O estilo Gibson Girl e o ideal da beleza americana



Por Rafaella Britto 


Antes, falava-se em Marilyn Monroe e Jayne Mansfield. Estas cederam espaço a Brigitte Bardot. Hoje, fala-se em Kim e Khloe Kardashian. Embora distantes no tempo, todas elas possuem algo em comum: ditaram moda, penetrando no imaginário popular e, assim, constituindo o retrato estético e comportamental de sua época.
É sabido que o conceito da pinup - modelo curvilínea e voluptuosa, cuja imagem exerce forte atrativo sensual sobre a cultura de massas -, não é novo. Entretanto, é mais antigo do que possamos imaginar: as primeiras pinups surgiram durante a década de 1890, popularmente conhecidas como Gibson Girls – nome este devido ao seu criador, Charles Dana Gibson, o responsável por inaugurar o primeiro ideal da beleza feminina americana.

"The Social Ladder" (A escada social), por Charles Dana Gibson, 1902 (Imagem: Reprodução)


VIDA E OBRA DE CHARLES DANA GIBSON

O ilustrador Charles Dana Gibson nasceu em Massachussets, em 14 de setembro de 1867. Ainda cedo demonstrou habilidades artísticas, contrariando a tradição de sua família, consolidada na vida política. Quando jovem, matriculou-se no renomado Art Students League, em Manhattan, onde estudou por dois anos.

Charles Dana Gibson, criador das Gibson Girls, o primeiro ideal de beleza americano (Imagem: Acervo de George Grantham Bain/Livraria do Congresso)

Gibson iniciou sua carreira profissional como artista gráfico e ilustrador em 1886, ilustrando artigos e charges humorísticas na revista Life, fundada e coordenada por John Ames Mitchell e Andrew Miller. Charles foi ilustrador da Life durante três anos, e logo construiu ampla reputação. Trabalhou para as maiores publicações de Nova York, dentre elas, Harper’s Weekly, Acribners e Collier’s, e ilustrou as primeiras edições dos livros de Anthony Hope “The Prisoner of Zenda” e “Rupert of Hentzau”. Dono de um apurado senso fashion, imortalizou-se na criação da Gibson Girl, representação icônica da nova mulher americana, bela, livre e independente.

"The Weaker Sex" (O Sexo Frágil), por Charles Dana Gibson (Imagem: Reprodução)

Após a morte de John Ames Mitchell, em 1918, Gibson assumiu o posto de editor-chefe da revista Life. A popularidade das Gibsons decaiu durante a Primeira Guerra Mundial, levando-o a desenhar por hobby. Viveu parte de sua vida em New Rochelle, colônia nova-iorquina frequentada por escritores, artistas e celebridades do período. Aposentou-se em 1936, ano em que a editora Scribner’s publicou sua biografia, “Portrait of an Era as Drawn by C.D. Gibson: A Biography”. Gibson faleceu em 23 de dezembro de 1944, e encontra-se sepultado no Cemitério Mount Auburn, em Cambridge, Massachussets.

GIBSON GIRL E A NOVA MULHER

As Gibson Girls surgiram em fins da década de 1890, época em que a primeira onda do feminismo preconizava o ideal da “Nova Mulher” – livre, independente, capaz de exercer atividade remunerada fora do lar, e de participar ativamente da construção da sociedade através do voto. Este período de grande efervescência político-cultural tornou-se conhecido como Era Eduardiana, na Inglaterra, e como Belle Époque, na França.

Ilustração de Charles Dana Gibson (Imagem: Reprodução)

A Gibson Girl possuía características que evocavam a Nova Mulher, combinadas a elementos dos ideais de beleza caucasianos de épocas anteriores. Sustentava-se na dicotomia entre a “dama frágil” – da qual herdou a silhueta delgada e o senso de respeitabilidade – e a “mulher voluptuosa” – da qual herdou o busto e quadris largos, sem, contudo, aparentar vulgaridade. A Gibson Girl era alta e elegante. Sua silhueta era marcada pela forma “S”, cintura e pescoço finos, e cabelos volumosos em estilo pompadour, presos acima da nuca, no alto da cabeça. Era membro da alta-sociedade e estava informada acerca das últimas tendências da moda; atlética e esportiva, exercitava-se diariamente; de beleza e espírito refinados, a Gibson Girl buscava, acima de tudo, sua realização pessoal. Entretanto, apesar de entusiasta, mantinha-se longe do ativismo político.

"Serious Business" (Negócio Sério), por Charles Dana Gibson (Imagem: Reprodução)

A participação no movimento sufragista relacionava-se ao ideal da Nova Mulher (New Woman), surgida ao mesmo tempo em que a Gibson. O ideal da Nova Mulher exerceu influência definitiva sobre o pensamento feminista do século 20: o termo foi cunhado pela escritora irlandesa Sarah Grand, em seu artigo “The New Aspect of the Woman Question”, publicado na revista literária North American Review, em março de 1894.

