Elke Maravilha: ícone fashion e mulher do mundo


Por Rafaella Britto -


Uma anarquista de carteirinha: era assim que Elke Maravilha definia a si própria. Irreverente, culta e despachada, a apátrida de Itabira conquistou o Brasil com seu riso, beleza e autenticidade. Apresentadora, atriz, modelo e mulher do mundo, Elke, falecida em agosto de 2016, eternizou-se como uma das mais célebres personalidades da TV brasileira.

(Foto: Reprodução)

UMA MULHER DO MUNDO

Nascida em Leningrado (atual São Petersburgo), Rússia, em 22 de fevereiro de 1945, Elke Georgievna Grunnupp imigrou com a família para o Brasil em 1951, aos sete anos de idade. Seu pai havia sido preso político na Sibéria e pretendia fugir da ditadura de Stalin.
“Meu pai era um idealista”, contou Elke a Antônio Abujamra. “A Rússia tinha anexado os países da Cortina de Ferro e a última vontade era pegar a Finlândia. E meu pai não tinha sangue finlandês nem nada, mas era idealista. Então ele fugiu da Rússia e lutou pela Finlândia como guerrilheiro na famosa Guerra das Neves. E, claro, traidor da pátria, né?”
O destino da família era uma fazenda na pequena cidade de Itabira, no interior de Minas Gerais. “Fomos despejados na Ilha das Flores, lá na Baía de Guanabara. Viemos meu avô paterno, que era mestiço de azerbaijano com viking, minha avó paterna, que era mongol da facção dos tatar, minha mãe, que era alemã, meu pai, que era russo, e eu, que não era nada”.

Nascida em Leningrado, atual São Petersburgo, Elke Grunnupp imigrou com a família da Rússia para o interior de MG aos sete anos (Fotos: Reprodução)

A infância rural proporcionou à pequena Elke o contato com a cultura negra, que, anos mais tarde, influenciaria grandemente seus penteados extravagantes. “Meu pai foi trabalhar em uma fazenda em Minas Gerais. Eu tinha um medo do c* de negro, nunca tinha visto um. Chorava o dia inteiro, eu era uma criança medrosíssima. Meu pai me tirou esse medo: um dia ele me levou pra casa dos negros e disse: ‘você vai ficar aí’. Depois foi um problema pra ele me tirar de lá, eu não queria mais sair. Eu via aquelas negras soltando o cabelo, ficava aquela coisa enorme... eu ficava encantada... ‘Ai que coisa linda... e o meu é loirinho, essa micharia!’ Elas falavam: ‘O seu cabelo é bom, o nosso é ruim’. Eu falava: ‘Não, o seu é que é bom, o meu é ruim’, e elas não entendiam nada.

A infância rural proporcionou à Elke o contato com a cultura negra, que, anos mais tarde, influenciaria seu estilo (Foto: Reprodução)

CARREIRA

Já na adolescência, Elke destacava-se por sua beleza e personalidade: em 1962, a garota de 1,77m foi eleita Glamour Girl de Belo Horizonte. O domínio de línguas estrangeiras (Elke era fluente em russo, português, francês, italiano, alemão, grego, latim e espanhol) abriu-lhe portas para as primeiras oportunidades profissionais. 

Já na adolescência, Elke destacava-se por sua beleza e personalidade (Fotos: Reprodução)

Antes de ingressar no show business, fez de tudo um pouco. “Comecei minha vida profissional como professora de inglês na União Cultural Brasil – Estados Unidos, e de francês na Aliança Francesa”, contou à Marília Gabriela. “Depois fui bancária em Porto Alegre, secretária trilíngue na Western Telegraph Company, fui tradutora intérprete na Alemanha e bibliotecária”. 
Elke cursou um ano da faculdade de Medicina e dois anos e meio do curso de Letras Clássicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS). Ao mudar-se para o Rio de Janeiro, pretendia continuar sua carreira intelectual. A ideia de ser modelo foi de seu primeiro marido, o escritor grego Alexandros Evremidis. “Quando chegamos no Rio, ele falou: ‘Você vai ser modelo’. Eu falei: ‘Você tá maluco?’ E ele falou: ‘Você vai ser modelo e vai ser a maior modelo desse país, escuta o que eu tô falando’.”

Aos 24 anos, Elke não pensava em ser modelo (Fotos: Reprodução)

Elke fez sua estreia nas passarelas em 1969, aos 24 anos, desfilando para o costureiro Guilherme Guimarães. “No dia do desfile, no Golden Room do Copacabana Palace, eu tremi. Dei de cara com Vera Barreto Leite, a manequim preferida de Coco Chanel, e falei: ‘Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?’ Mas aí eu parei e pensei: ‘Ah, Elke, seja você, você não sabe fazer essas coisas, seja você. E eu fui eu”. 
O exotismo da manequim novata chamou a atenção de outros dos principais nomes da alta-costura brasileira, como Clodovil, Dener Pamplona de Abreu e Zuzu Angel.

