“Costurando” a emancipação das mulheres através da vestimenta

Por Jacielma Reis*

Uma rara fotografia colorida datada de fevereiro de 1943: mulher trabalha em um avião A-31 em Nashville, Tennessee (Foto: Alfred T. Palmer/Library of Congress)

 Por meio da moda é possível perceber os hábitos e comportamento de uma época. As revoluções da moda sempre seguiram as revoluções históricas, principalmente, na questão social da mulher. O crescimento do consumo, e particularmente o de moda, ampliou a participação das mulheres na “esfera publica”, saindo do confinamento doméstico a que a maior parte delas estivera até então.

 A historiadora Gilda de Melo e Souza em sua obra “O espírito da roupas” fala que:

Tendo a moda como único meio lícito de expressão, a mulher atirou-se à descoberta de sua individualidade, inquieta, a cada momento insatisfeita, refazendo por si o próprio corpo, aumentando exageradamente os quadris, comprimindo a cintura, violentando o momento natural dos cabelos. Procurou em si- já que não lhe sobrava outro recurso - a busca de seu ser, a pesquisa atenta de sua alma. E aos poucos, como o artista que não se submete à natureza, impôs a figura real uma forma fictícia, reunindo os traços esparsos numa concordância necessária (SOUZA, 1996, p.100).


Operárias de estação ferroviária durante a Primeira Guerra Mundial, em Londres (Foto: London Metropolitan University)

 Conforme Michelle Perrot (1994), o século XIX é o momento histórico em que a vida das mulheres se altera, tempo da modernidade em que se torna possível uma posição de sujeito. As mulheres começam a ocupar espaços nas cidades do século XIX e a reivindicar seus direitos, como o do voto. Ao longo dos anos 20, acentuou-se a luta pela emancipação feminina. Os movimentos feministas reivindicaram as mesmas liberdades e direitos que os homens, isto é, a igualdade na educação, emprego, salário, voto e status social. Esses movimentos tinham como principal objetivo a melhoria das condições de vida da mulher.

1911: sufragistas marchando em Bermondsey, Londres (Foto: Reprodução)

 Coco Chanel e a Primeira e Segunda Guerra Mundial foram as grandes responsáveis pela emancipação da mulher. A estilista não estava só à frente de seu tempo, mas à frente de si mesma, tornando-se uma mulher ousada para a sua época. Com sua rebeldia, ela introduziu sua própria imagem de mulher independente, com personalidade e com estilo próprio, recebendo admiração das mulheres de sua época, que não tiveram essa ousadia antes dela.

 Conforme afirma Thébaud (1995):

Para as mulheres das camadas medias e abastadas, habituadas ás atividades de caridade, a guerra é um período de intenso ativismo, que derruba barreiras sociais como os rigores da moda ou da sociabilidade burguesas. (...) A moda do espartilho, o encurtamento das saias, a simplificação do traje (do Tailleur aos tecidos de jérsei criados por Gabrielle Chanel), libertaram o corpo e facilitaram o movimento.

A estilista Coco Chanel em 1920 (Foto: Reprodução)

 A indumentária se mostra como o melhor caminho para refletir a decisão feminina. Segundo Coelho (1995), tratando-se de aparência, a moda vem como uma busca de prazer, em constante mudança na tentativa de chegar à plena satisfação e afirmação como ser social.
 Desde as sociedades primitivas as mulheres se encontram separadas por uma barreira do grupo masculino, obrigando-as a viverem em mundos opostos. Eram reservadas as mulheres a maternidade e as tarefas secundárias. Segundo Souza (1996), para a mulher, as únicas alternativas de carreira eram o casamento e o magistério.

1 de março de 1916: mulheres britânicas da brigada de incêndio do Exército fazem a saudação (Foto: Getty)

 As mulheres foram atiradas, de improviso, às atividades dos homens devido às duas guerras sucessivas. Isso permitiu que homens e mulheres não fossem mais considerados como termos opostos e antagônicos, mas sim como duas faces de uma mesma humanidade, que precisava agir em conjunto, para o bem de todos. Começa então uma era de autoafirmação das mulheres na sociedade. As mulheres, antes da guerra, estavam vivendo um momento de grande sofisticação, luxo e esplendor no que diz respeito à moda e, em poucos dias, são obrigadas a se adaptar a uma nova e turbulenta realidade.

A inocência havia terminado, uma nova realidade descortinava-se. A mulher tinha capacidade para trabalhar e ganhar seu próprio dinheiro. Com os homens no campo de batalha e as mulheres atrás de uma escrivaninha, uma nova mentalidade começa a surgir, ainda que as mais radicais aceitem a presença das mulheres apenas nessa ‘emergência de guerra’. E como essas mulheres foram importantes para o bom andamento das cidades, dos escritórios, dos hospitais, das tendas de feridos nos campos de batalhas, após a Primeira Guerra Mundial muita coisa mudaria no universo feminino (VITA, 2008, p.114).

 Essa concepção contribuiu para que ocorressem mudanças, não só na estrutura social, mas também na vestimenta. As mulheres precisavam ir à luta, e para isso era preciso roupas simples e confortáveis. Porém a moda continuava sendo a grande arma na luta entre os sexos e na afirmação do individuo dentro do grupo. A moda em geral passa a ser influenciada pelo look militar, com inspiração advinda dos paletós e fardas com ombreiras, sendo esta uma das características da moda no período de guerra.

1916: mulheres da Polícia Britânica posando para câmera durante a Primeira Guerra Mundial (Foto: Getty)

 As mulheres alteraram o seu comportamento começando a fumar, a beber, a frequentar clubes noturnos (cabarés). As mulheres já não morriam de amor. Um exemplo é a própria estilista, a qual se refere este artigo, Coco Chanel, que com objetivo de vencer na vida, decidiu sair à caça de amantes, de preferência homens ricos, que pudessem lhe ajudar. 
 Mas essa concepção de mulher independente não foi adquirida por todas as mulheres da época, pois algumas delas, além de desempenhar os papéis masculinos na sociedade e de realizar todas as tarefas, dentro e fora de casa, ainda sofriam a pressão de precisar estar bonita para receber os homens que voltavam do campo de batalha. As mulheres estavam usando uniformes e trabalhando como homens, mas dentro de suas casas, homem e mulher, cada um, continuava a ter uma imagem a zelar.

Referências:

  • SOUZA, Gilda de Mello. O espírito das roupas: a moda no século dezenove. São Paulo: Campanha das letras, 1996.
  • VEILLON, Dominique. Moda & Guerra: um retrato da França ocupada. Tradução e Glossário de André Telles. Rio de janeiro: Jorge Zahar, Ed.2004.


* Jacielma Reis é aluna do Curso de História da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

4 comentários:

  1. É interessante notar que muitas referências desta época, como os cabelos enrolados e presos com mais praticidade e a alfaiataria utilitária voltam vez ou outra às tendências de moda, como talvez uma recuperação do espírito de luta e emancipação feminina da época.

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    1. É verdade, Vívien. Eu penso que, muito embora algumas tendências dessa época sejam relidas na atualidade, acredito que, hoje, elas não exerçam o mesmo impacto. Mas sem sombra de dúvidas, ainda que muitas referências não estejam carregadas da mesma conotação política, é sempre um resquício de memória da luta da mulher.

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  2. Que texto maravilhoso! Eu tenho uma eterna admiração pela Chanel, aquela mulher era incrível.O tipo de pessoa que eu passaria a tarde toda tomando chá e conversando sobre a vida rsrs.

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    1. E quem não queria ter esse privilégio, não é? ♥

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