Moda e cultura política sob as lentes de Genevieve Naylor

Por Rafaella Britto


Durante a Segunda Guerra Mundial, o então presidente brasileiro, Getúlio Vargas, demonstrou simpatia pelos ideais nazi-fascistas vigentes na Alemanha e Itália. Temendo que o Brasil, base estratégica das operações navais norte-americanas no Atlântico, se aproximasse da Alemanha de Hitler, o governo do presidente Franklin Delano Roosevelt decidiu ir por um caminho oposto ao das armas: o do american way of life. Era a chamada política da Boa Vizinhança, promovida pelo Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), órgão do Departamento de Estado dos EUA dirigido pelo multimilionário Nelson Rockefeller.
A política da Boa Vizinhança, no intuito de garantir a solidariedade latina à causa liberal dos EUA, criou ampla reserva de mercado para produtos norte-americanos na América do Sul. A Coca-Cola, o jazz, o foxtrote, a moda e os romances hollywoodianos contribuíram significativamente para a ocidentalização do modo de viver latino. A aproximação entre América do Sul e EUA projetou internacionalmente figuras como Carmen Miranda (conhecida como a “musa da Boa Vizinhança”), e promoveu a valorização do samba, belezas naturais, exotismo e multiplicidade étnica do povo latino. Fred Astaire e Ginger Rogers dançavam rumba em filmes supostamente ambientados no Rio; o tango de Carlos Gardel e a sensualidade de atrizes mexicanas como Lupe Vélez e Dolores del Río fascinavam os americanos.
Visando promover a imagem do Brasil como um “bom vizinho” que compartilhava dos mesmos valores morais das democracias liberais, o OCIAA enviou ao Rio de Janeiro, em 1940, a fotógrafa americana Genevieve Naylor, à época, com 25 anos. Naylor foi incumbida de registrar o glamour da elite carioca e o cotidiano do povo brasileiro. Percebendo as relações étnico-raciais no Brasil, a fotógrafa documentou a cultura afro-brasileira nos anos 1940, criando uma ponte cultural entre os dois países, Brasil e EUA.


Carnaval carioca, 1942 (Foto: Genevieve Naylor/Coleção Peter Reznikoff)

Genevieve Naylor nasceu em Springfield, Massachussets, em 2 de fevereiro de 1915. Descendente de John Hay, secretário pessoal de Abraham Lincoln, foi educada aos modos liberais americanos. Aos 16 anos, estudou desenho e pintura, e apaixonou-se pelo seu professor, o pintor russo-ucraniano Misha Reznikoff, que chegara aos EUA nos anos 1920, fugido da Revolução Bolchevique. Da união com Reznikoff – que durou toda a vida – nasceram os filhos Peter e Michael Reznikoff. Vivendo em Greenwich Village, bairro boêmio de Nova York, o casal travou contato com a vanguarda da arte moderna e com os ideais igualitários e antissegregacionistas. Nesta época, Naylor formou-se no New York School of Social Research, centro de estudos que recebeu artistas e intelectuais de esquerda, em sua maioria, imigrantes alemães. A jovem artista iniciou suas incursões pela fotografia em 1937, aos 22 anos, contratada pelo Work Progress Administration (WPA) para documentar a vida no bairro negro do Harlem.


Documento do Departamento de Imprensa e Propaganda autorizando Genevieve Naylor a fotografar no Brasil (Foto: Editora Ermakoff/Divulgação)

Ao ser enviada ao Rio de Janeiro como funcionária do Departamento de Estado dos EUA, o marido acompanhou-a. Misha e Naylor viveram no Leme, bairro nobre carioca, localizado na Avenida Atlântica. Percorreram São Paulo e cidades históricas de Minas Gerais, e desceram o rio São Francisco, registrando o cotidiano da população ribeirinha assolada pela seca.


Mãe e filha - Rio de Janeiro, 1941 (Foto: Genevieve Naylor/Coleção Peter Reznikoff)

Naylor conquistou o prestígio da intelectualidade e da nata artística brasileira. O poeta Vinícius de Moraes identificou-a como personagem de histórias de Robin-Hood: “Genevieve parece ter saído de uma história de Robin-Hood, com seu arzinho de jovem pajem, sua elegância bem colorida, uma pena sempre atrevidamente espetada no chapéu. Nada escapa, no entanto, à maquinazinha dessa enfeitiçada. Perto dela não há momento fotográfico que passe sem cair naquela arapuca bem armada. Genevieve dá um pulinho - e a vida ali ficou batendo asa na sua chapa impressionada.”

Praia de Copacabana - Rio de Janeiro, 1941 (Foto: Genevieve Naylor/Coleção Reznikoff)

Já o cronista Aníbal Machado louvou as qualidades técnicas e o interesse da fotógrafa da Boa Vizinhança pelo social: “Via-a saindo pela madrugada ou à noite, indiferente às intempéries, obstinada na realização de seu trabalho [...] Mais que a excelência técnica, o que é preciso louvar nos trabalhos de Miss Genevieve é o sentido sociológico com que ela utilizou a objetiva, revelando um espírito corajoso e sincero, e, não raras vezes, comovido diante da realidade brasileira [...] Os assuntos populares, humildes, os tais elementos essenciais que compõem a fisionomia do nosso povo são captados pela fotógrafa da Boa Vizinhança. Mas sua maneira de fixar a realidade nada tem de monumental. Nada de cachoeiras, de edifícios monumentais, de paisagens idílicas. Sua visão poético-sarcástica por vezes evoca a arte sul-realista. Um país - O Brasil - captado então na sua força real: assim, no carnaval, a alegria é antes uma vibração convulsiva da tristeza que procura atordoar-se... como se estivesse procurando o resumo etnográfico. Importante o olhar, a percepção das imagens simples, que permite a recuperação dos tempos históricos acomodados no cotidiano, mas que resgata a vida de cada um em sua profundidade e intensidade. Não raro surge uma imagem agônica, áspera porém silenciosa, sempre densa.”


Praia de Copacabana - Rio de Janeiro, 1941 (Foto: Genevieve Naylor/Coleção Peter Reznikoff)

Os dois anos da estada de Genevieve Naylor no Brasil resultaram em mais de 1300 fotografias. Seus registros da sociedade brasileira foram aclamados pelos norte-americanos, e Naylor foi a primeira mulher a ter uma exposição individual no Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York.


Carnaval carioca, 1941 (Foto: Genevieve Naylor/Coleção Peter Reznikoff)

Naylor não obteve sucesso somente como fotojornalista: multifacetada, a talentosa artista enveredou pela fotografia de moda e destilou a riqueza de seu olhar nas páginas das edições americanas das revistas Vogue e Harper’s Bazaar, captando o requinte e elegância do pós-guerra (clique para ampliar).   

















































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Genevieve Naylor faleceu em 21 de julho de 1989, aos 74 anos. Somente em 2013 foi lançada no Brasil a primeira publicação inteiramente dedicada à sua obra: o livro “Genevieve Naylor: uma fotógrafa norte-americana no Brasil”, editado pelo colecionador George Ermakoff, reúne mais de 200 imagens, cujos direitos pertencem ao filho mais velho da fotógrafa, Peter Reznikoff.  


Referências:

MARIA MAUAD, Ana. Fotografia e cultura política nos tempos da política da Boa Vizinhança. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material (disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142014000100133&lng=pt&nrm=iso&tlng=en)  

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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