Coco Chanel: em uma época de extravagância ela ousou ser original


Por Jacielma Reis -



 A moda, durante alguns séculos, esteve muito mais ligada à ostentação do que ao conforto. Mas, por baixo dos lindos e caros vestidos, estavam os corpetes que apertavam, incomodavam e prendiam os movimentos. Segundo Lipovestsky (1987) a roupa funcional e liberdade de movimentos eram atributos do vestuário masculino, enquanto a rigidez e a suntuosidade da roupa feminina serviam antes de tudo para exprimir a riqueza do marido. O vestuário feminino significava então, status para ambos. Assim, a entrada do século XIX para o XX foi carregado de mudanças na vestimenta feminina e assim criando adeptos ou não, no decorrer dos séculos. Essas mudanças na indumentária não foram mérito apenas dos estilistas da época, mas foram impulsionadas também por questões econômicas, como as duas guerras mundiais que aconteceram na Europa no século XX.

A moda Eduardiana seguia as tendências ditadas pelo costureiro francês Paul Poiret (Foto: Reprodução)

 Segundo a historiadora Erika Palomino (2003, p.17):

Entretanto, a grande responsável pela mudança é mesmo a Primeira Guerra Mundial, quando a mulher assume novos papeis, na batalha do dia a dia. Se liberta do espartilho e começa a usar roupas mais práticas. Com o fim da Guerra, os tempos ficam mais leves, e o divertimento dará o tom da década seguinte.

 A exibição do luxo, o gosto pela ornamentação sofisticada, a suntuosidade tradicional do vestuário presente nas peças de Paul Poiret tornou-se signo de mau gosto. A Europa estava em guerra e a verdadeira elegância estava sem luxo, sem aparatos, praticamente uma moda “democrática”.

A moda "democrática" da Primeira Guerra Mundial (Foto: Reprodução)

 Segundo Lipovestsky:

Nos antípodas da ênfase aristocrática, o estilo moderno democrático vai encarnar-se em linhas depuradas e versáteis, em “uniforme” ostensivamente discretos. Se a primeira revolução instituir a aparência feminina moderna reside na supressão do espartilho por Poiret em 1909-1910, a segunda, sem duvida mais radical, situa-se nos anos de 1920 sob o impulso de Chanel e Patou. (2009, p.86)

 A cada década a moda representa o momento em que as pessoas estão vivendo. Conforme Boudieu (2008) cada geração está dominada por um costureiro (Chanel, Pairot, Dior, Courréges, etc.), aqueles que marcam época ao introduzir na História da moda, um novo estilo. Pierre Boudieu também desenvolveu suas idéias em torno dos conflitos internos pelo poder na Alta - Costura, e observa-se que neste campo os dominantes são aqueles que exercem o poder de construir o valor dos objetos pela sua raridade ou escassez, em outras palavras aqueles cuja marca tem maior preço, pois muitas vezes o produto é vendido não pelo valor em si, mais por quem o produziu.

Modelos posam com criações de Jean Patou, costureiro francês que, ao lado de Chanel, criou a moderna moda feminina (Foto: Reprodução)

 Para falarmos de Chanel temos que tentar ao menos entender a sua história e a razão pela qual seu estilo é ponto de referencia até hoje. Gabrielle Bonheur Chanel foi uma estilista francesa fundadora da famosa marca Chanel. Ícone da moda, Gabrielle ditou moda durante o século XIX e inicio do século XX. Chanel foi diferente em todos os aspectos, tanto no modo pensar, quanto no seu modo de agir. Estilistas renomados, talentosos e excêntricos, trazem seu estilo para a moda nos dias de hoje.

