Yé-Yé-Yé: moda, música e existencialismo juvenil na França dos anos 60

Por Stelle de Rocio, autora convidada


O termo ‘Yé-Yé-Yé’ designa um gênero de música popular surgido na França nos anos 1960, e caracterizado por canções (chansons) de temática lírica e juvenil.
A partir do final da década de 1950, o mundo sofreu uma intensa transformação de valores morais e estéticos. A música, como expressão artística de caráter libertário, caminhou de encontro ao novo cenário, e em alguns países europeus começaram a surgir artistas interessados em produzir um som que se desvencilhasse dos costumes e que fosse exclusivamente direcionado ao público jovem. Assim surgiram bandas como The Beatles e Rolling Stones, que, alguns anos depois, aprimoraram e diversificaram sua música.

Os Rolling Stones em sua formação original com Brian Jones - Inglaterra, 1964 (Foto: Reprodução)

Édith Piaf e Charles Aznavour foram os primeiros representantes daquilo que viria a ser conhecido como música popular francesa. Suas letras, abordando temas boêmios, românticos, e com arranjos que caminhavam entre o clássico e o moderno, cativaram um público que queria mais e mais, e assim o Yé-Yé-Yé começou a surgir.

Charles Aznavour e Edith Piaf (Foto: Reprodução)

Se na Inglaterra eram os homens quem dominavam o cenário musical, na França a situação era bem diferente: as mulheres foram as principais expoentes do movimento, e poucos homens obtiveram sucesso semelhante ao delas.



Trabalho duro

Françoise Hardy e Juliette Gréco faziam parte do time de jovens mulheres que tinham um trabalho musical com características mais sérias e temáticas variadas, indo desde o amor romântico até o peso da existência. Hardy, com seu estilo minimalista e aparência de menina tímida e delicada, que escondia uma mulher de pensamento forte, foi um ícone da geração sessentista. Juliette era a musa boêmia que Paris mais amava: sua voz rouca adentrava as paredes de Montmartre e embalava os corações solitários.

Françoise Hardy e Juliette Grèco (Foto: Reprodução)

Teen music 

Divertidas, autênticas e inocentes, Gillian Hills e France Gall iniciaram ainda adolescentes na música, chamando atenção por canções aparentemente ingênuas, mas carregadas de duplo sentido. É o caso de Les Sucettes’ (em português, ‘Os Pirulitos’), uma brincadeira do compositor Serge Gainsbourg com a jovem France Gall, que somente anos mais tarde compreendeu o conteúdo erótico da canção. Gillian Hills foi uma jovem egípcia que, inicialmente, trabalhou como atriz em filmes como “Garota Existencialista” (dir. Edmond T. Gréville, 1960) e “Blow-Up” (dir. Michelangelo Antonioni, 1967), e ficou conhecida ao interpretar ‘Zou Bisou Bisou’, música chiclete sobre ‘beijinhos doces’.

France Gall e Gillian Hills (Foto: Reprodução)

As ‘sixties’

Cantoras como Annie Philippe, Sylvie Vartan e Jacqueline Taieb seguiam as tendências ditadas pela moda jovem de sua época – vestidos tubinho em cores vivas. Na música, cada uma possuía sua marca registrada: Annie apostava nos sintetizadores. Vartan era performática e cantava desde baladinhas adolescentes despreocupadas a chansons românticas. Jacqueline gostava da atitude britânica, e em músicas como ‘7 Heures Du Matin’, cantava os dramas de sua geração.

Annie Philippe, Sylvie Vartan e Jacqueline Taieb (Foto: Reprodução)

Las femmes de Gainsbourg

Jane Birkin e Brigitte Bardot eram mulheres bem diferentes: enquanto a primeira era ainda uma modelo inglesa de pouca fama, a segunda já era a mulher mais desejada de seu tempo. Serge Gainsbourg era um célebre compositor que começava a figurar nas paradas francesas. ‘Je T’aime Moi Non Plus’ é a canção mais famosa do artista, que a escreveu para ser cantada em parceria com sua então amante, Bardot, porém ela não permitiu que assim fosse e decidiu pôr fim ao relacionamento com Gainsbourg.

Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot (Foto: Reprodução)

Jane Birkin e Serge Gainsbourg se conheceram em 1968 e, no ano seguinte, lançaram ‘Je T’aime...’, a canção proibida mais escutada de todos os tempos. 1969 foi considerado ‘o ano erótico’: a dupla, formada por um compositor quarentão boêmio e uma jovem com pernas de boneca, promoveu a revolução sexual. Gainsbourg, em parceria com Birkin, foi responsável pelo mais interessante trabalho musical feito na França dos anos 1970: o álbum-conceito ‘Histoire de Melody Nelson’, uma autobiografia do casal que mais declarou seu amor sem medo da censura. Jane também lançou alguns discos solos, e permanece na música até hoje. Já Brigitte é mais conhecida por seu trabalho no cinema. Na música, além do yé-yé-yé, BB aventurou-se pela bossa nova e samba.

Jane Birkin e Serge Gainsbourg (Foto: Reprodução)


Anos finais

A partir de meados da década de 1970, o movimento começou a declinar. Muitos de seus artistas mais influentes passaram a experimentar novos estilos musicais e outros abandonaram a carreira. Porém o yé-yé-yé mantém seu legado como um dos mais importantes momentos da revolução artística dos anos 1960, e deixou sua marca na história cultural francesa, influenciando músicos da atualidade. Hoje, graças à internet, é possível encontrar facilmente os exemplos de maior destaque no gênero, e existe até uma rádio online onde se pode ouvir os cantores citados nesta matéria, e vários outros: http://www.radioyeye.com/

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

3 comentários:

  1. Vou agora entrar nessa rádio!
    Não só a música, mas o cinema francês dos anos 60 também estão bem aqui no meu coração. ♥ Juliette tem uma voz maravilhosa, super me identifico com algumas canções.

    Beijos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. França é vida, Gabi! E Juliette é deusa. ♥

      Beijos,
      Rafa

      Excluir