Relembrando Norma Bengell, musa e revolucionária

Por Rafaella Britto


"Um dia eu disse que era libertária e me mandaram calar a boca. Mas eu não calei." Consagrada nas telas como um mito eterno do cinema nacional, Norma Bengell nasceu no Rio de Janeiro, em 1935. Iniciou sua carreira em 1959, parodiando Brigitte Bardot na chanchada "O Homem de Sputnik", com Oscarito. Conquistou fama mundial na década seguinte, em filmes de sucesso como “O Pagador de Promessas” (Anselmo Duarte, 1962) - o primeiro e, ainda hoje, o único filme brasileiro vencedor da Palma de Ouro em Cannes -, “Os Cafajestes” (Ruy Guerra, 1962) e "Noite Vazia" (Walter Hugo Khouri, 1964). 

Oscarito e Norma Bengell em "O Homem de Sputnik" (Carlos Manga, 1959) - (Foto: Editora NVersos)

Casada de 1963 a 1969 com o famoso galã italiano Gabriele Tinti, fez carreira internacional na Europa, atuando em produções italianas como "Mafioso" (Alberto Lattuada, 1962) e "La Costanza della Ragione" (Pasquale Festa Campanile, 1964) - este último, contracenando com Sami Frey e Catherine Deneuve. Gabriele Tinti foi seu único marido, porém, em sua autobiografia póstuma, revela ter tido relacionamentos amorosos com outros astros, dentre eles, Alain Delon. 


Em “Os Cafajestes”, causou escândalo ao protagonizar a primeira cena de nu frontal do cinema brasileiro, e consolidou-se como "a mulher mais desejada do Brasil". Feminista, símbolo sexual, ícone fashion, desbocada e polêmica em uma época em que (quase) ninguém ousava ser, teve atuação política significativa na luta contra a censura durante os anos da repressão. Em suas entrevistas, a musa sempre escancarou fatos de sua vida pessoal: Norma afirmou ter realizado, ao longo de sua vida, dezesseis abortos, pois jamais desejou ser mãe. "Na verdade, foi um só, mas eu falo dezesseis pra provocar." Por diversas vezes, foi presa e interrogada pelo regime militar sob acusação de “subversão da classe teatral”, e obrigada a exilar-se na França em 1971. Quarenta anos mais tarde, foi reconhecida pelo governo brasileiro como anistiada política. "Norma teve uma atuação muito importante também na defesa dos direitos dos artistas", disse Christina Caneca, organizadora da autobiografia póstuma da atriz, à Folha. "Não era só a mulher do nu frontal."


Além de atriz, foi cantora e compositora, tendo lançado cinco álbuns de estúdio, e diretora, realizando a adaptação cinematográfica da vida da escritora e jornalista Pagu no fracassado “Eternamente Pagu” (1988), e outros filmes como "O Guarani", adaptação do romance homônimo de José de Alencar. Faleceu em sua casa, no Rio de Janeiro, em 9 de setembro de 2013, aos 78 anos, vítima de câncer de pulmão. "Vai ficar saudade", disse o ator Ney Latorraca ao site G1 na ocasião da morte da atriz e amiga. "Era insubstituível. Ela que abria todas as passeatas contra a ditadura. Foi revolucionária."

Relembre 15 frases de Norma Bengell, uma das mais polêmicas e inesquecíveis atrizes brasileiras:

(Foto: Reprodução)

“Longe de ser um carrossel, minha infância foi uma montanha-russa.”

(Foto: Reprodução)

“Se o amor aparecia, eu fugia. E assim fui construindo uma postura de mulher liberada que, simultaneamente, atraía e afastava os homens.”

Norma Bengell ao lado de seu primeiro e único marido, o ator italiano Gabriele Tinti, em 1964 (Foto: Reprodução)

“Eu entrei no palco, elétrica e loira, cantando ‘Menina feia’, de Carlos Lyra. Dessa vez com as pernas de fora. Foi um estouro.”

Norma em 1958 (Foto: Editora NVersos)

“Não gostei da ideia de me ver como uma baiana bobalhona, colorizada e americanizada. Eu, simples e definitivamente, não era Carmen Miranda.”

Norma em "A Viúva Alegre", 1960 (Foto: Editora NVersos)

“Não sou uma atriz genial, mas tenho uma vantagem: quando me movo, parece que estou tomada.”

(Foto: Acervo Pessoal)

“Chegou a hora da gravação da primeira cena de nu frontal do cinema brasileiro: eu deveria andar em círculos na praia, completamente nua. Era uma verdadeira batalha com a câmera.”

Norma na primeira cena de nu frontal do cinema brasileiro, em "Os Cafajestes" (Ruy Guerra, 1962) - (Foto: Reprodução)

“Os Cafajestes me confirmou como o maior símbolo sexual do país, além de me consagrar como atriz precoce e definitivamente.”

Norma em "Os Cafajestes" (Ruy Guerra, 1962) - (Foto: Reprodução/Tumblr)

“Apesar de ainda inconsciente, eu não era uma mulher como as outras, moldada para ser objeto.”

(Foto: Reprodução)

“Trabalhei muito, batalhei muito, amei muito, me rebelei muito. Vivi muito. Tudo sempre demais e intensamente.”

(Foto: Reprodução)

“Eu queria ficar famosa, ser independente, idolatrada e aplaudida.”

Norma Bengell em 1985 (Foto: Otávio Magalhães/Agência O Globo)

“Queria ser alguém, ser de ninguém.”

Norma Bengell em "A Idade da Terra" (Glauber Rocha, 1980)

“Sob as luzes dos refletores, eu me sentia realmente viva. Cada vez que eu entrava em cena, o público ficava sem fôlego.”

(Foto: Reprodução)

“Tem muita coisa que tem preço, mas eu não tinha e nunca tive.”

(Foto: Reprodução)

“Sou filha da Noite e da Lua. Com a noite, fiz sucesso, canções, boemia e um público que me aplaudiu durante anos.”

(Foto: Editora NVersos/Acervo Pessoal)

“O que eu quero é não morrer muda.”

Norma Bengell em 2010 (Foto: Reprodução)

Frases extraídas de:
BENGELL, Norma. Norma Bengell - Memórias. Editora NVersos - Rio de Janeiro, 2014.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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