Coco Chanel, "a mulher do século 20" (Foto: Reprodução)

 Durante um pequeno período de sua vida foi cantora de cabarés, freqüentado por homens da alta sociedade Parisiense, foi nesse período que ficou conhecida como “Coco” em referencia a uma das únicas músicas que sabia razoavelmente cantar. Chanel nunca foi uma mulher frágil. Podemos perceber isso pela sua trajetória de vida: órfã ao seis anos, foi deixada em um abrigo para crianças com disciplinas rígidas e doutrinas católicas. Mesmo vivendo em um convento ela sempre foi uma mulher com comportamentos rebeldes. Sobre a sua criação Chanel dizia: "Tenho sido ingrata com minhas detestáveis tias, afinal devo a elas tudo que tenho. Uma criança revoltada acaba se tornando uma pessoa com couraça e força."

Uma rara fotografia de Coco Chanel na juventude (Foto: Reprodução)

 Ela revolucionou em uma época na qual quem ditava moda era um determinado grupo de homens. Ela incorporou ao guarda-roupa feminino roupas no estilo masculino, oferecendo mais conforto as mulheres e batendo de frente com o seleto grupo de homens.

Nos início dos 20, Chanel incorpora roupas do guarda-roupa masculino ao estilo feminino (Foto: Reprodução)

 Não é preciso dizer o quanto esta mulher progressista e irreverente causou desconforto e confusão para quem não acompanhava o seu arrojo. Mas ela não se deixou abalar, sabia o que queria e chegou lá. Suas roupas simples e de cores sóbrias como o bege, o chumbo e o preto chamaram atenção das mulheres da época, sendo responsável por uma verdadeira “revolução” na moda.

Coco Chanel (Foto: Reprodução)

 Mais do que uma estilista, Chanel foi responsável por introduzir modificações à moda. Em uma época de extravagância e desconforto, em que as mulheres usavam faixas e cintas dos corpetes apertados, saias amplas, muitos babados e franzidos, ela introduziu o vestido preto simples, que até hoje é considerado símbolo de sua elegância, e outras peças como a jaqueta de corte reto, calça boca de sino e roupas no estilo militar. A definição de moda para a estilista francesa era: “A moda não existe apenas nos vestidos; a moda está no ar, é o vento que a traz, nós a respiramos, a pressentimos, ela está no céu e no chão, está ligada ás idéias, aos acontecimentos” (Coco Chanel apud Chales-Roux, 2007, p.383).

Chanel trabalhando em seu ateliê, em Paris (Foto: Reprodução)

 Chanel também revolucionou quando indica uma liberalização no corte dos cabelos e nos comprimentos das saias. Assim, as roupas não estavam com um aspecto de luxo, a praticidade tomou conta da moda. Calanca (2008) fala que o encurtamento das saias e dos vestidos remetem ao momento de emancipação feminina. É interessante pensar que foi através das roupas que as mulheres efetivamente começaram a mudar sua postura, ou seja, elas usaram do poder simbólico da roupa para se impor diante da sociedade.

Fumar em público foi uma das atitudes que tornaram Chanel uma mulher à frente de seu tempo (Foto: Roger Viollet/Getty)

 A estilista tornou-se símbolo de uma revolução nos costumes e na postura da mulher no cenário social. Adquiriu a elegância e a simplicidade como formas de sobrevivência. Entretanto, é bom salientar, que apesar de Chanel proporcionar conforto as mulheres, sua ambição pela elegância, “o chique” foi motivos de criticas de historiadores como Roland Barthes.

Críticos de Coco Chanel, como Roland Barthes, questionam a autoridade da estilista (Foto: Reprodução) 

 O autor Roland Barthes contrapõe a autoridade e o prestigio concebido a Chanel, pelo fato dela, em sua opinião, destacar-se não por surpreender, mas pelo prazer de agradar. Segundo ele, “Chanel e suas criações contestam a própria ideia de moda, pois esta tal a concebemos baseia-se num sentimento vidente do tempo.” A cada ano, a moda destrói o que acaba de adorar, adora o que acaba de destruir. Chanel ao contrário disso, trabalhava sempre o mesmo modelo, acreditando numa espécie de beleza eterna da mulher. Para a estilista o que importa é o chique, a elegância e a simplicidade.



Sobre a autora:

Jacielma Reis é acadêmica do curso de História da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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