Beleza e enigma: o glamour discreto das escritoras brasileiras

Por Rafaella Britto


Quando se fala em literatura brasileira, nos vêm à mente nomes masculinos, como Machado de Assis, José de Alencar, Castro Alves e Lima Barreto. Não há muito tempo desde que a literatura deixou de ser considerada um ofício de homem: as mulheres, durante séculos, viveram à sombra de seus maridos, e nasciam já cientes de seus destinos de mães, esposas e servas. Jamais poderiam dar-se ao luxo de se preocupar com questões políticas ou filosóficas.
É no século 20 que a mulher começa a conquistar seu espaço na literatura brasileira. Em outras partes do mundo, isso aconteceu mais cedo: no Japão, já no início do século 11, a aristocrata Murasaki Shikibu lança “A História de Genji”, considerado o primeiro romance literário do mundo; na Inglaterra, entre os séculos 18 e início do século 20, vemos mulheres como Jane Austen, Mary Woolstonecraft e sua filha Mary Shelley, as irmãs Charlotte, Emily e Anne Brontë, Virginia Woolf, Agatha Christie, entre outras, consolidando-se no panteão da literatura universal.
Acredita-se que a primeira poetisa brasileira tenha sido Bárbara Heliodora, ativista política conhecida como a heroína da Inconfidência Mineira. Tal afirmação, porém, é controversa, pois muitos escritos atribuídos a ela não tiveram sua historicidade comprovada. Em 1853, a educadora Nísia Floresta publica o livro “Opúsculo Humanitário”, onde critica os sistemas de educação que visam transformar meninas em esposas submissas. Esta foi a primeira manifestação do pensamento feminista na literatura brasileira.
Nas décadas seguintes, escritoras como Cecília Meireles (uma das mais importantes vozes líricas em língua portuguesa de todos os tempos), Rachel de Queiroz (a primeira mulher a tornar-se membro da Academia Brasileira de Letras) e Nélida Piñon (a primeira mulher a ser presidente da Academia Brasileira de Letras) afirmam-se, através da literatura, como porta-vozes de sua geração.

Cecília Meireles (Foto: Reprodução)

As escritoras também se fizeram notáveis por sua beleza e estilo pessoal. Inspire-se no charme das damas cultas da literatura brasileira.

Pagu

A revolucionária Patrícia Galvão foi uma das mais famosas mulheres do Brasil nos anos 1920 e 30. Jornalista, poetisa, desenhista, dramaturga e diretora teatral, suas atitudes libertárias abalaram o conservadorismo vigente: em tempos em que a mulher batalhava por melhores condições de atuação na sociedade, Pagu atirou-se às letras e escreveu “Parque Industrial”, o primeiro romance proletário brasileiro. Em fins dos anos 1920, a musa do modernismo iniciou um romance proibido com o poeta Oswald Andrade – à época, casado com a pintora Tarsila do Amaral -, que veio a público quando o casal protagonizou uma polêmica fuga. Pagu encontrou-se na militância comunista, e estampou as manchetes dos principais jornais de seu tempo ao ser a primeira mulher presa por razões políticas no Brasil.
Feminista e sem papas na língua, Pagu contrariava todas as ordens estabelecidas: as mulheres tinham que ser recatadas? Pagu dizia palavrões, fumava em público, vestia saias curtas, usava batom preto e transformava ursinhos de pelúcia em bolsas. A moda eram cabelos curtíssimos? Os de Pagu eram longos e cheios. “Pagu tem os olhos moles/Olhos de não sei o quê/Se a gente está perto deles/A alma começa a doer” – escreveu o poeta Raul Bopp.

