As inspirações por trás dos figurinos de “La La Land”


Desde sua estreia, em dezembro de 2016, La La Land – Cantando Estações arrebatou prêmios como BAFTA e Globos de Ouro, e figura como o campeão de indicações ao Oscar. Reavivando a magia dos musicais hollywoodianos, o diretor Damien Chazelle (Whiplash) conduz-nos através da história de amor entre Mia, uma aspirante a atriz, e Sebastian, um músico de jazz.


O sucesso de La La Land está em seus números musicais vibrantes, nas carismáticas interpretações de Emma Stone e Ryan Gosling, e também em seus figurinos, que caminham entre o clássico e o contemporâneo.

Ryan Gosling e Emma Stone em La La Land, novo filme de Damien Chazelle campeão de indicações ao Oscar 2017 (Foto: Reprodução)

Inicialmente, a figurinista Mary Zophres tomou como referências os musicais de Jacques Demy Lola (1961), Os Guarda-Chuvas do Amor (1964) e Duas Garotas Românticas (1967). Junto ao designer de produção David Wasco e a decoradora de set Sandy Reynolds, Zophres analisou meticulosamente a paleta de cores das obras de Demy.

La La Land resgata tradição musical americana (Foto: Reprodução)

“Eu sempre divido o roteiro em partes”, contou ao Hollywood Reporter. “Damien fez uma seleção de filmes. Foi inspirador, me fez entrar no clima e tinha de tudo, desde A Roda da Fortuna (1953) a Cantando na Chuva (1952), de Romeu e Julieta de Baz Luhrmann (1996) a Vem Dançar Comigo (1993), de Boogie Nights (1997) a Prenda-me Se For Capaz (2002). Eu fui a Santa Mônica e comecei a alugar todos os filmes, e imprimi os frames das imagens congeladas. Depois fui aos meus livros de atrizes de outras épocas, fotografia moderna – qualquer coisa que tivesse uma imagem interessante que poderia ser boa para uma cena. Então, por três dias, minha equipe se encontrou com Damien, o designer de produção e a decoradora de set, e fomos passando pelo script página por página, explicando as ideias. Aquilo se tornou a linguagem do filme.”

Longa de Damien Chavelle tem paleta de cores inspirada nos musicais de Jacques Demy (Foto: Reprodução)

Esta é a segunda indicação de Mary Zophres ao Oscar de Melhor Figurino (a primeira foi em 2010 por Bravura Indômita). Zophres desenvolveu figurinos para filmes como Prenda-me Se For Capaz (2002) e Interestellar (2014), e já havia vestido o casal Emma Stone e Ryan Gosling em Gangster Squad (2013), suspense ambientado em fins da década de 1940.

Aspirante a atriz, Mia (Emma Stone) traz na parede de seu quarto um pôster de Ingrid Bergman (Foto: Reprodução)

Para compor o guarda-roupa retrô romântico de Mia, Zophres voltou-se para o glamour de atrizes como Ingrid Bergman, cujo rosto é visto no enorme pôster que cobre a parede do quarto da personagem. Em suas pesquisas na internet, Zophres deparou-se com o teste de Bergman para Intermezzo (1939), filme que marca a estreia da atriz sueca em Hollywood. “Ela usava um vestido rosa sem mangas que era simples, mas lindo. Eu até pausei e salvei o frame para colocar no meu painel de inspirações para a Mia”, contou à Vanity Fair.


Os figurinos acompanham o amadurecimento de Mia, da vida como a atendente de café na Warner Bros à ascensão como atriz. Zophres desenvolveu todas as peças com que Mia aparece nos números de dança. “Não tínhamos muito dinheiro. Mas nós sabíamos que nos números de dança de Emma, eu queria e precisava fazer aqueles vestidos... foi onde investimos nosso dinheiro”.


Croqui de Mary Zophres e cena de La La Land (Foto: Reprodução/Hollywood Reporter)

Ao contrário do que se poderia imaginar, o guarda-roupa de Emma Stone não é inteiramente composto por peças de design. “Não queríamos que as roupas do dia-a-dia fossem tão sofisticadas que parecessem não terem sido compradas por ela. Algumas peças nós conseguimos na Playclothes, que é minha loja vintage favorita, e usamos até uma saia cor-de-rosa e uma blusinha que comprei na H&M por $5.”

