Guerrilheira e musa: o passado desconhecido de Angelines Fernández, a Bruxa do 71


Há mais de 30 anos, nossas tardes são agraciadas pelas trapalhadas de Chaves e seus companheiros, entre eles, a eterna enamorada de Seu Madruga, Dona Clotilde, também conhecida como Bruxa do 71. A personagem, interpretada pela atriz Angelines Fernández, eternizou-se no imaginário latino-americano com os famigerados bordões "Como disse?”, “Quem é bruxa?” e “É melhor não dizer nada.”
Entretanto, o que poucos sabem é que, antes de ser conhecida como ‘Bruxa’, Angelines foi musa: nascida na Espanha, a atriz atuou nas guerrilhas contra a ditadura do general Francisco Franco e foi pioneira do cinema mexicano. Conheça o passado de Dona Clotilde.

GUERRILHEIRA E MUSA

Nascida em Madrid, em 9 de julho de 1922, María de los Ángeles Fernández cresceu em um ambiente artístico e de consciência política. Ainda nos primeiros anos de juventude, engajou-se na luta contra o fascismo instaurado em seu país em 1939, após a Guerra Civil.
Perseguida pela ditadura de Franco, partiu para o México em 1947. Lá, a convite do ator espanhol radicado no México Ángel Garasa – que também imigrara por razões políticas -, iniciou no teatro.

Raras imagens de Angelines Fernández no início de sua carreira, na década de 1950 (Fotomontagem/Reprodução)

Pouco depois, foi contratada pela rede televisão cubana CMQ, vivendo durante um breve período em Havana. Retornou definitivamente ao México em 1950 para estrelar a peça Cuatro Corazónes con Freno y Marcha Atrás, de Jardiel Poncela, iniciando, assim, sua carreira como atriz dramática.
Angelines Fernández era conhecida atriz de novelas – no rádio e na TV , ao mesmo tempo em que incursionava pelas telonas, contracenando com astros da Era de Ouro do cinema mexicano, como Cantinflas e Arturo de Córdova.

Angelines Fernández na novela La familia Miau, produzida pela Televisa e exibida em 1963 (Foto: Reprodução)

A atriz fez participações em clássicos como El Esqueleto de La Señora Morales (1960), a primeira comédia de humor negro do cinema mexicano. Estrelado por Arturo de Córdova, o filme narra a estranha história de um taxidermista otimista, porém que vive sexualmente reprimido e aprisionado por um casamento sem amor a uma mulher puritana e fanática religiosa, que destrói sua moral diante da sociedade. Angelines é Clara, a irmã beata da esposa vitimista. A musa, então com 38 anos, mostra a elegância que consagrou-a como uma das mulheres mais bonitas do México em seu tempo.

Confira abaixo um trecho da participação de Angelines Fernández em El Esqueleto de La Señora Morales:




A CHEGADA AO ELENCO DE CHESPERITO

Foi Ramón Valdés – grande amigo de Angelines –, quem apresentou-a a Roberto Bolaños. “Me lembro que, certa ocasião”, contou a filha da atriz, Paloma Fernández, “minha mãe se encontrou com Ramón Valdés na ANDA [Asociasión Nacional de Actores]. Ela pediu que ele perguntasse a Chesperito se ele não tinha nada para ela. Logo foram criados os personagens da vila e Chesperito foi dando forma a ‘Bruxa do 71’”.


Ramón Valdés e Angelines Fernández: eternos amigos dentro e fora das telas (Foto: Reprodução)

Ao contrário do que se supõe, Angelines sentia enorme prazer em interpretar Dona Clotilde, segundo relata Paloma: “Ela sempre teve muito respeito por Roberto Bolaños. E assim era feliz. No início, fazer os outros rirem lhe custava, porque era atriz dramática e não tinha nada a ver com a comédia.”


Chesperito e seu elenco na década de 1970 (Foto: Reprodução)

A atriz, entretanto, jamais livrou-se da imagem da personagem: “As crianças na vida real sempre a imaginaram como uma bruxa de verdade, e quando saíamos ao mercado ou levávamos nosso cachorrinho para passear, os meninos gritavam: ‘Aí vem a Bruxa!’. E minha mãe começava a se mortificar. Comentava comigo que se sentia triste porque ninguém queria ficar perto dela, tinham medo! Eu ria quando, na vida real, ela se irritava com as crianças do mesmo jeito que ela se irrita com o Chaves e a Chiquinha. Depois se acostumou e não se incomodava mais em ser chamada de ‘Bruxa’”.

O elenco de Chaves durante as gravações do programa (Foto: Reprodução)

O incessante hábito de fumar levou Angelines a adquirir um câncer de pulmão. A atriz faleceu no dia 25 de março de 1994, coincidentemente, aos 71 anos. “Ficava vendo televisão desde a hora que levantava”, contou Paloma. “Só dormia com a TV ligada e adorava conviver com suas netas. Foi uma mulher feliz, ganhou medalhas da ANDA por sua trajetória, se realizou como mãe e artista, ainda que às vezes ficasse triste porque toda sua família estava na Espanha.” 

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

2 comentários:

  1. Caraca, bem interessante sua matéria. Eu não conhecia esse passado da atriz responsável pela personagem "Bruxa do 71". Porém havia conhecido o passado de que ela estava entre as mulheres mais belas no país onde vivia naquela época. Sério mesmo! Fiquei chocada. Ruim mesmo é mais pessoas não falarem que ela lutou contra o fascismo em seu país. Será que mulheres engajadas e emponderadas fazem tanto mal assim? óbvio que não!

    Até mais!
    Karolini Barbara

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    1. É verdade, Karolini! Infelizmente, dá-se pouca atenção a uma atriz multifacetada como Angelines, talvez porque a principal imagem que temos dela é da velhice. E, nas raras ocasiões em que sua história (por sinal, muito interessante) é contada, ela é lembrada mais por sua beleza do que por sua atuação política no passado. É mais uma prova de que, em nossa sociedade, a mulher precisa ser primeiro bonita, as demais coisas ficam em segundo plano.
      Fico feliz que tenha gostado!

      Beijos,
      Rafaella

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