O sucesso dos cantores judeus na Alemanha do pós-guerra

Por Rafaella Britto


Entre as décadas de 1960 e 1970, a Alemanha foi dominada pela febre dos cantores judeus nas paradas musicais de sucesso. Embora o país seja famoso por ter sido o epicentro do nazismo, durante a Segunda Guerra Mundial, nem mesmo o Holocausto destruiu os 1600 anos de influência cultural judaica na sociedade alemã.
A ascensão de Hitler, em 1933, e a consolidação da doutrina nazista desencadearam um forte anti-semitismo: os judeus, identificados pelo distintivo obrigatório da Estrela de Davi amarela, tiveram seus patrimônios depredados e foram enviados aos guetos e campos de concentração, onde muitos morriam em condições atrozes. Após a Guerra, a população judaica na Alemanha consistia em imigrantes partidos de regiões dentro e fora da Europa, sobreviventes do Holocausto, e os que deixaram a Alemanha durante os anos de chumbo e que agora retornavam ao seu país.
As relações diplomáticas entre a Alemanha e o Estado de Israel foram estabelecidas em 1956. A partir dos anos 1960, a música israelense torna-se popular nos principais meios de comunicação alemães. Cantoras como Aviva Semadar apresentavam raízes folclóricas. (1)


O sucesso meteórico da cantora iemenita Havazelet Ron durou somente de 1964 a 1965, mas foi o suficiente para lançar diversos discos de vinil, sair em turnê pela Europa e figurar nos programas de televisão e rádio da Alemanha. Havazelet deixou a indústria do entretenimento após se casar, em 1968, com um alemão. Seu filho nasceu no ano seguinte. A família mudou-se da Europa para Israel em 1980 e, em 1984, foi para Los Angeles, onde Havazelet trabalhou como professora primária. Pouco se sabe sobre sua vida. A mais recente informação divulgada por seu filho afirma que a cantora faleceu em fevereiro de 2013. (2)
Aqui vê-se Havazelet numa apresentação na TV alemã, durante os anos áureos de sua carreira:


Mas os grandes expoentes da música pop israelense na Alemanha - e no mundo - foram Esther & Abi Ofarim, intérpretes de hits que marcaram época.
Esther Zaied nasceu em Safad, distrito da província da Galiléia, próximo a Nazaré, em 13 de junho de 1941. Aos 6 anos de idade despertou o talento para o canto. Aos 13 já interpretava canções hebraicas no teatro. Aos 17 mudou-se para a cidade de Haifa, e aos 18, em 1959, começou a se apresentar no Teatro Nacional de Tel Aviv. Lá conheceu seu futuro marido, o músico e dançarino Abi Ofarim. Nesta época, Esther arrebatou os principais prêmios nos festivais Song Festival, em Tel Aviv, Spot Festival, na Polônia, e Eurovisão, em Paris.


Esther Ofarim em 1966 (Foto: Reprodução)

Abi Ofarim (nascido Abraham Reichstadt, em 5 de outubro de 1937) estudou dança, e aos 15 anos fez sua estreia nos palcos. Com 17, já era coreógrafo, e com 18, engajou-se no projeto de criação de seu próprio estúdio de dança. A paixão de Abi por Esther foi imediata: o então jovem dançarino abandonou o projeto que tinha em mente, e ofereceu-se para ser o arranjador musical de Esther. Os dois se casaram e, em 1960, formaram o famoso duo pop/folk Esther & Abi Ofarim. Suas músicas eram cantadas em alemão, hebraico e inglês. (3)


Esther & Abi Ofarim (Foto: Reprodução)

O cineasta hollywoodiano Otto Preminger, de passagem por Israel, assistiu a shows da dupla, e convidou Esther para participar de sua nova produção, o premiado filme “Exodus” (1960), estrelado por Paul Newman e Eve Marie Saint. A convite de Frank Sinatra - que também viu a dupla em Israel -, Esther participou de seis programas de TV nos EUA. Era o início de sua fama nas Américas.


(Foto: Reprodução)

Em 1964, Esther viajou em turnê ao lado dos comediantes e músicos norte-americanos Smothers Brothers. Em 1965, os Ofarims apresentaram-se em 32 cidades da Alemanha. No ano seguinte, emplacaram os sucessos “Noch Einen Tanz” e, em 1967, “Morning of My Life”, música composta pelo grupo Bee Gees.


A consagração mundial viria em 1968, com “Cinderella Rockefella”, a número 1 na Alemanha, EUA e Reino Unido. O hit foi reinterpretado por diversos artistas como Cher, Tom Jones e Carpenters. No Brasil, Os Mutantes, regidos pelo maestro Rogério Duprat, lançaram sua versão de “Cinderella Rockefella” no álbum “A Banda Tropicalista do Duprat”, de 1968. A dupla atravessou diversas mudanças de gênero ao longo da carreira.



PARA SABER MAIS

Em 2004, foi lançada uma página que lista alguns dos principais músicos judeus que foram sucesso nos anos 1960, 70, 80 e 90. Clicando nas miniaturas, é possível ter acesso a biografias, links e vídeos, em inglês e alemão: http://jewish.songs24.de/

Referências:

(1) Página de Aviva Semadar em Jewish Stars;
(2) Página de Havazelet Ron em Jewish Stars;

Foto de abertura: Commons/Wikimedia

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

2 comentários:

  1. you forgot to mention www.aviva-semadar.de

    greetings
    Conny from www.esther-ofarim.de & http://jewish.songs24.de & www.aviva-semadar.de

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    1. Thank you, Conny! I added Aviva Semadar's page to the references.

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