“It”: clássico do cinema mudo fez surgir uma moda acessível

Por Rafaella Britto


Não é novidade que a moda e o cinema caminham juntos. Desde os primeiros cinematógrafos, os astros das telonas ditam a moda jovem. Hoje a moda vive um processo de relativa democratização, o qual devemos, em parte, a um filme que, embora sucesso mundial à época de seu lançamento, encontra-se, atualmente, um tanto esquecido: “It”, de 1927, inaugurou o conceito da ‘it girl’ e popularizou o pretinho básico criado por Chanel um ano antes. 
Em nossos dias, entende-se por ‘it girl’ a socialite que emplaca capas de revistas ou a blogueira que dita tendências entre garotas adolescentes. Entretanto, à época de sua criação, o termo possuía significado diferente: embora não fosse a mais bonita ou a mais elegante, Clara Bow, a primeira ‘it girl’ da história, era dona de um estilo inconfundível e ascendeu ao estrelato como um dos rostos mais emblemáticos da Hollywood dos anos 1920.

(Foto: Reprodução)

Embora o termo ‘it’ tenha aparecido pela primeira vez em 1904, no conto “Mrs. Bathurst”, do escritor inglês Rudyard Kipling, o conceito original é de autoria da escritora americana Elinor Glyn, precursora da ficção erótica para mulheres. Polêmica, Glyn, em suas histórias, ironizava o ego masculino e glorificava o poder feminino. A autora era irmã da renomada designer de moda Lady Duff-Gordon, e possuía livre trânsito em Hollywood, sendo amiga de astros como Chaplin e Marion Davies. Em 1922, sua novela “Beyond the Rocks” tornou-se filme estrelado por Rodolfo Valentino e Gloria Swanson.
O conto “It”, que inspirou o filme de Clarence G. Badger e Josef Von Sternberg, foi publicado em duas partes na edição de fevereiro de 1927 da revista Cosmopolitan. A comédia romântica narra a história de Betty Lou (no filme, interpretada por Clara Bow), uma vendedora que nutre uma quedinha por seu patrão, Waltham (Antonio Moreno), e fará tudo o que for possível para conquistá-lo. No Brasil, o título “It” foi traduzido como “O Não Sei Quê das Mulheres”.

Clara Bow e Antonio Moreno em "It" (dir. Clarence Badger & Josef Von Sternberg, 1927) (Foto: Reprodução)

Mas, afinal, o que seria uma ‘it girl’? É a própria Elinor Glyn, em sua curta aparição no filme, quem dá a definição: “Autoconfiança e indiferença em relação a estar agradando ou não, e ao mesmo tempo dando a impressão de que não se trata de frieza. Isso é ‘it’!” ‘Aquilo’ a que a autora chama ‘it’ seria, portanto, um eufemismo para um atrativo especial, “uma qualidade que algumas pessoas têm que atrai outras do sexo oposto. Quem tem ‘it’ deve ser absolutamente inconsciente de si mesmo e deve ter aquele ‘sex appeal’ irresistível.”

Elinor Glyn e Clara Bow (Foto: Reprodução)

A ESTREIA DO PRETINHO BÁSICO NAS TELAS DO CINEMA

Em 1926, a revista Vogue publicou em suas páginas o croqui do vestido ‘Ford’, criado por Coco Chanel. O modelo consistia em uma peça de crepe de chine na cor preta, de mangas compridas, comprimento à altura dos joelhos e silhueta tubular, que poderia ser utilizada tanto no dia a dia quanto em ocasiões formais. Nascia, aí, o conceito do ‘pretinho básico’: um único vestido preto serve para as mais diversas ocasiões, dependendo da combinação de acessórios.

O modelo 'Ford' criado por Coco Chanel em 1926 (Foto: Reprodução/Homecologist)

O ‘pretinho básico’, a princípio, não exerceu impacto. A Vogue relegou-o a um pequeno espaço ao canto de uma de suas páginas. Na época, a cor preta era usada pelas mulheres somente em funerais e dias de luto, sendo considerada uma ‘cor de morte’ ou ‘inexistência’. Entretanto, o figurinista Travis Banton, da Paramount, aprovou o conceito e decidiu apropriar-se dele para transformar Clara Bow em um dos maiores ícones de estilo de todos os tempos.

(Foto: Reprodução/Glamour Daze)

“It” revelou ao mundo o charme de Bow: a jovem atriz lançou a moda dos cabelos ruivos, cílios longos e sobrancelhas finíssimas, características da beleza da década de 1920. “As pessoas não sabem quem era Clara Bow naquela época”, disse Louise Brooks em entrevista concedida em 1980. “Ela era a maior estrela de Hollywood, acima de Garbo, acima de todas!”
Trabalhar com ela foi um desafio para Banton, que tinha preferência por atrizes longilíneas, como Carole Lombard. Bow, ao contrário, era baixinha e roliça. Seu tipo físico contribuiu para que as espectadoras ao redor do mundo se identificassem com sua figura. “Ela frustrava tudo o que eu fazia para torná-la mais glamorosa”, contou o figurinista. “Todo vestido que eu lhe dava ela combinava com lenços e outros acessórios. Mas ela era uma criatura encantadora. Sua figura era magnífica, seu rosto era uma chama luminosa de vitalidade e seu espírito, gloriosamente liberto.”

O estilo de Clara Bow em "It" (Foto: Reprodução)

Betty Lou cativou as audiências da Era do Jazz: charmosa e divertida, a personagem decide impressionar seu chefe em um jantar luxuoso, porém percebe que não tem uma roupa adequada. É então que, munida de tesouras e agulhas, transforma seu vestido ‘Ford’ do dia a dia de trabalho em um bonito vestido de noite. A criatividade de Betty inspirou mulheres a experimentarem as inúmeras possibilidades de um vestido preto. Pela primeira vez, surgia nas telonas uma moda acessível e democrática, feita para todas as mulheres.

A famosa cena de "It", em que Betty Lou transforma seu vestido preto do dia a dia de trabalho em um vestido de noite (Fotomontagem/Império Retrô)

Posteriormente, Hollywood fez surgir outros icônicos vestidos pretos, como o clássico modelo de Givenchy para Audrey Hepburn no filme “Bonequinha de Luxo”.  
O advento do cinema falado representou uma ameaça à carreira de Clara Bow, que não sobreviveu à mudança dos tempos, aposentando-se precocemente, aos 28 anos. “Quero ser conhecida como uma atriz séria, não como uma ‘it girl’”, declarou. A garota dos subúrbios de Nova York continua a encantar por seu magnetismo e personalidade irresistíveis.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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