Sua Majestade, a Mais Bela: conheça Zezé Leone, a primeira Miss Brasil


Por Rafaella Britto -


A graciosa senhorita Zézé Leone continua a ser alvo de extraordinárias manifestações de apreço e sympathia. De quase todos os pontos do paiz, a vencedora do concurso nacional de belleza feminina tem recebido innúmeras felicitações. Os pedidos de autographos, photographias e de entrevistas têm sido sem conta, de fórma que a jovem pouco tempo tem tido para repousar, nesses últimos dias”. (1)


Assim iniciava a matéria publicada no jornal A Tribuna em 7 de abril de 1923, quatro dias após o anúncio da vencedora do título de “a mulher mais bonita do Brasil”.
Há quase cem anos, Zezé Leone encantou o país por sua doçura e simpatia: a primeira Miss Brasil ditou moda na década de 1920 e deu nome a ruas, receita de sobremesa, locomotiva, valsa, marchinha de Carnaval e até marca de cigarro.

DE MENINA DO INTERIOR A SÍMBOLO NACIONAL

Nascida em Campinas, em 1 de dezembro de 1902, Maria José Leone residia desde os 5 anos com sua família na atual Avenida Senador Feijó, em Santos. A pacata vida de menina do campo mudou para sempre em 1922, ao ser vencedora do Concurso Nacional de Beleza, evento precursor do Miss Brasil promovido pelo jornal carioca A Noite e a Revista da Semana, como parte das comemorações do Centenário da Independência. Zezé, entretanto, só pôde apossar-se do cetro e da coroa no ano seguinte, 1923.

Zezé Leone na infância (Foto: Reprodução/Arquivos da família)

Um dia após sua coroação, A Tribuna noticiava: “Santos possue o mais lindo rosto de mulher. Registramos hoje, com satisfação, que facilmente será comprehendida por todos os conterraneos, a grata nova de que no certamen geral hontem effectuado na Capital Federal, para adjucar o título de 'mais bella mulher do Brasil', no grande concurso nacional (...), foi classificada em primeiro lugar, entre as eleitas das diversas cidades do Brasil, distincta senhorita santista Zézé Leone (...)” (2)

(Foto: Reprodução/A Tribuna)

A premiação consistia em uma viagem à Europa, que foi rejeitada por Zezé. O prêmio, então, foi convertido em dinheiro, com o qual a jovem adquiriu uma casa em Santos.

Zezé Leone, a primeira Miss Brasil (Foto: Reprodução/Arquivos da família)

De olhos claros, pele rósea, cabelos curtos à la garçonne e tipo mignon, a recém-eleita Miss Brasil tornou-se ícone de moda e beleza, como relembra Zélia Gattai em seu livro de memórias “Anarquistas, Graças a Deus”: “(...) Zezé Leone, a mais bela do Brasil, a primeira Miss, cujo retrato aparecera, havia anos, em todos os jornais e revistas. As moças de nossa rua, na ocasião, entusiasmadas com o concurso e com a eleição da mais bela, de fita métrica em punho comparavam suas polegadas com as da eleita.” (3)

Após a vitória no Concurso Nacional de Beleza, em 1922, Zezé Leone tornou-se ícone de moda (Foto: Reprodução/Arquivos da família)

A fama rendeu-lhe convites para participação em campanhas publicitárias para lojas e até mesmo de remédios como o Biotônico Fontoura. A musa inspirou um cine-documentário de 72 minutos, “Sua Magestade, A Mais Bella”, protagonizado por ela e exibido com sucesso nos cinemas paulistas.

Edição de 1923 da revista A Scena Muda fala sobre o cine-documentário "Sua Magestade, A Mais Bella", estrelado por Zezé Leone e exibido em São Paulo (Foto: Banco de Conteúdos Culturais/Cinemateca Brasileira)

Anúncios publicitários do filme estrelado por Zezé Leone (Foto: Banco de Conteúdos Culturais/Cinemateca Brasileira)

Aos 20 anos, Zezé Leone passou a ser cortejada pelos solteiros mais cobiçados do país. Mas quem conquistou seu coração foi o jovem advogado Lincoln Figueiredo da Silva, posteriormente prefeito de Santos. O casamento chegou ao fim na década de 1930 e Zezé passou a viver em São Paulo, onde conheceu o advogado Marcos Ribeiro dos Santos. Casou-se, então, pela segunda vez, divorciando-se anos mais tarde.

