A moda dos vestidos de papel na década de 60

Por Rafaella Britto


A década de 1960 é marcada pelas experimentações: na música, no cinema, nas artes plásticas e na moda, a ordem é explorar as diversas formas existentes para produzir resultados inéditos.
A moda, especialmente, refletiu as mudanças ocorridas no período. Na atualidade, em que discutimos temas como moda ecológica e fast-fashion, é válido relembrarmos uma façanha pouco conhecida dos designers da Era Espacial: os vestidos de papel, febre entre as mulheres americanas da segunda metade da década.

Vestidos de papel da companhia Scott Paper, 1967 (Foto: Reprodução)

Acessórios em papel machê já eram produzidos no século 19, sobretudo máscaras de baile. Entretanto, as roupas fabricadas a partir da fibra de celulose foram criadas para serem utilizadas em hospitais por funcionários e pacientes, pois, sendo baratas e descartáveis, reduziam o custo de lavanderia. (1)
Porém somente em março de 1966, nos Estados Unidos, teria início a produção de vestidos de papel para consumo de massa. A ideia foi da empresa norte-americana de produtos sanitários Scott Paper, que desenvolveu os designs de papel como ferramenta de marketing para promover seus novos produtos, que incluíam toalhas de mesa descartáveis, pratos e copos de plástico. O anúncio do primeiro vestido foi publicado na revista Seventeen e, imediatamente, foram encomendadas mais de meio milhão de peças, e vendidas a $ 1 dólar.

Anúncio do primeiro vestido descartável lançado pela Scott Paper na revista Seventeen, em 1966; as peças foram vendidas a $ 1 dólar (Foto: Reprodução)

A Scott Paper incorporou ao seu design as inovações da pop-arte, lançando o vestido ‘Souper’, inspirado no rótulo da sopa Campbell, que havia sido transformado em obra de arte em 1962, por Andy Warhol.

Vestido 'Souper', inspirado no rótulo da sopa Campbell que foi transformado em obra de arte em 1962, por Andy Warhol (Foto: Reprodução)

Percebendo na tendência dos vestidos descartáveis uma alternativa barata e lucrativa, estilistas como Ossie Clark, Celia Birtwell e Elisa Daggs lançaram seus próprios designs de papel. As peças tornaram-se poderosas ferramentas de marketing inclusive em campanhas presidenciais norte-americanas. (2)

À esquerda, vestido de papel para campanha presidencial do candidato Robert Kennedy; à direita, garotas com vestidos de papel em campanha para Nixon (Foto: Reprodução)

Logo, os vestidos de papel tornaram-se a alternativa mais viável também para aquelas que pretendiam gastar pouco e, ainda assim, estar na moda: as peças podiam ser confeccionadas de maneira caseira, sem que fosse preciso ser dotada de habilidades em corte e costura. Bastava um par de tesouras, cola ou fita. De 1966 a 1967, eram vendidos cerca de 80.000 a 100.000 vestidos de papel por semana. (3)


Avanços tecnológicos possibilitaram o desenvolvimento de novos tecidos criados a partir da mistura da polpa de madeira com fibras sintéticas. Estes tecidos possuíam maior resistência a propriedades do fogo e da água, e podiam ser estampados. Entretanto, as peças possuíam curta durabilidade e costumavam desfazer-se logo na primeira lavagem. Em anúncio de 1966, a Scott Paper destacava a fragilidade do produto: “Não vai durar para sempre... quem se importa? Use rápido – e jogue para o ar.” (4)


(Foto: Reprodução)

Os vestidos de papel deixaram de ser produzidos e saíram de circulação do mercado em 1968. As peças eram parte da visão de modernidade e futuro projetada pelos estilistas da década de 1960. No período em que se testemunhava o advento da globalização, esta visão pautava-se no consumismo.


(Foto: Reprodução)

Para a designer Elisa Daggs, não era uma moda passageira. Segundo ela, em breve, “máquinas de selar substituirão máquinas de costurar”. (5) Os estilistas acreditavam que as roupas descartáveis encaixavam-se na visão de futuro em que tudo seria automatizado e a moda mudaria conforme a velocidade da luz.  Na atualidade, estilistas de vanguarda, como Jum Nakao em seu desfile-manifesto “A Costura do Invisível”, de 2004, utilizam-se do papel como metáfora da efemeridade da moda.


Referências:
(1) (2) (5) "Dare to Tear: Paper fashions in the 1960s" - The Costume Society;
(3) "Waste Basket Boutique" - Cooper Hewitt, Smithsonian Design Museum; 
(4) "Paper Dresses" - Love to Know.

Foto de abertura: Reprodução

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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