Moda das novelas: “Pigmalião 70” (1970)


Por Rafaella Britto -


Nunca uma novela lançou moda como “Pigmalião 70”: a trama de Vicente Sesso, exibida de março a outubro de 1970 no horário das 19h, inaugurou o gênero comédia romântica nas novelas da TV Globo, e transformou Tônia Carrero no primeiro ícone fashion da televisão brasileira.

Sérgio Cardoso e Tônia Carrero em "Pigmalião 70" (Foto: Acervo de Orias Elias/Astros em Revista)

Dirigida por Régis Cardoso, a novela foi uma livre adaptação da peça de George Bernard Shaw “Pigmalião” (que também inspirou “My Fair Lady”, com Audrey Hepburn). Na trama original, um culto professor de fonética decide transformar uma pobre florista numa dama da alta-sociedade.
A comédia romântica da TV Globo deu ao enredo de Shaw uma roupagem supermoderna (daí porque foi acrescentado o número 70, uma referência ao ano em que a novela foi exibida). Os papéis foram invertidos, e é a mulher quem transforma o homem: Nando (Sérgio Cardoso), um feirante, tem sua vida completamente mudada quando conhece Cristina (Tônia Carrero), uma rica viúva, dona de um salão de beleza, que decide ensiná-lo tudo sobre como se comportar como um homem da alta-sociedade. Cristina, a princípio, quer apenas vencer uma aposta, mas acaba se apaixonando por Nando, que está noivo de Candinha (Susana Vieira), uma mocinha simples que sonha em ser modelo.


A rica viúva Cristina (Tônia Carreiro) decide transformar o feirante Nando (Sérgio Cardoso) num homem da alta-sociedade (Foto: Divulgação/Globo)

Nando toma um verdadeiro banho de loja e, aos poucos, troca as camisas abertas, regatas sujas e coletes de couro por ternos sóbrios (*).


Nando (Sérgio Cardoso) e Cristina (Tônia Carrero) (Foto: Reprodução)

Mas foi Tônia Carrero quem ditou moda: os figurinos de Carlos Gil e José Gayegos transformaram a atriz numa dama boêmia – visual que, até então, era considerado “marginalizado”. Sua personagem popularizou as calças boca-de-sino, colares artesanais, lenços e batas estampadas no estilo hippie.


O estilo boho de Cristina (Tônia Carrero) em "Pigmalião 70" (Foto: Novelas Clássicas)

O cabelo de Cristina, cortado em camadas (curto na frente e longo atrás), recebeu o nome de corte “Pigmalião”, e desencadeou uma verdadeira febre entre as mulheres no início dos anos 1970. “Tônia Carrero foi a primeira sex symbol e a primeira mulher que lançou moda na televisão brasileira. Com o corte Pigmalião 70, os cabeleireiros se fartaram de ganhar dinheiro”, disse Susana Vieira ao Memória Globo. O corte (conhecido nos EUA como ‘mullet’) foi, mais tarde, apelidado de “Pantera”, em referência à atriz Farrah Fawcett, estrela do seriado “As Panteras”.


Tônia Carrero lançou moda: o corte de cabelo em camadas foi apelidado de "corte Pigmalião" em referência à sua personagem (Foto: Divulgação/Globo) 

Era comum que atores vestissem suas próprias roupas em novelas urbanas. “Pigmalião” foi uma das primeiras produções cujos figurinos foram inteiramente pensados por profissionais da moda. O figurinista Carlos Gil deixaria sua marca, ainda, em outras novelas de sucesso, como “O Primeiro Amor” e “Uma Rosa com Amor” (ambas de 1972). 


Betty Faria como Sandra em "Pigmalião 70". Por sua interpretação, a atriz venceu o Troféu Helena Silveira de Melhor Atriz Coadjuvante (Foto: Novelas Clássicas)

Somente em 1973 o governo brasileiro liberaria a importação do videotape. Não há, portanto, registros de produções televisivas anteriores a este período. De “Pigmalião” restou somente a lembrança da novela fashion que marcou época.

O estilo boho de Cristina (Tônia Carrero) em 'Pigmalião 70' (Fotos: Reprodução)

O estilo boho de Cristina (Tônia Carrero) em 'Pigmalião 70' (Fotos: Reprodução)

O estilo boho de Cristina (Tônia Carrero) em 'Pigmalião 70' (Fotos: Reprodução)

Referências:

(*) ARRUDA, Lilian. Entre tramas, rendas e fuxicos: o figurino na teledramaturgia da TV Globo. Memória Globo – Rio de Janeiro, 2007.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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