Glam rock: moda, música e revolução

Por Rafaella Britto*


Na década de 1970, o rock ‘n’ roll viveu seu período de maior expressividade artística: o glam. Mas para compreender as particularidades deste subgênero e seu impacto revolucionário sobre a cultura popular, é necessário compreender o panorama sócio-cultural da época.
A geração baby boom (juventude da década de 1960) tencionava derrubar os velhos valores a partir de suas bases. Neste contexto, surge a “revolução sexual” (conjunto de perspectivas sociais que desafiava as normas vigentes e os códigos de conduta moral correspondentes às relações humanas e a sexualidade). Pregava-se a ausência de gênero, e homens e mulheres eram semelhantes em comportamento e aparência.

David Bowie posa ao lado de Twiigy na capa do álbum "Pin Ups", de 1973 (Foto: Reprodução)

O rock tornou-se porta-voz desta geração, ansiosa por liberdade e pelo novo. Eram sucessos as viagens sonoras alucinógenas dos discos psicodélicos do Velvet Underground e Pink Floyd; o ultrarromanstismo e a melancolia de Jim Morrisson; a cadência dos Rolling Stones.  
A contracultura teve seu marco inicial no lendário Festival de Woodstock, realizado entre 15 e 18 de agosto de 1969, em Nova York, influenciando a moda o comportamento de uma geração.

O Festival de Woodstock, marco inicial da contracultura, influenciou a moda e o comportamento de uma geração (Foto: Reprodução)

No Brasil, a Tropicália empenhava-se na construção de uma identidade nacional, aliada às correntes vanguardistas contemporâneas. Os jovens Mutantes - Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee -, driblando a censura da ditadura militar, introduziram a guitarra pela primeira vez à música brasileira, eternizando-se como os criadores do rock no Brasil, e uma das maiores bandas da música universal.

Os principais expoentes da Tropicália: Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Gal Costa, Sérgio Dias e Arnaldo Baptista (Foto: Reprodução)

A virada da década intensificou a esperança e o idealismo dos anos anteriores.  O rock adquiriu novas sonoridades e roupagens, com brilhos e sintetizadores: a este gênero chamamos glam (abreviação de “glamour”).
O fenômeno glam originou-se na Inglaterra em 1971: jovens extravagantes, vestidos em elastano, plumas, glitter, paetês, purpurina e saltos plataforma, conquistavam espaço significativo na música e na cultura popular, com performances recheadas de erotismo, exalando frescor sexual. O glam rock tornou-se o terror das velhas gerações, criadas sob o conservadorismo, e assustadas com o espírito corruptível da juventude. A revolução adolescente era traduzida em músicas como “Teenage Rampage”, do Sweet, e “Children of Revolution”, do T. Rex. 


O glam teve como um de seus principais representantes o roqueiro David Bowie. Bowie é também conhecido como “camaleão do rock”, devido a singular capacidade de renovar sua imagem ao longo dos tempos. Em 1972, Bowie alcançaria fama mundial com a criação de sua primeira persona, o extraterrestre andrógeno Ziggy Stardust, cuja história é narrada no álbum-conceito “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars”. O personagem foi sustentado pelo sucesso do hit “Starman”, considerado um dos principais hinos do glam rock.


O extraterrestre andrógeno Ziggy Stardust pregava a ambiguidade sexual e destruía as barreiras do gênero (Foto: Reprodução)

Outras bandas e músicos de grande sucesso no período foram Roxy Music, Twisted Sister, Motley Crue, Alice Cooper e Lou Reed.


Lou Reed, Bryan Ferry (Roxy Music) e Alice Cooper (Foto: Reprodução)

No Brasil, o cantor Edy Star foi o primeiro artista brasileiro a assumir publicamente sua homossexualidade. A banda Secos e Molhados introduziu ao rock nacional lirismo associado a performances exóticas, combinando poesia, figurinos tribais e histórias folclóricas. Após sua saída dos Mutantes, Rita Lee juntou-se a banda Tutti Fruti, e juntos lançariam alguns dos mais expressivos álbuns do glam nacional, como “Atrás do Porto Tem Uma Cidade”, de 1974, e “Fruto Proibido”, de 1975.


Edy Star, Ney Matogrosso (Secos e Molhados) e Rita Lee (Foto: Reprodução)

Os estilistas da atualidade pegam carona na era mais glamorosa do rock: os desfiles inspirados neste período são espetáculos de cores, música e criatividade.


Jean-Paul Gaultier - Primavera/Verão 2013 (Foto: Reprodução)

No cinema, o glam rock está presente no musical de 1998 “Velvet Goldimine”, estrelado por Ewan McGregor, Jonathan Rhys Meyers e Christian Bale. O filme retrata a liberação sexual da juventude de 1970, sob o olhar de personagens que são alusões a figuras como Bowie e Iggy Pop. “Velvet Goldmine” foi indicado ao Oscar de Melhor Figurino.



*Artigo originalmente publicado na minha coluna no Jornal d’aqui.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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