Elke começou como manequim e Guilherme Guimarães e chamou a atenção de outros dos principais nomes da alta-costura brasileira, entre eles, Clodovil (Fotos: Reprodução)

TV E CINEMA

O sucesso como modelo rendeu-lhe convites para a participação em famosos programas de TV. “Disseram que eu inovei como manequim. Fiquei muito conhecida, saí em capa de revista. Daí um dia, em setembro de 1972, me ligaram do Chacrinha me chamando pra ser jurada. Eu aceitei. E na época eu não via televisão, nunca tinha assistido o programa do Chacrinha”.

Em 72, Elke tornou-se jurada do programa de calouros do Chacrinha e conquistou o Brasil (Fotos: Reprodução)  

Foi Chacrinha quem lançou-a no ar com o nome de Elke Maravilha. Elke permaneceu como jurada de seu programa de calouros por 14 anos, tornando-se uma das irreverentes e conhecidas personalidades da televisão brasileira. A musa foi, também, jurada do Silvio Santos e, em 1993, comandou seu próprio programa de entrevistas no SBT.

Foi Chacrinha quem lançou-a no ar com o nome de Elke Maravilha (Fotos: Reprodução)

Como atriz, Elke desempenhou importantes papéis em cinema: sua primeira atuação foi em O Barão Otelo no Barato dos Bilhões (1971), com Grande Otelo. Posteriormente, vieram os filmes Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, pelo qual conquistou a Coruja de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante; A Noiva da Cidade (1978), último filme do cineasta Humberto Mauro; e o aclamado Pixote (1980), de Hector Babenco. 

(Fotos: Reprodução)

APÁTRIDA

Em 1971, Elke foi presa pela Ditadura Militar durante seis dias por rasgar cartazes de procurados políticos (entre eles, Stuart Angel, filho de Zuzu Angel) no Aeroporto Santos Dumont. A artista perdeu sua cidadania brasileira e, ao longo de toda sua vida, permaneceu no Brasil como apátrida. “Poderia ter pedido anistia, mas seria pedir desculpas, reconhecer erros que não cometi.”

Elke Maravilha posa com modelo da coleção de protesto de Zuzu Angel (Foto: Reprodução)

IRREVERÊNCIA TORNOU-SE MARCA REGISTRADA DA MUSA

Para Elke, o estilo estava além da roupa. “Minha roupa é alma, expressão”. As origens multiculturais da artista influenciaram o pluralismo de seu estilo exuberante. “Eu sempre fui antimoda. Comecei com o Guilherme Guimarães, que era o maior costureiro do Brasil na época, mas sempre curti um trem esquisito, eu misturo tudo."




(Fotos: Reprodução)

Pioneira, Elke “já usava a estética punk muito antes do punk gostar dessa proposta”: “Fui a primeira punk do mundo e nem sabia o que era isso. Um dia aconteceu uma coisa engraçada: a primeira vez que eu fui à Inglaterra, cheguei no aeroporto e todo mundo ficou me fotografando. Algum tempo depois, mandaram um postal para minha irmã escrito ‘Visit London’, com a minha cara. Virei símbolo na Inglaterra."




(Fotos: Reprodução)

ELKE POR ELKE

“Perguntam-me como criei este estilo, este visual que me caracteriza. Digo que sempre busquei compor este jeito, claro que não era assim como agora, pois hoje a coisa é mais abrangente. Com o tempo venho me descobrindo muito mais por dentro e colocando o que descubro para fora. Costumo dizer que sempre fui assim, só que com o tempo estou piorando! Na realidade, sempre fui um trem meio diferente, sabe? Ainda adolescente resolvi rasgar a roupa, desgrenhei o cabelo, exagerei na maquiagem e saí na rua... Levei até cuspida na cara. Mas foi bom porque entendi aquela situação como se estivessem colocando-me em teste. Talvez, se meu estilo não fosse verdadeiramente minha realidade interior, eu teria voltado atrás. Mas sabia que nunca iria recuar. Eu nunca quis agredir ninguém! O que eu quero é brincar, me mostrar, me comunicar”.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

4 comentários:

  1. Sinto muita falta, "Mulherão da porra"!.

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  2. ELKE <3
    Ah, como o tempo passa rápido...
    Mulher inteligente, linda e atemporal
    saudades eternas.
    Parabéns pelo Blog, Rafa <3

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    1. Elke é maravilhosa - e que surpresa agradável você por aqui, Gi! Muito obrigada! <3

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