Audrey Munson, a primeira supermodelo

Por Rafaella Britto


Ícone de beleza na década de 1910, a modelo Audrey Munson teve sua vida marcada pelo glamour e a tragédia. Quem vive ou já esteve em Nova York certamente se deparou com sua figura esculpida em pedra ou bronze e exposta na entrada da Ponte de Manhattan; no monumento da Columbus Circle; acima da fonte do Hotel Plaza; no prédio da Prefeitura de Manhattan, na Biblioteca Pública e no Metropolitan Museum of Art. Atriz do primeiro nu feminino do cinema, Munson permanece como uma das mais misteriosas figuras da história da arte do século 20.

Monumentos de Nova York como a estátua do Museu do Brooklyn tiveram Audrey Munson como inspiração (Foto: Reprodução)

BELEZA CLÁSSICA

Audrey Marie Munson nasceu em Rochester, Nova York, em 8 de junho de 1891, filha única de Edgar, motorista e membro de família protestante, e Katharine Mahoney Munson, doméstica e filha de imigrantes católicos irlandeses. O casal divorciou-se em 1899. Audrey, então com oito anos, ficou sob a custódia da mãe, que incutiu-lhe o desejo de ser artista. “Foi sua mãe quem lhe falou dos palcos quando ela ainda era um bebê”, contou Edgar. “Eu me lembro de levá-la ao teatro, ela ficava tão empolgada que não conseguia se sentar e ficava em pé durante toda a peça.” Audrey foi matriculada em um colégio de garotas, onde desenvolveu suas habilidades em canto e dança. (1)

(Foto: Reprodução)

Aos 17 anos, Audrey mudou-se com sua mãe para a capital de Nova York, no intuito de concretizar o sonho de ser corista na Broadway. A adolescente estrelou pequenos papéis no teatro, em peças como “The Boy and the Girl”, “The Girl and the Wizard”, “Girlies” e “La Belle Paree”.

(Foto: Reprodução)

Enquanto passeava por uma loja na Fifth Avenue, Munson foi descoberta pelo fotógrafo Félix Benedict Herzog, que convidou-a para posar em seu estúdio. Herzog mostrou as fotografias ao renomado escultor Isidor Konti. Encantado, Konti propôs-lhe que posasse nua para uma de suas obras. Inicialmente, a mãe mostrou-se relutante em permitir, mas compreendeu a nudez sob uma perspectiva artística.

(Fotomontagem/Império Retrô)

Com 1,77m de altura, pele alva e rósea, curvas voluptuosas e grandes olhos azuis, Audrey Munsou era a personificação do ideal da beleza neoclássica dos artistas de sua geração, sendo comparada a Vênus de Milo: a modelo inspirou mais de 12 estátuas de Nova York. Em 1 de abril de 1915, o New Oxford Item escreveu: “Após todos desta geração se tornarem pó, Audrey Munson, que posou para três quintos da estatuaria da exposição Panama-Pacific, viverá nos bronzes e nos debates dos centros de arte do mundo.” (2)

(Foto: Reprodução)

Ícone de moda, Audrey Munson popularizou o maiô feminino no início do século 20. A modelo dispensava os saltos e espartilhos, e seu estilo era marcado por peças em tecidos fluidos e modelagens que remetiam a silhueta da Antiguidade Grega.

(Foto: Reprodução)

CINEMA

Segundo o biógrafo James Bone em “The Curse of Beauty: The Scandalous and Tragic Life of Audrey Munson, America’s First Supermodel” (sem tradução no Brasil), 1915 foi o ano em que “tudo aconteceu” para Audrey. Nesta época, a musa, já mundialmente consagrada como ícone de beleza feminina, tentou sua sorte no cinema. O primeiro filme foi “Inspiration”, lançado em 1915. Audrey, que interpreta a modelo de um escultor, causou escândalo ao protagonizar a primeira cena de nu feminino do cinema. Os censores relutaram em banir a película das salas de exibição temendo que, assim, teriam também de banir as artes renascentistas dos espaços públicos. À época de lançamento, a crítica do The Morning Telegraph escreveu: “A beleza clássica e harmonia da Senhorita Munson removem toda sugestão de objetificação”. (3)

Audrey Munson em "Inspiration", 1915: o primeiro nu feminino da história do cinema (Foto: Reprodução/Wikimedia)

A carreira de Munson como atriz de cinema não vingou: para a crítica, a modelo, que sempre interpretava os mesmos papéis de musas de artistas, não era dotada de talento dramático. Dos quatros filmes em que atuou, somente “Purity”, de 1916, sobreviveu aos dias atuais. “Ele foi redescoberto em 1993, quando um francês morreu e um sobrinho descobriu sua coleção do que era considerado pornografia, na época”, explicou James Bone à BBC. Uma cópia é hoje preservada no Centro Nacional de Cinematografia de Paris.

Audrey Munson em "Purity", 1916 (Foto: Reprodução)

TRAGÉDIA

A partir de 1916, Audrey apresentou sinais de doença mental. Em 1919, estampou as manchetes dos tabloides americanos ao ser acusada de cúmplice em um escândalo envolvendo o proprietário de terras Walter Wilkins, que assassinou sua esposa após se apaixonar pela modelo. Munson teve sua inocência provada, porém sua carreira foi arruinada.

(Foto: Arnold Genthe/Reprodução)

Audrey e sua mãe mudavam-se constantemente. Incapaz de recuperar o prestígio de outrora, Munson trabalhou como garçonete e professora, mas sua constante instabilidade emocional tornava evidentes os problemas de saúde. Em 1922, tentou o suicídio, e, ao completar 40 anos, a mãe internou-a no Hospital Psiquiátrico de Ogdensburg. Lá viveu por 65 anos, até sua morte, aos 104 anos, em 20 de fevereiro de 1996.
“A mulher que inspirou tantos monumentos famosos não tem nem uma lápide”, disse James Bone. “É uma grande vergonha que ela não tenha sido homenageada.”

(Fotomontagem/Império Retrô)

Segundo Bone, Munson, ao longo de sua vida, foi assolada pela profecia feita por uma cigana quando ela tinha cinco anos: “Você será amada e famosa. Mas quando pensar que a felicidade é sua, será o fruto do Mar Morto a se converter em cinzas em sua boca. Você, que jogará fora milhares de dólares por capricho, implorará por um centavo. Você, que zomba do amor, procurará amor sem encontrar. Sete homens a amarão. Sete vezes você será levada aos degraus do altar pelo homem que a ama, mas nunca se casará.” (4)


Referências:

(1) (PDF) Justin D. White - Rediscovering Audrey Munson (disponível em http://www.andreageyer.info/projects/audrey_munson/munson_book/MunsonPages/PDF/JustinWhite.pdf);
(2) April 1, 1915 - New Oxford Item from New Oxford, Pensnsylvania - Page 11 (disponível em https://www.newspapers.com/newspage/9806831/);
(4) (Excerto) BONE, James. The Curse of Beauty: The Scandalous and Tragic Life of Audrey Munson, America’s First Supermodel (disponível em http://www.reganarts.com/spill/2016/04/the-curse-of-audrey-munson/).

Foto de abertura: Arnold Genthe (Reprodução)

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

4 comentários:

  1. super amei a história de audrey munson sou apaixonada por moda e comecei a fazer uns cursos mas não tinha visto essa história me apaixonei e amei seu blog mais uma escrita

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  2. Não conhecia ela, mas achei o post espetacular, Rafa <3

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