charulata transcorre em um período histórico regido pelos preceitos muçulmanos, que separa o universo dos homens do das mulheres. Em determinado momento, o filme utiliza as figuras de Charu, mulher culta, e a figura da cunhada, Manda, moça simplória e sem fineza intelectual, para contrapor a mulher moderna e a mulher conservadora. Charu poderia ser equiparada a personagens emblemáticas da literatura ocidental, como Madame Bovary, de Flaubert, ou Nora Helmer de Casa de Bonecas, de Ibsen.


Por seu espírito insubordinado, Charulata pode ser equiparada a personagens emblemáticas da literatura ocidental, como Madame Bovary, de Flaubert, e Nora Helmer de Casa de Bonecas, de Ibsen (Foto: Reprodução)

Na paixão por Amal manifesta-se o anseio de Charu por preencher o vazio e a carência de afeto, e libertar-se da prisão a que estão submetidas as mulheres de sua classe. O perdão de Bhupati, humanista por vocação, e sua compreensão da esposa como indivíduo dotado de sentimentos e desejos, estabelece o princípio da igualdade entre homem e mulher.


No cinema de Satyajit Ray, homem e mulher são postos em pé de igualdade (Foto: Reprodução)

Muito embora Charulata dê título ao filme, não se trata da história de Charu; tampouco é a história de Amal ou Bhupati: Satyajit Ray narra a história das reações humanas à mudança social, ao nascimento do amor e à descoberta de novos mundos da imaginação.
Munida de seus inseparáveis binóculos, Charu percorre o universo em redor de si, movida pela mesma intensa curiosidade com que busco questionar – e, quem sabe, compreender – a realidade e a vida, através do cinema.

Notas de rodapé:
[1] TAGORE, Rabindranath; The Broken Nest – Macmillan India, 1973. Translated by Mary M. Lago and Supriya Bari.

Foto Capa: Reprodução

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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