Fatty Arbuckle e Virginia Rappe: o primeiro escândalo de Hollywood

Por Rafaella Britto


O primeiro escândalo de Hollywood tornou famosa uma aspirante a atriz e destruiu a carreira de um consagrado comediante: em 11 de setembro de 1921, Fatty Arbuckle, astro do cinema mudo, foi preso acusado de violentar e assassinar a modelo e atriz Virginia Rappe. O caso chocou a sociedade americana de princípios dos anos 1920 e alterou a postura da indústria cinematográfica diante da moralidade. 

Fatty Arbuckle (Foto: Reprodução)

Considerado o primeiro grande comediante das telas, Roscoe “Fatty” Arbuckle nasceu no Kansas, em março de 1887, e estreou no teatro Vaudeville ainda durante a adolescência. O talento do jovem ator chamou a atenção dos executivos de cinema, e, a partir de 1909, Arbuckle fez participações em películas de curta duração. Em 1913, foi contratado pela Universal Pictures e alcançou sucesso internacional com suas comédias policiais.

Buster Keaton, Fatty Arbuckle e Al St. John em 1916 (Foto: Reprodução/Tumblr)

Foi Arbuckle quem descobriu Buster Keaton, seu melhor amigo e parceiro em inúmeras produções. Arbuckle foi, também, tutor de Charlie Chaplin, que inspirou-se em seu mestre para a criação do visual “vagabundo”. Em fins da década de 1910, Arbuckle assinou o primeiro contrato milionário de Hollywood. Apesar de muito gordo, Chico Bóia (como tornou-se conhecido no Brasil) possuía agilidade e desenvoltura para as mais diversas acrobacias em cena.

Fatty Arbuckle e Chaplin (Foto: Reprodução)

A bem-sucedida carreira de Fatty Arbuckle seria tragicamente interrompida em 1921: em 5 de setembro – uma segunda-feira -, Fatty reuniu amigos em sua suíte no St. Francis Hotel, em São Francisco, para uma festa em comemoração ao Dia do Trabalho. Arbuckle recebeu os convidados vestido em seus pijamas e, às 3 horas da manhã, foi ao seu quarto para trocar de roupa. Lá encontrou uma de suas convidadas, a jovem atriz de 26 anos Virginia Rappe, embriagada e vomitando. Rappe desfaleceu, porém somente três dias depois foi levada ao hospital, onde morreu vítima de peritonite (inflamação no abdômen) e ruptura na bexiga.

A suíte de Fatty Arbuckle no St. Francis Hotel, em São Francisco, logo após a festa (Foto: Reprodução)

A história de Virginia Rappe é cercada de mistérios: nascida em Chicago, em julho de 1895, iniciou sua carreira de modelo aos 14 anos. Aos 16, mudou-se para Nova York, onde conheceu o artista Robert Moscovitz, seu primeiro noivo. Pouco após o noivado, Moscovitz faleceu em um acidente automobilístico. Após a tragédia, a aspirante a atriz mudou-se para Los Angeles.

Virginia Rappe (Foto: Reprodução)

Descoberta pelo diretor Fred Balshofer, Virginia estreou no cinema em 1917, no filme “Paradise Garden”, contracenando com Harold Lockwood, um dos mais populares atores da década de 1910. Em 1918, Rappe deu à luz um filho, que foi entregue a um orfanato logo após seu nascimento (a conservadora sociedade da época rechaçava mães solteiras). No mesmo ano, estrelou “Isle of Love”, propaganda anti-germânica que trazia em seu elenco o então novato Rodolfo Valentino e a drag queen Julian Eltinge. Embora “Isle of Love” tenha sido seu maior sucesso, Rappe não interpretou papéis de grande expressividade nas telas, e a maior parte dos filmes em que atuou encontra-se, hoje, perdida.

Virginia Rappe e Rodolfo Valentino em "Isle of Love", 1918 (Foto: Reprodução)

Segundo consta do documentário “Fatty Arbuckle: Mysteries and Scandals”, Virginia Rappe enfrentou doenças ao longo de sua vida e, antes dos 16 anos, já havia realizado cinco abortos. As circunstâncias de sua morte permanecem, ainda hoje, sem esclarecimento.

(Foto: Reprodução)

Maude Delmont, uma das mulheres presentes na festa de Arbuckle, acusou o comediante de ter violentado e assassinado Virginia Rappe. Arbuckle foi preso e submetido a três julgamentos. O caso estampou as manchetes dos principais jornais da época.

Jornal San Francisco, 3 de dezembro de 1921 (Foto: Reprodução)

Segundo Delmont, os convidados da festa ouviram gritos e gemidos vindos do quarto de Arbuckle. Delmont tentou abrir a porta para ver o que ocorria. Quando Arbuckle abriu, Delmont viu Virginia em seu quarto, nua e sangrando.
Os jornais acusaram Arbuckle de perfurar a vagina de Virginia enquanto a estuprava. O empresário da atriz, Al Semnacker, alegou que Fatty havia utilizado uma pedra de gelo para simular sexo com ela. Já outros veículos de comunicação afirmaram que não foi uma pedra de gelo, mas uma garrafa de coca-cola. As testemunhas de defesa alegaram que Arbuckle utilizou gelo na região do estômago da atriz apenas para aliviar as dores que ela sentia.

Maude Delmont, principal acusadora de Arbuckle (Foto: Reprodução)

Arbuckle buscou defender-se das acusações, sem sucesso. Em seu depoimento no tribunal, contou que encontrou Rappe vomitando no banheiro de seu quarto, ajudou a limpá-la e colocou-a em sua cama para descansar. Pensando que ela estivesse apenas intoxicada pelo excesso de álcool, saiu para continuar a festa. Quando voltou ao quarto, Virginia estava no chão. Ele recolocou-a sobre a cama e pediu ajuda aos outros convidados.

Notícia de 1921 aponta que Virginia Rappe foi vítima da festa regada a ácool promovida por Arbuckle (Foto: Reprodução) 

Maude Delmont, a principal acusadora de Arbuckle, foi impedida de depor em julgamento, pois possuía uma extensa ficha criminal que apontava, entre outros delitos, bigamia, extorsão e fraude. Tornou-se claro que Delmont encontrou nisto uma maneira de tirar dinheiro de Arbuckle, como a mesma teria afirmado em uma carta que ficou à disposição da defesa do ator.
Afinal, Arbuckle foi absolvido e processado por homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Entretanto, o ator foi impedido de retornar às telas e seus filmes foram banidos das salas de cinema. Arruinado, permaneceu por 10 anos longe da indústria cinematográfica e afundou-se no álcool. Retornou no início da década de 1930, como cineasta, porém a fama e o prestígio de outrora jamais foram restabelecidos. Faleceu em Nova York, vítima de ataque cardíaco, em junho de 1933, aos 46 anos. 


Foto de abertura: Fotomontagem/Reprodução

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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