O traje do vaqueiro nordestino


Por Rafaella Britto -


O vaqueiro percorre as pastagens, preenchendo o espaço vazio dos sertões com seus aboios de tristeza e saudade. Sempre montado a cavalo, o cuidador do gado enfrenta diariamente o sol escaldante e a constante seca da caatinga, sem descanso, sem divagações.
Ao vaqueiro, ícone do imaginário popular do Nordeste brasileiro, é atribuído o título de herói mitológico. Mas a fama desse guerreiro romântico dos sertões não se sustenta só na sua fé e força física: o vaqueiro nordestino é também conhecido por suas habilidades com a agulha, que constituem uma indumentária rica em técnicas artesanais.

Detalhe de peça do uniforme de vaqueiro (Foto: Reprodução)

Os vaqueiros sertanejos, antes de serem homens destemidos, são exímios artesãos: o uniforme de vaqueiro, todo em cor de ferrugem, consiste em peças em couro cru de veado ou bode, confeccionadas a partir de técnicas primitivas de curtimento. Retiram-se todos os pelos do animal. A peça torna-se macia, flexível e resistente ao calor e aos perigos da caatinga.

(Foto: Reprodução)

A indumentária do vaqueiro é composta por:

  • Chapéu de couro com um barbichado (cordão) preso ao queixo, para não se perder na correria do sertão; 
  • Gibão (ou véstia), um tipo de paletó o qual o vaqueiro decora com ricos motivos e bordados; 
  • Guarda-peito ou peitoral, colete de couro usado por baixo do paletó e decorado com pespontos; 
  • Perneiras, que vão da virilha até o pé; são duas pernas soltas de calça, ajustadas ao corpo e atadas por correias de couro; 
  • Luvas, para proteger o dorso das mãos contra espinhos; a parte interna consiste em duas tiras de couro, uma prendendo o polegar e outra para o restante dos dedos;  
  • Sandálias, sendo mais comum um modelo próprio para uso cotidiano, que protege os dedos dos pés. (1)

Traje de vaqueiro confeccionado por Espedito Seleiro; chapéu e gibão de couro (Foto: Reprodução)

O mais antigo registro da indumentária do vaqueiro sertanejo data de 1816. O empresário e pintor português Henry Koster (1793 – 1820) mudou-se para o Brasil por motivos de saúde e aqui tornou-se senhor de engenho. Koster percorreu o nordeste brasileiro, e registrou suas impressões da estrutura socioeconômica do povo no livro “Viagens ao Nordeste do Brasil”, publicado primeiramente em Londres sob o título de “Travels in Brazil”. Koster assim descreve um vaqueiro que conheceu nos sertões do Rio Grande do Norte, entre Açu e Mossoró: 

"Sua roupa consistia em grandes calções ou polainas de couro taninado mas não preparado, de cor suja de ferrugem, amarrados da cinta e por baixo víamos as ceroulas de algodão onde o couro não protegia. Sobre o peito havia uma pele de cabrito, ligada por detrás com quatro tiras, e uma jaqueta, também feita de couro, a qual é geralmente atirada num dos ombros. Seu chapéu, de couro, tinha a forma muito baixa e com as abas curtas. Tinha calçados os chinelos da mesma cor e as esporas de ferro eram sustidas nos seus pés nus por umas correias que prendiam os chinelas e as esporas. Na mão direita empunhava um longo chicote e, ao lado, uma espada, metida num boldrié que lhe descia da espádua. No cinto, uma faca, e um cachimbo curto e sujo na boca. Na parte posterior da sela estava amarrado um pedaço de fazenda vermelha, enrolada em forma de manto, que habitualmente contém a rede e uma muda de roupa, isto é, uma camisa, ceroulas e, às vezes, umas calças de Nanquim. Nas boroacas* que pendiam de cada lado da sela conduzem geralmente farinha e a carne assada no outro lado, e o isqueiro de pedra (as folhas servem de mecha), fumo e outro cachimbo sobressalente. A todo este equipamento, o sertanejo junta ainda uma pistola, cujo longo cano desce pela coxa esquerda, e tudo seguro." (2)

*Ou ‘bruacas’, bolsa de couro cru usada a tiracolo.

