Omar Sharif, o príncipe do deserto


Por Rafaella Britto -

Desde que Rodolfo Valentino personificou o xeique nas telas do cinema mudo, as mulheres são atraídas pela figura do amante árabe. A biografia de Omar Sharif é de fazer inveja a muitos homens: o astro egípcio, falecido em julho de 2015, estrelou duas das maiores produções da história de Hollywood, “Lawrence da Arábia” (1962) e “Dr. Jivago” (1965), e dedicou grande parte de sua vida e de sua fortuna à paixão por jogos, cavalos e mulheres.

(Foto: Reprodução)

Michel Demitri Shalhoub nasceu em Alexandria, Egito, no dia 10 de abril de 1932. Filho de imigrantes católicos libaneses, mudou-se com a família para Cairo aos quatro anos. Sua mãe era a socialite Claire Saada, que, segundo ele, “jogou pôquer com o Rei Farouk”. “Minha mãe me enviou a um internato britânico no Egito porque a comida era ruim e ela queria que eu perdesse peso”, relembrou Sharif em entrevista ao Irish Times.
Após o colegial, Sharif graduou-se em matemática e física na Universidade do Cairo e trabalhou no comércio de madeiras de seu pai, até que, decidido a tornar-se ator, partiu para Londres e estudou na Royal Academy of Dramatic Art. Estreou no cinema em 1953, no filme “The Balzing Sun”, e logo tornou-se um dos mais famosos galãs do cinema egípcio.

1954: O jovem Omar Sharif seu início de carreira, no Egito (Foto: Reprodução)

Partiu do Egito para Hollywood em 1962, e conquistou fama mundial por sua interpretação de Sherif Ali no épico “Lawrence da Arábia”, de David Lean. Por “Lawrence”, Sharif recebeu o Globo de Ouro e foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O ator seria novamente aclamado em 1965 no papel-título de “Dr. Jivago” – também de David Lean -, pelo qual conquistou seu segundo Globo de Ouro.

Omar Sharif como "Dr. Jivago" ( dir. David Lean, 1965) (Foto: Reprodução)

Omar Sharif era fluente em árabe, inglês, francês, italiano, grego e espanhol. A facilidade para idiomas possibilitou-o atuar em filmes em diferentes línguas, sendo considerado um dos mais versáteis atores de sua geração.
De beleza viril, o astro interpretou “todos os papéis imagináveis” em faroestes, épicos, filmes policiais, romances históricos e contemporâneos. Sharif interpretou Che Guevara na polêmica cinebiografia “Che”, lançada em 1969 - dois anos após a morte do guerrilheiro. O ator, entretanto, afirma que “Che” foi "o maior erro de sua vida". Segundo ele, o filme possui tom fascista e foi “inteiramente manipulado pela CIA (Agência de Inteligência Americana)”. “A CIA estava por trás, queria fazer um filme que agradasse aos cubanos de Miami e eu só me dei conta disso no final”, disse.

Omar Sharif como "Che" ( dir. Richard Fleischer, 1969) (Foto: Reprodução)

Omar Sharif faleceu em 10 de julho de 2015, aos 83 anos, vítima de ataque cardíaco. Sua velhice foi solitária em Paris e o ator reconhecia-se resignado fazendo pequenas pontas e “papéis de velhos” em filmes como “Uma Amizade Sem Fronteiras” (2002) e “Al Musafir” (2009).

AS MULHERES NA VIDA DE OMAR SHARIF

Em 1954, Sharif – então chamado Michel Shalhoub – foi cogitado pelo diretor Youssef Chahine para ser o par romântico de Faten Hamama no filme “Struggle in the Valley”. Faten Hamama, a maior estrela feminina do cinema egípcio das décadas de 50 e 60, vivia desde a infância sob os holofotes e era conhecida como a “Shirley Temple do Egito”. A atriz, que, à época, era casada com o produtor de cinema Ezz Eddin Zulfikar, apaixonou-se por Sharif. Os dois iniciaram seu caso, porém, para se casarem, Michel teve de converter-se ao islamismo e alterou seu nome para Omar Al Sharif.

Omar Sharif e Faten Hamama (Foto: Reprodução)

Omar Sharif e Faten Hamama formavam o casal mais badalado do cinema egípcio, e atuaram juntos em inúmeras produções de sucesso, incluindo a adaptação egípcia de Anna Karenina, “The River of Love” (“Nahr el Hub”, 1961). Da união nasceu o único filho do casal, Tarek Sharif, que interpretou Jivago aos oito anos em “Dr. Jivago”.

Com a esposa Faten Hamama e o filho Tarek (Foto: Reprodução)

Após o estrelato de Sharif em Hollywood, o casamento foi abalado pelos inúmeros casos extraconjugais do ator com outras famosas atrizes, sendo o mais polêmico com Barbra Streisand durante as filmagens de “Funny Girl” (1968). “Omar foi meu primeiro galã no cinema”, disse Barbra à People. “Ele era bonito, refinado e charmoso. Era um egípcio orgulhoso e, aos olhos de algumas pessoas, a ideia de escalá-lo para o elenco de Funny Girl era controversa. Mas, de alguma maneira, sob a direção de William Wyler, a química entre Nick Arnstein e Fanny Brice transcende estereótipos e preconceitos”.  

Com Barbra Streisand em "Funny Girl" (dir. William Wyler, 1968) (Foto: Reprodução)

O romance, entretanto, ultrapassou as telas de cinema. “Nunca me esquecerei da maneira como ela esteve ao meu lado quando houve objeções quanto a minha participação no elenco, porque eu era egípcio e o Egito estava em guerra contra Israel”, disse Omar.
Barbra era judia e, no auge do conflito árabe-israelense, o caso escandalizou a sociedade conservadora e irritou o governo egípcio. “Vocês acham que foi ruim pro Cairo? Vocês deviam ver a carta que eu recebi da minha tia Rosie!”, disse Barbra sobre a reação de sua família quando o romance veio a público. Para Omar, Barbra “não era tão bonita, mas tinha uma personalidade atraente.” “Mantivemos um caso de amor secreto durante quatro meses”, contou. Sharif afirmou, ainda, que quase converteu-se ao judaísmo para se casar com Streisand (que, à época, era casada com o ator Elliott Gould), mas ela recusou-se a viver em Nova York.

Com Barbra Streisand durante um ensaio de "Funny Girl" (Foto: Reprodução)

Sharif flertou com muitas de suas colegas de elenco, incluindo Catherine Deneuve ("Mayerling"), Julie Andrews ("As Sementes de Tamarindo"), Ava Gardner ("Mayerling"), Sophia Loren ("Mora Than a Miracle") e Ingrid Bergman ("The Yellow Rolls-Royce), e envolveu-se com Anouk Aimée durante as filmagens de “O Encontro”. “Ela era linda e muito peculiar, sabia como agradar a um homem”, disse ele sobre Aimeé. “Eu quis me casar com ela, mas preferi manter a minha independência.”

Com Anouk Aimée em "O Encontro" ("The Appointment", 1969) (Foto: Reprodução)


Omar Sharif e Faten Hamama divorciaram-se em 1974. Ele, porém, afirmou que ela foi seu primeiro e único amor. “Nunca amei ninguém até hoje a não ser ela”. Em 2005, o eterno “príncipe do deserto” recebeu da UNESCO a medalha Sergei Einsenstein por suas contribuições à arte cinematográfica e à diversidade cultural. 

Foto Capa: Reprodução

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário