10 atrizes negras que fizeram história no cinema


Histórias de beleza e talento, e, por vezes, tragédia e ostracismo: resgatamos a vida e a obra de 10 atrizes negras que desempenharam importantes papéis na história do cinema.


JOSEPHINE BAKER

A primeira estrela negra das artes cênicas, Josephine Baker é também conhecida pelos títulos de Vênus Negra, Peróla Negra e Deusa Crioula. Nascida nos Estados Unidos, descendente de escravos afro-americanos e índios Apaches, Baker foi descoberta aos 15 anos, enquanto dançava na esquina da rua onde vivia, em St. Louis. Após uma breve passagem pelo teatro vaudeville de sua cidade, a jovem partiu para Nova York e fez sua estreia na Broadway.
Josephine apresentava números cômicos em clubes noturnos, e chamou a atenção de empresários europeus. Em Paris, em fins da década de 1920, ascendeu à fama mundial como dançarina do mítico cabaré Folies Bergère. Conhecida pelo exotismo de suas performances, que misturavam comédia e erotismo, estreou em musicais de sucesso do cinema europeu, como Siren of the Tropics (1927), Zouzou (1934) e Princesse Tam Tam (1935). Em 1939, a musa veio ao Brasil, onde apresentou-se ao lado de Grande Otelo no famoso Cassino da Urca.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Josephine colaborou com a Resistência Francesa, recebendo honrarias militares por seus esforços. Em 1968, liderou o movimento negro nos Estados Unidos, após o assassinato de Martin Luther King Jr. Muito antes de Angelina Jolie, já havia atraído a imprensa mundial por sua ‘tribo arco-íris’ – maneira pela qual referia-se aos seus filhos adotivos, 12 órfãos de diferentes nacionalidades e etnias.


HATTIE McDANIEL

Filha de escravos do Kansas, Hattie McDaniel iniciou sua carreira como cantora e compositora, sendo uma das primeiras afro-americanas a cantar no rádio. Tornou-se conhecida atriz de teatro, e seu talento para a comédia fez-se notável.
Iniciou sua carreira em Hollywood na década de 1930. Ao todo, McDaniel atuou em 300 filmes, e, devido ao preconceito, interpretava, na maioria das vezes, empregadas domésticas. Quando questionada sobre por que sujeitava-se a ser sempre a servente, a atriz respondeu: “Por que devo reclamar enquanto ganho 700 dólares por semana sendo uma empregada nas telas? Se não fosse uma nas telas, ganharia sete dólares por semana sendo uma de verdade.”
McDaniel eternizou-se como Mammy, a empregada de Scarlett O’Hara no clássico hollywoodiano ...E O Vento Levou (1939). Por sua interpretação, conquistou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, sendo a primeira atriz negra a ser agraciada com um prêmio da Academia. Em seu discurso durante a cerimônia, disse: “Eu espero, sinceramente, sempre honrar a minha raça e o cinema”.


EARTHA KITT

Nascida em uma fazenda produtora de algodão da Carolina do Sul, Eartha Kitt iniciou sua carreira em 1943 na Katherine Dunham Company, trupe de dançarinos, cantores e atores afro-americanos com performances de sucesso na Broadway. Cantora reconhecida por sua personalidade e estilo únicos, lançou hits como C’est si bon e Santa Baby.
Em 1950, foi convidada por Orson Welles para interpretar Helena na peça Dr. Faustus. Posteriormente, estrelou musicais da 20th Century Fox e Paramount, como New Faces (1952) e St. Louis Blues (1958). Em 1967, interpretou a Mulher-Gato na série Batman.
A atriz causou polêmica por, durante um almoço na Casa Branca, posicionar-se abertamente contra a Guerra do Vietnã. “Vocês enviam os melhores deste país para fora para tomarem tiros e serem mutilados”, disse. “Não é de admirar que as crianças se rebelem e fumem maconha”.
Orson Welles descreveu Eartha Kitt como “a mulher mais excitante do universo”. Rumores afirmam que a cantora teve um caso com o diretor de Cidadão Kane, o que Kitt negou. A musa jamais se casou, porém viveu romances com galãs cobiçados, entre eles, James Dean.


DOROTHY DANDRIDGE

A “Marilyn Monroe negra” – como era conhecida - iniciou sua carreira ainda durante a infância, formando com a irmã a dupla The Wonder Children – mais tarde chamada Dandridge Sisters – e cantando em igrejas no interior dos Estados Unidos. A partir de 1936, Dorothy fez papéis não creditados em filmes como The Big Broadcast of 1936 (1936), com Bing Crosby, e A Day at the Races (1937), com os irmãos Marx. Seu primeiro papel creditado foi no filme policial Four Shall Die (1940).
Dandridge conquistou notoriedade em 1954, no papel-título de Carmen Jones, adaptação da ópera de Georges Bizet feita apenas com atores negros. Por Carmen Jones, Dandridge foi a primeira atriz negra a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz, porém perdeu para Grace Kelly. Foi, ainda, a primeira negra a figurar em uma capa da revista Life. Em 1960, venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz pelo musical Porgy and Bess.
A atriz enfrentava dificuldades em encontrar papéis que verdadeiramente lhe apetecessem, e recusava-se a interpretar escravas ou empregadas domésticas. Muitas vezes, era proibida de frequentar os mesmos banheiros que artistas brancos e tinha de usar a entrada de serviço. Certa ocasião, a piscina de um hotel onde estava hospedada foi esvaziada apenas porque ela havia posto os pés na água.
Após dois casamentos frustrados e tendo de entregar a filha, que nascera com problemas mentais, a um hospital público, Dandridge faleceu sob circunstâncias misteriosas. Sua história foi narrada no filme da HBO Introducing Dorothy Dandridge, produzido e estrelado por Halle Berry.