(Fotomontagem/Reprodução)

Clarice Lispector

A ucraniana Clarice Lispector partiu de sua terra natal ainda durante os primeiros dias de sua vida e fincou raízes definitivas no Brasil. Contista, ensaísta, poetisa e romancista, Clarice tornou-se célebre por obras como “Perto do Coração Selvagem”, “Laços de Família”, “A Paixão Segundo G.H.” e “A Hora da Estrela”, que a consagraram como a maior escritora judia desde Kafka, e um dos mais importantes nomes da literatura universal.
Paralelamente a sua carreira literária, Clarice, no início da década de 1940, foi uma das primeiras mulheres a exercer a carreira de jornalista no Brasil. Clarice escrevia colunas direcionadas ao público feminino, onde dava dicas de comportamento, beleza e moda. Para ela, as mulheres eram mais femininas no inverno. A autora considerava a cor preta como símbolo de “inexistência”, e já se posicionava contra os padrões de beleza: “O sofrimento da jovem africana na ceva tem seu contraponto no da modelo, de quem se costuma exigir que seja ‘cabide humano’.”
Clarice destacava-se por seu olhar enigmático e seu estilo clássico composto por peças de alfaiataria. Sua dica de beleza: “Cerque sua presença de um halo de perfume e você estará se cercando de seu próprio mistério. Você não estará mentindo, estará dizendo a verdade de um modo bonito”.

(Fotomontagem/Reprodução)

Hilda Hilst

Uma das mais importantes escritoras em língua portuguesa do século 20, Hilda Hilst estreou na literatura em 1950. Em sua obra, que abarca romances, poemas, crônicas e peças teatrais, Hilda aborda temáticas controversas, sendo considerada por alguns como uma autora “pornógrafa” e “obscena”. Influenciada pela ficção existencialista de Sartre, Camus, Kafka e Beckett, a autora busca retratar a relação entre o homem e Deus. Seus principais trabalhos são “Cantares de Perda e Predileção”, “Rútilo Nada” e “A Obscena Senhora D”.
Nos anos 1950, Hilda namorou o cantor e ator norte-americano Dean Martin. De beleza hipnótica, teve a seus pés todos os homens que desejou, mas fracassou em sua tentativa de dormir com Marlon Brando, que a trocou por um amante francês. Seu estilo pessoal de glamour discreto atraía olhares por onde passava.

(Fotomontagem/Reprodução)

Lygia Fagundes Telles

A paulistana Lygia Fagundes Telles cursou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco numa época em que a carreira de advocacia era exercida apenas por homens. Antes disso, já havia se formado em Educação Física, porém toda sua vida foi dedicada à paixão pela palavra. Em mais de 50 anos de carreira literária, Lygia arrebatou os principais prêmios da literatura em língua portuguesa, e tornou-se membro da Academia Paulista de Letras, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa.
Lygia já era feminista muitos anos antes da estruturação do movimento. Sua obra dialoga com temáticas existencialistas sob o ponto de vista de personagens femininas livres e de espírito inquieto. É mais conhecida pelos romances “Ciranda de Pedra” e “As Meninas”, e pela antologia de contos “Antes do Baile Verde”.
Quando indagada por seu amigo Mário de Andrade se preferia ser bonita ou inteligente, Lygia respondeu que preferia se fazer notar pelo que escrevia. Por influência do pai, guardou amor pela cor verde, predominante em suas composições, que iam de combinações discretas de camisas e saias aos luxuosos tailleurs Chanel. Para ela, “moda não tem importância, a beleza sim, resiste ao tempo”.

(Fotomontagem/Reprodução)

Ana Cristina César

Expoente da Geração Mimeógrafo (movimento literário alternativo que se opunha a censura imposta pelo regime militar na década de 1970), a poetisa e tradutora carioca Ana Cristina César (ou simplesmente Ana C.), tornou-se conhecida por sua poesia de caráter confessional. Ícone underground, Ana C. caminha entre verso e prosa e desconstrói narrativas cotidianas. Sua principal obra é “A Teus Pés”, publicada em 1982, um ano antes de sua trágica morte por suicídio.
Ana C. incorporava ao seu estilo pessoal elementos da moda beatnik, como boinas, listras, calças capri, tênis e óculos escuros.

(Fotomontagem/Reprodução)


Artigo originalmente publicado na minha coluna no site Universo Retrô.

Foto de abertura: Reprodução/Tumblr

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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