Hula: memória e identidade

Por Rafaella Britto


A Hula é, para os havaianos, a afirmação de suas tradições e identidade cultural. As origens da dança havaiana remontam o Período Histórico Matriarcal do Havaí. Segundo a mitologia, Laka, a deusa da dança, das florestas e das plantações, concebeu a Hula na ilha de Moloka’i, durante a Antiguidade.

Dançarinas de Hula em 1885 (Foto: J.J Williams/Reprodução)

A Hula, bem como outras manifestações artísticas tradicionais do Havaí, tem influência dos povos polinésios, por volta de 700 d.C. A dança é a representação de textos poéticos (canto, ou, na língua havaiana, mele), transmitidos de geração a geração, através de relatos orais. Na Hula, cada gesto e movimento expressa um elemento da natureza, como as ondas do mar, as colinas, montanhas e florestas, sentimentos como o amor e o ódio, e o culto à beleza e à fertilidade.

Dançarinas de Hula no século 19 (Foto: J.J Williams/Reprodução)

O Havaí, antes da invasão norte-americana, era governado por chefes polinésios e, posteriormente, sob o domínio do rei Kemehameha I, tornou-se uma monarquia – o Reino do Havaí. A Hula possuía desde sentidos sacros, evocando religiões ancestrais e oferendas aos deuses, até frívolos, apenas para o entretenimento dos reis e líderes polinésios.  
Ao longo da história, a Hula sofreu diferentes influências: algumas vertentes são a Hula Kahiko, antiga e de caráter ritualístico; e a Hula Au’ana, moderna, acompanhada de instrumentos como o ukelelê.

As influências ocidentais nos trajes havainos (Foto: J.J Williams/Reprodução)

No século 19, com a invasão dos EUA, missionários protestantes condenaram a Hula como uma prática pagã. A rainha Lili’uokalani  - a última rainha do Havaí, deposta do Reino pelos norte-americanos em 1893 - empreendeu esforços para perpetuar a tradição.

Lili'uokalani, a última rainha do Havaí, deposta em 1893 pelos norte-americanos (Fotomontagem/Império Retrô)

INDUMENTÁRIA

O vestuário, confeccionado em elementos naturais, é parte da interpretação visual do mele (canto): tradicionalmente, as mulheres mantinham os seios à mostra, usando somente adornos como coroas de flores (leipo’o), tornozeleiras (kupe’e), braceletes e colares. As saias (ʻū) são feitas de tapa (confecção comum em antigas ilhas do Oceano Pacífico, feita a partir de folhas secas e cascas da árvore hala - entre nós conhecida como algodoeiro-da-praia). Posteriormente, no século 19, a invasão norte-americana instituiu o cristianismo como doutrina vigente e proibiu a exposição dos seios, contribuindo, assim, para a ocidentalização do traje havaiano. 

Ocidentalização do traje havaiano: no século 19, os protestantes proibiram a exibição dos seios (Foto: J.J Williams/Reprodução)

No vestuário utilizado para a prática da Hula, as cores possuem significados diversos: o branco simboliza a água e a sabedoria; o amarelo simboliza o vento e a cura; o verde representa o amor e a compaixão; o azul representa a habilidade; e tons de laranja e vermelho simbolizam o fogo, a energia, o renascimento. A dança tradicional (hula kahiko) é praticada com os pés descalços.

Na prática da Hula, as peças de vestuário e acessórios representam versos do mele (Fotomontagem/Império Retrô)

MODERNIDADE

A partir do século 20, a Hula popularizou-se, ganhando representações no cinema e na cultura popular ocidental. Na década de 1960, o sucesso dos filmes musicais de Elvis Presley, ambientados no Havaí (Blue Hawaii, de 1961, Girls! Girls! Girls!, de 1962, e Paradise, Hawaiian Style, de 1966), atraíram considerável número de turistas a ilha. 

Elvis Presley em "Blue Hawaii", 1961 (Foto: Vanity Fair/Reprodução)

O Havaí integra os Estados Unidos, e a constante imigração de povos oriundos de diversas partes do mundo tornou o arquipélago um Estado multiétnico e diversificado. Na atualidade, a Hula funciona como entretenimento e recepção em pólos turísticos. Em contrapartida, os nativos esforçam-se para perpetuar a poesia de suas tradições.

Foto de abertura: J.J Williams (Reprodução)

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

Um comentário:

  1. Mais um artigo pra lá de interessante, Rafa! Lili"uokalani e a soberania havaiana sucumbiram ante a força do imperialismo americano. Isso me entristece!Pergunto-me: quando as culturas nativas serão respeitadas sem que se tornem entretenimento para os potentados do mundo? Obrigado pelas informações. Parabéns e cada vez mais sucesso!

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