Sorelle Fontana: o pioneirismo da alta-costura italiana

Por Rafaella Britto


Se hoje a alta-costura é ditada por nomes como Prada, Valentino, Versace, Armani e Gucci, há 80 anos, não havia moda italiana. Na Itália da primeira metade do século 20, a elite vestia-se à moda parisiense, enquanto o restante da população fabricava suas roupas de maneira caseira. 
Em 1935, o regime fascista de Benito Mussolini instituiu novos códigos de moda: tornou-se proibida a importação de peças oriundas da Inglaterra e França, bem como as revistas que mostravam mulheres magras, consideradas pelos ideais fascistas como não saudáveis. Estrangeirismos como “tailleur” e “smoking” foram banidos do vocabulário. As casas de moda eram inspecionadas pela polícia, que procurava assegurar uma produção 100% nacional. 
Neste contexto, as irmãs Zoe, Micol e Giovanna Fontana criaram o selo “made in Italy” e fizeram história com seu design de luxo e glamour: localizado em Roma, o ateliê Sorelle Fontana atraiu aristocratas, socialites e estrelas de Hollywood, e lançou a moda italiana no mundo.

As irmãs Zoe, Micol e Giovanna Fontana (Foto: Reprodução)

Nascidas em Parma, Zoe, Micol e Giovanna Fontana aprenderam a costurar ainda crianças, por influência da mãe. “Enfrentamos duas guerras, meu pai como militar”, contou Micol Fontana em entrevista ao iG Moda. “Durante a primeira, minha mãe esperava que os uniformes de papai ficassem velhos, para depois cortar e costurar roupas para nós.” 
Durante os anos 1930, as irmãs viveram entre Paris, Roma e Milão, e trabalharam para Nicola Zecca, Coco Chanel e Aurora Battilocchi, até que, em 1943, instalaram-se definitivamente em Roma e fundaram o ateliê Sorelle Fontana. Devido às limitações impostas pelo fascismo, as irmãs, inicialmente, enfrentaram dificuldades, e somente após o fim da guerra experimentaram liberdade de criação.

As Fontana em seu ateliê (Foto: Reprodução)

As criações das irmãs Fontana atraíram Gioia Marconi, filha de Guglielmo Marconi, o inventor do rádio. Gioia encomendou seu vestido de casamento. Muito satisfeita com o resultado, passou a recomendar o ateliê para personalidades da alta-sociedade italiana.
Mas foi em 1949 que as irmãs tornaram-se famosas internacionalmente, ao confeccionarem o vestido da atriz Linda Christian para seu casamento com o galã Tyrone Power: a cerimônia ocorreu em Roma e foi cercada pelos paparazzi, que não deixaram escapar um só detalhe do casamento dos astros hollywoodianos.

Em 1949, Linda Christian se casa com Tyrone Power usando vestido Sorelle Fontana (Foto: Reprodução)

As irmãs Fontana foram novamente favorecidas no início da década de 1950, quando muitas produções de Hollywood passaram a ser rodadas no poderoso estúdio romano Cinnecitá. Atrizes como Audrey Hepburn e Liz Taylor apaixonaram-se pelo design italiano e tornaram-se clientes assíduas do ateliê. “Quando elas se despiam para provar as roupas, era como se despissem de seus personagens dos filmes”, disse Micol. “Falavam de tudo, de seus amores às traições furtivas”. 

Liz Taylor no ateliê (Foto: Reprodução)

Audrey Hepburn encomendou seu vestido para o casamento com o barão James Hanson. A atriz, entretanto, desistiu da união poucos dias antes e devolveu o vestido às costureiras para que fosse “entregue a noiva mais bonita que elas encontrassem”. As Fontana, então, decidiram promover um concurso pelo rádio e o vestido foi sorteado para uma senhora pobre.

Audrey Hepburn encomendou seu vestido de noiva, mas desistiu do casamento e a peça foi sorteada (Foto: Reprodução) 

Em 1955, ocorreu em Florença o primeiro desfile de moda da Itália (foto de abertura), onde desfilaram Emilio Pucci, as irmãs Fontana, além de outros quatro costureiros. A classe e rigor do design italiano atraíram considerável número de empresários americanos e a moda “made in Italy” foi parar nas araras das lojas dos Estados Unidos. O ateliê Fontana tornou-se referência entre aristocratas e personalidades americanas como Jacqueline Kennedy. “Certa vez, Jacqueline Kennedy veio para comprar uma série de vestidos”, contou Micol. “Mas não se moveu até chegar John Kennedy, que tinha que dar a última palavra sobre tudo o que a mulher usava.” 

Jackie Kennedy veste Sorelle Fontana, em 1957 (Foto: Yousuf Karsh/Reprodução) 

O cinema, contudo, era ainda a maior publicidade para as Fontana, responsáveis pelo guarda-roupa de Ava Gardner em “A Condessa Descalça” (1954). Ava apaixonou-se de tal maneira pelo trabalho das italianas que vestiu uma de suas criações na première de “A Condessa Descalça”: a musa combinou o vestido acetinado total pink com acessórios em diferentes tons de rosa.

Ava Gardner na premiére de "A Condessa Descalça", 1954 (Foto: Reprodução) 

É também criação da Sorelle Fontana o figurino de Anita Ekberg em “A Doce Vida” (1960) na cena em que sua personagem, disfarçada de padre, sobe à cúpula da catedral de São Pedro. Marco do cinema italiano, “A Doce Vida” levou o Oscar de Melhor Figurino em preto e branco.

Anita Ekberg veste Sorelle Fontana em cena de "A Doce Vida", 1960 (Foto: Reprodução)

A Sorelle Fontana foi vendida em 1992 e, em 1994, Micol criou a Micol Fontana Foundation, entidade que abriga o maior acervo da Sorelle Fontana e promove cursos visando difundir o pensamento de moda como arte e cultura. A história do ateliê inspirou, ainda, uma minissérie em dois capítulos, “Atelier Fontana – Le Sorelle della Moda”, lançada em 2011.

Confira, na galeria abaixo, outras criações da Sorelle Fontana:



Fotos: Reprodução

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário