Marilyn Monroe: a mulher que morreu cedo demais

Por Gloria Steinem*


Matinê de sábado — não interessa quão mal realizados ou inacreditáveis os enredos, eles representavam uma fuga do bairro em que eu vivia e de todas as minhas dores adolescentes. Seriados que jamais terminavam, Doris Day — que nunca voltava atrás —, programas de turismo pouco sofisticados, filmes de ficção científica nos quais se podia ver o zíper nas fantasias dos monstros: eu os adorava todos, eu acreditava em tudo o que via e jamais sonhava em deixar o cinema antes da tela estar completamente vazia.
Mas eu deixei Marilyn Monroe na tela uma vez. Lembro-me dela, lá, enorme como uma colossal boneca, afetada, sussurrante e, simplesmente, totalmente vulnerável. Olhando-a, eu senti raiva, e até mesmo humilhação, embora não tenha compreendido por quê.
Afinal de contas, Jane Russell estava no mesmo filme (uma versão de mau gosto de Gentlemen Prefer Blondes), portanto não se tratava apenas da vulnerabilidade que as duas mulheres bem avantajadas pareciam compartilhar. (Se as espectadoras preferem atrizes menores e menos exuberantes — como as Audrey Hepburns do mundo —, não é porque invejamos os dotes físicos das outras, como acreditam os homens. É simplesmente porque preferimos nos identificar com mulheres com as quais não precisemos nos preocupar, mulheres que não pareçam estar em perigo constante.) Comparada a Marilyn, Jane Russell parecia ter seu corpo sob controle, até mesmo durante as situações mais absurdas exibidas neste filme.
Talvez fosse a insegurança, visível nos olhos daquela enorme, louríssima criança-mulher. Era a terrível necessidade de aprovação que a diferenciava de Jane Russell. Que ousadia a dela, expor a carência que tantas mulheres sentem mas tentam de todas as formas ocultar! Que ousadia a dela, uma estrela de cinema, demonstrar uma insegurança daquelas!
Assim, eu não gostava dela e sempre evitava assistir aos seus filmes. Se fizessem piadas a seu respeito, se ridicularizassem seu nome e sua imagem, logo me juntava aos insultos. Eu contribuía nas risadas, no ridículo, nos insultos, provando assim ser nada como ela. Nada mesmo.
Deixei meu bairro anos depois, assim como ela escapara de uma vida tão pior, sublinhada pela falta de amor, por abusos sofridos na infância e por lares adotivos. Não escapei, como ela, através de calendários com fotos nuas e pequenas participações em filmes. (Mesmo que existissem tais possibilidades para meninas bonitinhas em Toledo, Óhio, eu jamais teria tido coragem de demonstrar tal vulnerabilidade.)

(Foto: Reprodução)

Eu era americana o bastante para sonhar em ingressar no show business. Os garotos do meu bairro sonhavam em escapar de uma vida de trabalho nas fábricas através dos esportes. As meninas, as que imaginavam algo além de um bom casamento, sempre sonhavam em entrar para o mundo do show business. Mas depois de fazer parte do circuito de show business de Toledo, como bailarina, durante o segundo grau, até eu fui capaz de perceber que havia poucas esperanças de que eu seguisse tal carreira. No final, foi a sorte, uma mãe que sempre me apoiou e uma certa facilidade com as palavras que me libertou. Esta mesma facilidade fez com que eu demonstrasse uma competência maior do que na verdade tinha nos exames de admissão para a faculdade, para os quais estava completamente despreparada.
Mas as meninas que passam de raspão em exames de admissão para as faculdades não são mais seguras do que aquelas que, como Marilyn, apresentam-se diante de jurados de concursos de beleza.
Na próxima vez que a vi, eu era uma respeitável aluna, assistindo aos celebrados atores do Actors Studio encenarem duas peças de teatro de altíssimo nível (naquele dia, apresentaram Arthur Miller e Eugene O'Neill). Ela também era aluna, pupila de Lee Strasberg, líder do Actors Studio e guru americano do método Stanilavski, mas o status de estrela de cinema e de símbolo sexual fazia com que ela não fosse levada a sério, até mesmo naquela época. Deixavam que ela assistisse, mas não deixavam que encenasse com os colegas.
Então nós duas ficávamos ali, sentadas, ambas pasmas, creio eu, na presença de gente do teatro como Ben Gazarra e Rip Tom, ambas inseguras diante do mundo masculino da Alta Cultura, ambas querendo sumir.
Lembro de ter achado que Strasberg e seus atores sentiam imenso prazer em ignorar esta poderosa estrela de cinema que viera até eles para aprender. O modo com que a cumprimentavam era de uma informalidade completamente estudada, os cochichos a respeito de sua presença me pareciam um tanto inseguros e condescendentes demais. Embora ela permanecesse no fundo da sala, com os cabelos louros escondidos num lenço negro e o corpo num imenso suéter da mesma cor e calças compridas, ela aos poucos foi se tornando uma verdadeira presença, talvez porque os outros se esforçassem tanto para não encarar, para ignorá-la, para demonstrarem-se impassíveis.
Ao sairmos daquela sala miserável, em fila indiana, ao final da apresentação, Marilyn ouvia, atenta ao post-mortem profissional de gente como Ben Gazarra e outros que caminhavam diante de nós enquanto ela passava os dedos nervosamente num rosto que era luminoso até mesmo sem maquiagem; parecia querer se esconder, parecia querer se desculpar por estar ali. E de repente fiquei feliz por ela não ter participado, por não ter se sujeitado às críticas deste grupo de urubus. (Talvez a minha tenha sido uma reação de leiga, mas o fato é que eu não me sentira à vontade vendo Strasberg encorajar uma cena de amor, muito íntima, entre um ator e uma atriz para em seguida estraçalhá-los com humilhante autoridade.)
Invocando toda a confiança que me foi possível, eu perguntei àquela mulher loura, que caminhava à minha frente, se ela podia se ver atuando diante deste grupo.
— De modo algum — Marilyn disse, numa voz infantil que era bem menos sussurrante do que no cinema. — Admiro este pessoal demais. Simplesmente não sou boa o bastante para eles. — Após alguns segundos de silêncio, ela acrescentou: — Lee Strasberg é um gênio, sabe? Minha intenção é fazer tudo o que ele me mandar fazer.

(Foto: Reprodução)

Eu achava seu casamento com Arthur Miller perfeitamente compreensível, acredito que outras mulheres achavam o mesmo. Mesmo aquelas que se sentiram ameaçadas, quando Miller dispensou uma mulher de meia-idade para casar-se com uma mulher mais jovem e mais giamourosa, compreendiam. Se você não consegue que seu trabalho seja levado a sério, se possui um complexo de inferioridade intelectual e emocional, então case-se com um homem que é objeto da seriedade que lhe foi negada. É uma opção feminina tradicional — bem mais aceitável do que tentar atingir uma identidade sozinha.
E claro que Marilyn não passou a ser encarada com mais seriedade e não passou a ser vista como uma intelectual. Mulheres não são encaradas com seriedade por associação sexual, da mesma forma que não o são por seu trabalho árduo. (A não ser que o homem sério morra e nos condenemos a ser as guardiãs da chama para sempre. Como já disse Margaret Mead, as viúvas são praticamente as únicas mulheres honradas com a autoridade.) Até mesmo a valente recusa de Marilyn em se deixar intimidar por ameaças de que jamais voltaria a trabalhar no cinema caso se casasse com Miller — que era chamado de "subversivo" na época, sendo inclusive convocado a testemunhar diante da Comissão de Atividades Não-Americanas — foi encarada como um ato de bravura menor do que a recusa de Miller em se apresentar diante da Comissão. Na verdade, o ato de bravura de Marilyn quase não foi noticiado.
Talvez nem ela levasse sua própria bravura a sério. Ela poderia estar abrindo mão de seu ganha-pão, de um trabalho que significava tanto para ela, mas ela teria aberto mão disto tudo para se casar.
Como a Sra. Arthur Miller, ela se retirou para uma fazenda de Connecticut e tentou limitar sua vida aos hábitos solitários do marido, ao trabalho dele, aos amigos dele, aos dois filhos dele. Ela só deixou sua aposentadoria auto-imposta para atuar no filme The Misfits, escrito por seu marido, quando ambos precisaram de dinheiro.
Por outro lado, a interpretação do público foi um tanto diferente. Ela não passava de uma atriz egocêntrica que forçara um dos maiores dramaturgos americanos a escrever um roteiro sob medida para seus limitados dotes de atriz. Era isto que noticiavam as colunas de fofoca nos Estados Unidos e na Europa. Mas as atitudes da própria Marilyn desmentiam tais fofocas. Em seus dois casamentos anteriores, com o operário de uma fábrica de aviões, aos dezesseis anos e mais tarde com Joe DiMaggio, um grande jogador de beisebol, ela rompera com o mundo e colocara todas as suas energias em ser uma boa dona de casa. Quando isto não funcionou, ela se culpou, e não o papel em si, acrescentando mais um fracasso à sua lista de inseguranças. "Eu tenho fantasias demais para ser dona de casa", ela disse a uma amiga, com tristeza. E finalmente, a um entrevistador, ela disse: "É, eu acho que eu sou uma fantasia."
The Misfits pareceu revelar algumas das facetas da verdadeira Marilyn: sinceridade, inocência, uma fé imensa que sobreviveu a inúmeras experiências ruins, uma grande gentileza em relação a outras mulheres, um grande respeito pela vida das plantas e dos animais.
Pela primeira vez, ela não apareceu apenas como símbolo sexual e vítima e eu não senti vergonha de assisti-la para poder constatar que ela sabia atuar. Comecei a ver seus filmes mais antigos, aqueles poucos nos quais, ao contrário de Gentlemen Prefer Blondes, ela não foi contratada para atuar como transformista.

(Foto: Reprodução)

Para mim, assim como para tantas pessoas, ela era uma presença no mundo, uma força vital.
Através dos anos, fui descobrindo outras dicas de seu verdadeiro caráter. Quando Ella Fitzgerald, uma artista negra e talvez a maior cantora de música popular, não fora aceita para cantar numa importante casa noturna de Los Angeles, nos anos cinqüenta, Marilyn telefonou para o proprietário e prometeu sentar-se numa mesa da primeira fila todas as noites se ele deixasse Ella cantar. O proprietário contratou Ella, Marilyn manteve-se fiel à sua promessa, a imprensa foi à loucura e, como Ella recordou, grata: "Depois disso, eu nunca mais precisei cantar numa casa pequena."
Ainda mais comovente foi a última entrevista concedida por Marilyn. Ela implorou ao repórter que a finalizasse com: "O que realmente quero dizer é que o mundo precisa encontrar uma maior afinidade entre os seus povos. Todos: estrelas de cinema, trabalhadores, negros, judeus, árabes. Todos nós somos irmãos... Por favor, não me transforme numa piada. Termine esta entrevista com aquilo no qual eu realmente acredito."
E, então, ela se foi. Eu me lembro de quando me contaram. Eu estava em meio a uma caótica reunião estudantil, na Europa, quando me disseram que ela estava morta. Eu me lembro do momento exato, naquele 5 de outubro de 1962. Lembro das pessoas à minha volta, lembro da sala onde eu estava. Depois disso descobri que muitas pessoas se lembram, como eu, daquele momento. É um fenômeno normalmente reservado para a morte de parentes e de presidentes.
Ela era uma atriz, uma pessoa que não afetaria o destino de ninguém, e no entanto a sua energia e a sua incrível sinceridade perante a vida a ligou tanto a estranhos. Dias após a descoberta de seu corpo, oito mulheres jovens e lindas tiraram a própria vida em incidentes claramente parecidos com o de Marilyn. Algumas delas deixaram bilhetes, de forma a deixar a ligação bem clara.
Dois anos depois, a peça autobiográfica de Arthur Miller, Afim the Fali, trouxe Marilyn de volta à vida. Mas de alguma forma esta Maggie não parecia a mesma pessoa. Ela possuía a insegurança patética de Marilyn, a mesma necessidade de usar sua persona sexual para ser reconhecida e para se sentir viva. Mas, talvez naturalmente, a peça fosse sobre o sofrimento de Miller, não o de Marilyn. Ele pareceu incluir na peça alguns de seus próprios atos destrutivos. (Ele mantivera um diário a respeito de sua esposa, a respeito da estrela de cinema, por exemplo. A descoberta do diário foi, emocionalmente, um duro golpe para Marilyn e o começo do fim do casamento. Fez com que ela se perguntasse se seu marido a estava usando, como tantos homens a usaram, só que de uma forma mais intelectual.) Não obstante, a mensagem da peça era basicamente a visão de Miller de suas tentativas de apoiar uma criatura com infindáveis inseguranças; uma pessoa condenada, muito além do apoio que ele podia lhe proporcionar, por uma misteriosa falta de confiança.
Para as mulheres, esta falta de confiança era menos misteriosa. Diana Trilling, que jamais a conhecera pessoalmente, escreveu um artigo logo após a sua morte que, segundo alguns dos amigos de Marilyn, era um retrato mais fiel do que o de Miller. Ela falava do "escárnio público do desejo de Marilyn em se instruir"; da consciência sexual que veio de fora para dentro, da reação masculina, "deixando nela um enorme vazio quando uma verdadeira sexualidade teria lhe dado uma noção de si própria, com coerência, com conteúdo". Ela questionou se Marilyn realmente quisera morrer ou se apenas desejara dormir, perder a consciência, naquela noite de sábado.