O guarda-roupa discreto e casual de Mia (Emma Stone) é composto por peças adquiridas em lojas de departamento como a H&M (Fotos: Reprodução)

A figurinista revela que a única peça de design é o vestido preto que Mia traja na cena final, de autoria de Jason Wu. “É semelhante a um vestido que vi Catherine Deneuve usando em uma foto em que ela está olhando por cima do ombro. Eu tinha essa foto pregada no meu painel e achei o vestido na Saks Fifth Avenue. Parece certo ter naquela cena um vestido comprado em uma loja, porque ela [Mia] está em um momento diferente da vida. É uma escolha madura.”


Emma Stone veste Jason Wu em cena final de La La Land. Segundo Zophres, é a única peça de design usada pela atriz (Fotos: Reprodução)

O vestido verde com que Mia vai a seu primeiro encontro com Sebastian traz como inspiração o vestido de Judy Garland em Nasce Uma Estrela (1954). Zophres e o diretor Damien Chazelle concordaram em que cores escuras destacam a pele clara da atriz. “O vestido que Emma usa no planetário estava descrito no script como verde. Quando Damien e eu conversamos sobre isso, pensamos em ter como referência o vestido verde de Judy Garland em Nasce Uma Estrela – é uma linda cor de jade esmeralda!”


Zophres buscou inspiração no vestido verde jade esmeralda de Judy Garland em Nasce Uma Estrela (1954) (Fotomontagem/Império Retrô)

O vestido branco visto no número de dança do epílogo foi inspirado em um dos figurinos de Ginger Rogers no musical de 1936 Swing Time. Os vestidos, embora semelhantes, possuem cortes diferentes, pois “Ginger e Emma têm corpos diferentes, e também estão em épocas diferentes. Ginger usava cintas de espaguete e era mais formal”.
Segundo Zophres, esta foi a peça mais dispendiosa: “Tinha mais volume e uma modelagem mais complicada que as outras. A parte de cima é de chiffon de seda e tem um charmeuse muito leve por baixo, então são como duas camadas, inteiramente costuradas a mão. Foi muito bem feito. Eu vi o filme sete ou oito vezes, e aquele vestido branco sempre me destrói... é engraçado, porque o filme é tão conhecido pela cor. Mas o vestido branco... Eu fico com os olhos marejados toda vez que ele aparece em cena, porque é exatamente do jeito que eu queria.”
Vestido branco inspirado em Ginger Rogers em Swing Time (1936) (Fotomontagem/Império Retrô)

Atrizes como Audrey Hepburn, Julie Christie, Grace Kelly, Anouk Aimée e Katharine Hepburn também foram inspirações para a composição da silhueta de Emma Stone em La La Land.


Croqui de Mary Zophres e cena de La La Land (Foto: Reprodução/Hollywood Reporter)
Croqui de Mary Zophres e cena de La La Land (Foto: Reprodução/Hollywood Reporter)

O guarda-roupa de Ryan Gosling é composto por camisas, gravatas, calças e sapatos de couro, remetendo à estética masculina da década de 1950. Zophres e sua equipe, junto ao diretor Damien Chavelle, contribuíram para a criação do perfil do jazzista contemporâneo, nostálgico de um tempo que não viveu. 


O guarda-roupa de Sebastian (Ryan Gosling) remete à estética masculina da década de 1950 (Fotomontagem/Reprodução)

“Ele fala muito sobre manter o jazz vivo, então obviamente ele seria inspirado por gerações anteriores”, diz a figurinista. Zophres voltou-se para as figuras de James Dean e os músicos Hoagy Carmichael e Bill Evans. “Jamais pensei que seu personagem fosse informal o bastante para vestir uma camiseta, jeans ou tênis”, completa.

Croqui de Mary Zophres e cena de La La Land (Foto: Reprodução/Hollywood Reporter)

La La Land concorre a 14 categorias no Oscar, que ocorrerá neste domingo (26). 

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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