Zezé Leone em edição de 1923 da revista A Scena Muda (Foto: Banco de Conteúdos Culturais/Cinemateca Brasileira)

A “RAINHA DA FORMOSURA” NO FOLCLORE NACIONAL

O nome da primeira Miss Brasil apelida a histórica locomotiva 370 da Estrada de Ferro Central do Brasil, doada ao Brasil em 1922 pelo Rei Alberto I da Bélgica, em comemoração ao Centenário da Independência. A locomotiva foi apelidada de ‘Zezé Leone’ pelo motorista Carlos Pereira da Rocha, pois, reza a lenda, era tão bela quanto a Miss Brasil.
As partes de metal do veículo reluziam e, quando não estava conduzindo, Carlos Pereira contava com a ajuda de seus filhos para poli-las. Aos arredores da estrada de ferro, os moradores dos subúrbios, avisados pelos incessantes apitos que Carlos Pereira assinalava, se debruçavam em suas janelas para ver ‘Zezé Leone’ passar, cruzando o Estado de São Paulo até o Rio de Janeiro. (4)

A histórica locomotiva 370 da Estrada de Ferro Central do Brasil, apelidada de Zezé Leone por ser tão bela quanto a Miss Brasil (Foto: Reprodução)

A beleza de Zezé atiçou a imaginação de artistas: a musa teve seu busto esculpido em mármore e oferecido pela tripulação no navio São Paulo, que cumpria missão no Porto de Santos. Zezé inspirou, ainda, o froxtrote “Vênus”, primeiro sucesso do compositor Freitinhas: “Seus verdes olhos derramavam com ternura/A tua luz a implorar/Em beijos ternos prolongar/E orvalhava-se a teus pés a formosura.”


Zezé dá nome a uma rua no bairro paulista de Casa Verde Alta e também a uma deliciosa sobremesa, que, segundo o Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo, “pode-se dizer que é a mais leve e bela sobremesa mineira. Seu nome se deve a uma miss Brasil de tez muito rosada”. (5)


Zezé Leone, sobremesa mineira batizada em homenagem a primeira Miss Brasil (Foto: Reprodução)

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VIDA ANÔNIMA

Pouco se sabe a respeito da história da primeira Miss Brasil, pois ela mesma desfez-se de fotografias, recortes de jornais, revistas e reminiscências de seu passado. A “rainha da formosura” faleceu em sua residência, em São Paulo, em 1965. Não teve filhos e viveu seus últimos anos devotada ao lar.


Zezé Leone não teve filhos e viveu seus últimos anos devotada ao lar (Foto: Reprodução/O Cruzeiro)

Em entrevista concedida na década de 1960 ao jornalista Brício de Abreu, da revista O Cruzeiro, Zezé é evasiva quanto a perguntas acerca de sua época de fama. “Não guardo saudades”, justificou. “O concurso, o título de ‘Miss Brasil’ me trouxeram mais aborrecimentos do que alegria. Meus pais não se opuseram. Mas se eu tivesse uma filha, jamais consentiria que ela concorresse a um concurso de beleza.” (6)

Zezé Leone preferia a vida simples do anonimato e não gostava de se recordar do seu passado de fama. "Não guardo saudades" (Foto: Reprodução/O Cruzeiro)

Oriunda de uma época em que as participantes de concursos de beleza desfilavam sem pernas de fora, Zezé comentou a mudança nos padrões estéticos e no comportamento das gerações: “No meu tempo o que importava era a linha do rosto. As moças de hoje são incomparavelmente mais bonitas que as de 1922. Creio que para isso tem concorrido a prática dos esportes e as gentilezas da moda.” 

Referências:

(3) GATTAI, Zélia. Anarquistas, graças a Deus32ª edição. Editora Record - Rio de Janeiro, 2001;

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

Um comentário:

  1. Li com uma saudade de um tempo que não vivi! Que sensação de apreço que me deu por essa beldade! Obrigado, Rafinha!

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