Gibson Girl: ativista e donzela (Imagem: Ilustração de Charles Dana Gibson, 1902/Reprodução)

Em sua novela “The Heavenly Twins” (sem tradução no Brasil), de 1893, Grand explora as desigualdades entre os sexos, induz às mulheres a rebelarem-se contra o aprisionamento de um casamento sem amor, e aponta a responsabilidade das damas de classe-média sobre a nação, uma vez que, embora as mulheres estivessem tendo, pela primeira vez, oportunidades de educação e carreira, tais oportunidades eram reservadas àquelas em condições privilegiadas. Poucas eram as mulheres rurais ou operárias das grandes cidades que adotavam o inconformismo como filosofia de vida, e possuíam coragem para lutar contra a tirania do sexo oposto. Naquela época, a mulher “seguia os conselhos dos livros de etiqueta para parecer, cheirar, sentir e ‘pensar’ como uma flor”, escreveu Annette Stott em “Floral Feminity: A Pictorial Definition”. Segundo Stott, a mulher “se tornava uma flor humana para consumo estético dos outros.”

Fotografia satírica de 1901 com o título "Nova Mulher - Dia de Lavar": uma mulher veste calças knickerbockers e meias compridas - traje tipicamente masculino - e fuma um cigarro, enquanto supervisiona o homem, de avental, lavando as roupas. (Foto: Livraria do Congresso)

Embora o termo “New Woman” seja de autoria de Sarah Grand, só foi popularizado graças ao escritor realista Henry James, que introduziu à literatura norte-americana a figura da heroína, questionando os valores tradicionais da sociedade, e percorrendo as diferenças e confrontos entre o Velho (Europa) e o Novo Mundo (América). Segunda a historiadora Ruth Bordin, Henry James entendia a Nova Mulher como “o termo que caracteriza americanas expatriadas vivendo na Europa: mulheres de riqueza e sensibilidade, acostumadas a agirem por si mesmas. O termo Nova Mulher sempre se referiu às mulheres que exerciam controle sobre suas vidas pessoal, social e econômica.”

Pin-up de Charles Dana Gibson na praia (Imagem: Reprodução)

A Gibson Girl seria uma versão mais popular e ‘asseada’ da Nova Mulher: reivindicava oportunidades de educação e carreira, autonomia sexual e sufrágio universal. Entretanto, não envolvia-se diretamente na política e buscava manter-se feminina, em contrapartida a ‘masculinidade’ adotada pela Nova Mulher. A Gibson Girl entretinha-se nas páginas da Vogue e Harper’s Bazaar, sabia vestir-se para cada ocasião, e possuía ciência de seu domínio sobre o homem.  

Ilustração de Charles Dana Gibson (Imagem: Reprodução)

AS VERDADEIRAS GIBSON GIRLS

Para a criação de suas garotas, Charles Dana Gibson buscou inspirações em três mulheres, consideradas celebridades no início do século 20. Saiba quem são as verdadeiras Gibson Girls:

Irene Langhorne

Nascida em Danville, Virgínia, em 1873, Irene Langhorne, experimentou a pobreza em sua infância: o pai, Chiswell Langhorne, veterano da Guerra Civil, buscou alimentar seus nove filhos trabalhando como leiloeiro de tabaco, porém só se estabilizou após alguns anos, como gerente de ferrovia. Suas duas filhas mais jovens sobressaíam-se em beleza e inteligência: a caçula, Lady Nancy Astor, foi a primeira mulher membro do Parlamento Britânico; já Irene Langhorne conquistou notabilidade durante os primeiros anos da Reconstrução após a Guerra Civil, quando passou a frequentar os bailes da sociedade e tornou-se referência em beleza e moda. Em um desses bailes, conheceu Charles Dana Gibson, com quem se casou em 1895.

Irene Langhorne, esposa e musa de Charles Dana Gibson, em retrato da juventude (Imagem: Reprodução)

Irene Langhorne foi a primeira e eterna musa de Gibson. De espírito vigoroso, era entusiasta de política e apoiou o movimento sufragista. Em 1945, foi recebida na Casa Branca pela primeira-dama Eleanor Roosevelt, que afirmou: “Todas as irmãs Langhorne são notáveis!”