RUTH DE SOUZA

Nascida no Rio de Janeiro, Ruth de Souza interessou-se por teatro em 1945, época em que ingressa no grupo de Teatro Experimental do Negro, liderado pelo poeta e professor universitário Abdias Nascimento. Ruth foi a primeira atriz negra a subir ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com a peça O Imperador Jones, de Eugene O’Neill.
A atriz estudou na Universidade de Harvard e, de volta ao Brasil, em 1948, estreou nas telonas, no filme Terra Violenta, baseado no romance Terras do Sem-Fim, de Jorge Amado.
Em 1953, estrela Sinhá Moça. O filme, produzido nos estúdios da Vera Cruz e protagonizado pelos atores Anselmo Duarte e Eliane Lage, rendeu a Ruth de Souza a indicação ao prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza, sendo esta a primeira vez que uma atriz brasileira foi indicada a um prêmio internacional.
Ruth de Souza construiu, também, uma sólida carreira na televisão, tornando-se a primeira atriz negra a protagonizar uma telenovela, A Cabana do Pai Tomás (1968).


DIAHANN CARROLL

Diahann Carroll nasceu no Bronx, cresceu no Harlem, e já durante a adolescência destacava-se como modelo. Mais tarde, estudou Sociologia na Universidade de Nova York. A atriz iniciou sua carreira fazendo participações nos elencos dos filmes de Dorothy Dandridge Carmen Jones (1954) e Porgy and Bess (1959), e na Broadway.
Em 1962, Carroll foi a primeira atriz afro-americana a vencer o prêmio Tony, pela peça No Strings. Em 1968, estreou sua própria série de TV, Julia – pela qual venceu o Globo de Ouro -, sendo a primeira atriz negra a interpretar na televisão um papel diverso do estereótipo da empregada doméstica. Foi, ainda, indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 1974, pela comédia dramática Claudine.
Diahann Carroll é também uma sobrevivente do câncer de mama e uma incansável ativista pelos direitos humanos nos Estados Unidos.


PAM GRIER

Considerada um dos grandes sex symbols da década de 1970, Pam Grier trabalhava, inicialmente, como recepcionista na American International Pictures, até ser descoberta pelo cineasta de ‘exploitation’ (gênero de filmes caracterizados pela exploração exagerada de sexo, violência e drogas) Jack Hill, que escalou-a para o elenco dos filmes The Big Doll House (1971) e The Big Bird Cage (1972).
Pam Grier tornou-se o rosto-símbolo do chamado ‘blaxpoitation’, gênero de filmes de ação feito por e para negros. Durante este período, seus principais sucessos foram Coffy (1973) e Foxy Brown (1974).
Após a década de 1970, Grier viveu um período de obscuridade, até ter sua carreira reavivada por Quentin Tarantino, que convidou-a para protagonizar Jackie Brown (1997) – filme pelo qual conquistou o Globo de Ouro de Melhor Atriz. Para Tarantino, Pam Grier é “a primeira estrela feminina dos filmes de ação”.


WHOOPI GOLDBERG

Whoopi Goldberg iniciou sua carreira na década de 1980, sendo seu primeiro grande papel em A Cor Púrpura (1985), de Steven Spielberg, pelo qual foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Mas foi como a divertida Oda Mae Brown em Ghost (1990) que Goldberg levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante.
O nome artístico da atriz deriva da almofada ‘whopee’, que emite um som semelhante a uma flatulência, quando nos sentamos em cima dela. “Se você fica com um pouco de gás, você precisa deixá-lo sair. Então as pessoas diziam pra mim ‘você parece uma almofada whopee’. E meu nome veio daí” – contou, no tom humorístico que consagrou-a como uma das atrizes mais queridas de todos os tempos.


HALLE BERRY

Antes de iniciar sua carreira como atriz, Halle Berry disputou concursos de beleza e formou-se em jornalismo. No fim da década de 1980, decidida a perseguir suas ambições artísticas, estreou pontas em filmes para a televisão.
Em 1999, interpretou Dorothy Dandridge no filme biográfico Introducing Dorothy Dandridge, o qual também produziu. Por sua atuação, recebeu importantes prêmios, entre eles o Emmy e o Globo de Ouro.
Em 2002, Halle Berry entrou para a história do cinema ao ser a primeira atriz negra a vencer o Oscar de Melhor Atriz, por sua arrebatadora performance em A Última Ceia. O filme rendeu-lhe, ainda, o Urso de Prata.
Em seu discurso no Oscar 2002, Berry dedicou seu prêmio às atrizes negras que fizeram história no cinema: “Este momento é para Dorothy Dandridge, Lena Horne, Diahann Carroll. É para as mulheres que estão ao meu lado, Jada Pinkett, Angela Bassett, Vivica Fox. E é para todas as mulheres de cor, sem rosto e sem nome, que agora têm uma chance porque a porta foi aberta hoje à noite.”

Fotos: Reprodução

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

Um comentário:

  1. Olá! Passei para dizer que amei esse documentário e gostaria de comunicar a ausência de Nichelle Nichols que, sem dúvida, foi a maior expressão da beleza negra feminina das décadas se sessenta e a partir delas também. De uma importância tão grande que a própria Woopy Goldberg se viu inspirada a fazer teatro após vê-la na telinha da Tv fazendo, como disse à sua mãe (o episódio é famoso), "Fazendo o papel principal e não é o de empregada!"... Fico no aguardo das considerações gerais de Vas. Sas. e mudarem o título para "Onze fotos de atrizes negras que fizeram história!" Sem mais, agradeço desde já pela atenção dispensada... Saudações. Nani.

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