(Foto: George Barris)

Trilling também registrou uma identificação com a solidão de Marilyn, sentida por tantos e tantos desconhecidos ("especialmente em mulheres protetoras, às quais aquela vulnerabilidade toda atingia em cheio"). Tanto é verdade que nós fantasiávamos uma maneira de salvá-la, se ao menos tivéssemos estado presentes. "Mas nós éramos os amigos", escreveu Trilling, "dos quais ela jamais soube."
"Ela era uma mulher incomum, um pouco à frente de seu tempo", disse Ella Fitzgerald. "E ela nem sequer sabia disso."
Agora que a visão das mulheres em relação à própria imagem está mudando, pensamos mais uma vez na vida de Marilyn Monroe. Será que esta confiança recém-adquirida pelas mulheres, com ou sem a aprovação masculina, teria ajudado esta talentosa mulher de 36 anos de idade a se firmar sozinha? A resistir à insegurança e ao escárnio? A deixar de depender de seus atrativos sexuais como a única forma de se sentir viva — e assim enfrentar o envelhecimento corajosamente? Como a habilidade de gerar um filho lhe foi negada, será que estas novas idéias a teriam ajudado a descobrir que ser mulher inclui muito mais? Será que ela teria desafiado os analistas freudianos aos quais recorria em momentos de sofrimento?
Acima de tudo, nos perguntamos se o apoio e a amizade de outras mulheres a teriam ajudado. Suas primeiras experiências com o sexo masculino não foram boas. Ela era filha ilegítima de um homem que se recusou a contribuir até mesmo para o seu enxoval de bebê; as recordações mais antigas da mãe de Marilyn de seu próprio pai, avô de Marilyn, era dele atirando um gatinho numa lareira durante um acesso de fúria. A própria Marilyn disse ter sido atacada sexualmente por um pai adotivo quando ainda era criança e que se casou aos dezesseis anos porque outra família adotiva já não podia criá-la. E no entanto ela se via forçada a depender da boa vontade e do reconhecimento masculinos para se sentir segura. Dependia deles até mesmo para ser interpretada através da palavra, por medo de que a competição sexual fizesse com que entrevistadoras mulheres a odiassem. Mesmo se quisessem, as mulheres presentes em sua vida não tinham o poder de ajudá-la. Em filmes, em fotos e livros, depois de sua morte e mesmo antes, ela era sempre fora vista por olhos masculinos.
Chegamos tarde demais. Não podemos saber se poderíamos ter ajudado Norma Jean Baker, ou a Marilyn Monroe na qual se transformou. Mas não é tarde demais para fazer o que ela nos pediu. Finalmente, podemos levá-la a sério.



Gloria Steinem em Memórias da Transgressão: momentos da história da mulher no século XX (Outrageous Acts And Everyday Rebellions), p. 299. Editora Rosa dos Tempos – Rio de Janeiro, 1995. Tradução de Claudia Costa Guimarães.


*Gloria Steinem é uma jornalista, escritora, ativista social e palestrante americana, célebre por seu engajamento no movimento feminista da década de 1960. É fundadora das revistas New York e Ms., e autora de inúmeros livros, dentre eles, "Memórias da Transgressão: momentos da história da mulher no século XX" (1983), coletânea de artigos publicados ao longo de 20 anos de carreira, e "A Revolução Interior – Um Livro de Autoestima" (1992), uma de suas obras mais aclamadas nos Estados Unidos.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

2 comentários:

  1. Gostei do texto! Mas pra mim, apesar de todas as inseguranças, Marilyn sempre será uma grande mulher.

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  2. Não gostei do jeito que foi falado da Marilyn. "Insegurança patética"? Marilyn mesmo insegura foi foi muito melhor que 99% das mulheres de hj em dia (melhor que a autora do texto) e tb da época dela. Inigualável. Não gostei. Pareceu que tentou diminuir a maior estrela de todos os tempos. Linda, sexy, meiga e amoo o jeito suave e delicado que ela falava "sussurrando" . A vida triste que ela teve não diminui a grande pessoa que ela foi, pelo contrário!

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