Irene Langhorne, esposa e musa de Charles Dana Gibson, em 1936 (Imagem: Reprodução)


Evelyn Nesbit

Em tempos em que a fotografia de moda caminhava seus primeiros passos como ferramenta publicitária, a modelo e atriz Evelyn Nesbit consagrou-se como uma das mais belas de seu tempo: nascida em Tarentum, Pensilvânia, em 1884, iniciou sua carreira como modelo ainda durante a adolescência, atraindo a atenção dos principais artistas de Nova York, como o pintor James Caroll Beck, os fotógrafos Otto Sarony e Rudolf Eickemeyer, e Charles Dana Gibson, que a elegeu como uma de suas Gibson Girls. Nos anos 1900, o rosto de Nesbit estampava capas de revistas e campanhas publicitárias dos mais diversos produtos, desde calendários, jogos de cartas a itens de souvenir.

Evelyn Nesbit fotografada por Otto Sarony em 1900 (Imagem: Livraria do Congresso)

O sucesso como modelo levou-a ao teatro de revista e, posteriormente, ao cinema, onde estrelou filmes como “Redemption” (1917), “The Woman Who Gave” (1918) e “A Fallen Idol” (1919) - considerados, hoje, perdidos. Dentre os multimilionários com os quais esteve romanticamente envolvida, estão o ator John Barrymore, o arquiteto Stanford White, e Harry Kendall Thaw, herdeiro do barão William Thaw. A paixão de Harry Thaw por Nesbit e sua obsessão pela castidade feminina fizeram-no cometer o assassinato de Stanford White – com quem Nesbit manteve um caso mesmo estando casada com Thaw -, sendo este um dos crimes de maior repercussão midiática da época.

Evelyn Nesbit fotografada por Otto Sarony em 1902 (Imagem: Reprodução)

Evelyn Nesbit pode ser vista em duas raras filmagens disponibilizadas no YouTube: a primeira, de 1915, mostra Harry Thaw no momento de sua prisão após o assassinato de Stanford White.




A segunda, da década de 1930, mostra Evelyn já mais velha em uma boate, interpretando uma canção que tem como tema emancipação feminina.



Camille Clifford

Nascida na Antuérpia, Bélgica, em 29 de junho de 1885, Camille Clifford cresceu entre a Suécia e a Noruega e, mais tarde, mudou-se para Boston, EUA. No início da década de 1900, venceu o concurso de beleza promovido por Charles Dana Gibson para encontrar o ideal da beleza americana. A vitória rendeu a jovem um prêmio em dinheiro de US$2000 e o título de “the quintessencial Gibson Girl”. Clifford tornou-se atriz, estrelando curtos papéis no teatro. Dentre os fotógrafos para os quais posou em seus anos de estrelato, está a pioneira Lizzie Caswall Smith, famosa por seus retratos de celebridades como as atrizes Maude Fealy e Billie Burke.


Camille Clifford, "the quintessencial Gibson Girl" (Imagem: Reprodução)

Clifford prosseguiu em sua carreira de modelo e atriz, e retirou-se dos palcos em 1906, quando casou-se com o Capitão Henry Lyndhurst. Juntos tiveram uma filha, Margaret, que faleceu cinco dias após o nascimento. Henry Lyndhurst faleceria pouco tempo depois, durante a Primeira Guerra Mundial, em 1914.
Recomposta das tragédias de sua vida, a musa retornou brevemente aos palcos, e casou-se pela segunda vez, com o Capitão John Meredyth Jones, com quem viveu até a morte dele, em 1957. Camille Clifford faleceu em 28 de junho de 1971, véspera de seu aniversário de 86 anos. Seus altos e volumosos penteados, feições europeias e elegante silhueta ampulheta, marcada pela cintura finíssima, definiram o estilo Gibson Girl.


Camille Clifford, "the quintessencial Gibson Girl" (Imagem: Reprodução)

A beleza americana

Charles Dana Gibson acreditava que sua obra representava a beleza da mulher americana: “Vou dizer a você como me ocorreu a ideia do que vocês têm chamado de ‘Gibson Girl’: eu a via nas ruas, nos teatros, nas igrejas. Eu a via por toda parte, fazendo de tudo. Eu a via passando tempo na Fifth Avenue e trabalhando atrás dos balcões das lojas... A nação criou o ideal. O que Zangwill chama de ‘Caldeirão de Raças’ resultou numa personagem; por que não dar um rosto a ela? Não há uma ‘Gibson Girl’, mas há milhares de garotas americanas, e por isso agrademos a Deus.”


Ilustração de Charles Dana Gibson, 1902 (Imagem: Reprodução)

Gibson afirmou que as mulheres americanas seriam mais belas no futuro: “Elas são, sem dúvidas, as mais amáveis de seu sexo... Nos EUA, claro, onde há uma seleção natural, e onde, mais do que qualquer outro lugar, há uma grande variedade para escolher. A mulher americana do futuro será ainda mais bela do que a mulher americana de hoje. O fato de almejar essa distinção resultará na combinação dos melhores elementos das muitas raças que têm ajudado a constituir nossa população.”


Ilustração de Charles Dana Gibson, 1902 (Imagem: Reprodução)

Referências:

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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