Antigas gravuras mostrando vaqueiros (Foto: Reprodução)

Mais tarde, em 1902, Euclides da Cunha, em sua obra “Os Sertões”, descreveria a indumentária do vaqueiro das caatingas baianas: 

"O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o do guerreiro antigo exausto da refrega. As vestes são uma armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até às virilhas, articuladas em joelheiras de sola, e resguardados os pés e as mãos pelas luvas e guarda-pés de veado – é como a forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo. Esta armadura, porém, de um vermelho pardo, como se fosse de bronze flexível, não tem cintilações, não rebrilha ferida pelo sol. É fosca e poenta. Envolve ao combatente de uma batalha sem vitórias… A sela da montaria, feita por ele mesmo, imita o lombilho rio-grandense, mas é mais curta e cavada, sem os apetrechos luxuosos daquele. São acessórios uma manta de pele de bode, um couro resistente cobrindo as ancas do animal, peitorais que lhes resguardam o peito, e as joelheiras apresilhadas à juntas. Este equipamento do homem e do cavalo talha-se à feição do meio. Vestidos doutro modo não romperiam, incólumes, as caatingas e os pedregais cortantes". (3)

(Foto: Reprodução)

A estética dos vaqueiros nordestinos inspirou coleções de estilistas como João Pimenta, em seu Inverno 2010, apresentado na Casa de Criadores, e Ronaldo Fraga, em seu Outono/Inverno 2014, apresentado na São Paulo Fashion Week.

João Pimenta - Inverna 2010, Casa de Criadores (Foto: Reprodução)

Ronaldo Fraga - Outono/Inverno 2014, SPFW (Foto: Reprodução)

A MISSA DO VAQUEIRO

A Missa do Vaqueiro, evento que ocorre anualmente no terceiro domingo de julho no município de Serrita, Pernambuco, foi realizada pela primeira vez em 18 de julho de 1971, em memória do vaqueiro Raimundo Jacó, primo do músico Luiz Gonzaga.
Nascido em Exu, em 16 de julho de 1912, Raimundo Jacó ainda cedo tornou-se notável por seus feitos, que granjearam-lhe admiração, e também a inveja de muitos como Miguel Lopes, por quem foi assassinado em 8 de julho de 1954, no Sítio Lajes, em Serrita. O crime ocorreu em virtude de uma rixa pessoal entre os dois vaqueiros. Um processo foi aberto contra Miguel Lopes, mas logo foi arquivado por falta de provas. Em louvor a alma de seu primo, Luiz Gonzaga compôs uma de suas mais conhecidas canções, “A morte do vaqueiro”.
O padre João Câncio, primeiro celebrante da Missa do Vaqueiro, disse que a ideia da missa surgiu da necessidade de devolver a gente sofrida do sertão o sentido de sua dignidade humana e do “ser filho de Deus”. (4)
Em seus aboios, cantos de dolência, conformação e sofrimento, o vaqueiro destila seu lirismo poético: “Alegria de vaqueiro/É ouvir ronco de trovão,/Ver o céu ficar nublado/E a chuva cair no chão,/Botar a sela no cavalo/E ir à casa do patrão./Ê, ê, ê...”

Referências:

(1) KLÉVISSON. Lampião... Era o cavalo do tempo atrás da besta da vida – Uma saga em quadrinhos. Editora Hedra – São Paulo, 1999;
(2) KOSTER, Henry. Viagens ao nordeste do Brasil, p. 133-134. Editora Brasiliana – São Paulo, 1942 (disponível em http://www.brasiliana.com.br/obras/viagens-ao-nordeste-do-brasil);
(3) DA CUNHA, Euclides. Os Sertões, 12ª edição, p. 118-119. Editora Francisco Alves, 1993;
(4) O populário nordestino, ano I, edição número 1, p. 10. Editora Escala – São Paulo, 1999.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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