As influências afro-brasileiras no estilo de Clara Nunes





Por Rafaella Britto -



“Um dia, a morena enfeitada de rosas e rendas abriu seu sorriso de moça e pediu pra dançar” – cantou Clara Nunes, A Eterna Guerreira, na música “Conto de Areia”.  
Nenhuma cantora personificou Iemanjá como Clara Nunes. Em sua breve vida, quebrou tabus, superou a pobreza, e consolidou-se como uma das maiores intérpretes da música popular brasileira. Seu estilo, marcado por forte nacionalismo, é ainda objeto de inspiração para os principais estilistas brasileiros da atualidade, como Victor Dzenk e Ronaldo Fraga. As cantoras Marisa Monte e Vanessa da Mata lembraram-se dela ao conservarem irretocáveis suas madeixas volumosas. Por estas e outras razões, Clara Nunes é ícone atemporal de beleza, moda e luta.



A vida de Clara Nunes

Clara Francisca Gonçalves Pinheiro nasceu em 12 de agosto de 1942, em Paraopeba, interior de Minas Gerais. Caçula de sete irmãos, cresceu cercada pelas tradições mineiras. O jornalista Renato Sérgio, em reportagem publicada em 1983 – ano da morte da cantora – escreveu: “Um lugar cheio de tradições, onde candidato a namorado fazia serenata, cantando debaixo da janela da donzela, onde tinha festa o ano todo, de Santo Antônio, São Sebastião, tinha Reizado, tinha Folias, tinha Pastorinhas, tinha até batuque, um costume bem mineiro, trazido pelos negros africanos, uma dança diferente onde se faziam os pares, mulheres aqui, homens ali, dançando uns em frente aos outros, improvisando versos, com um momento em que os pares se abraçavam. E tinha a umbigada, que coisa mais maravilhosa!”

(Foto: Acervo de Sandra Camagloada)

Clara foi introduzida à música através do pai, Manoel Ferreira Gonçalves, mais conhecido como Mané Serrador - como indica o apelido, operário da serraria local. Violeiro, Mané Serrador adorava cantar com a filha caçula os sucessos da Velha Guarda, como Francisco Alves, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Emilinha Borba – a favorita da menina.
A infância pobre, brincando com bonecas de papelão e cozinhando enquanto os irmãos trabalhavam para o sustento da família, obrigou a pequena Clara a ir para uma fábrica de tecelagem aos 13 anos de idade. Em entrevista concedida a jornalista Leda Nagle em 1980, a cantora disse: “Foi tudo muito difícil, mas é uma coisa de que eu me orgulho. Justamente por isso, por ser de uma família simples, do interior. Eu tive uma formação excepcional e me orgulho muito. Eu acho que todos devem começar a trabalhar cedo, aprender as coisas da vida, lutar para conseguir o que quer.”

(Foto: Reprodução)

A vidinha nada emocionante da adolescente operária dos anos 50 estaria prestes a mudar quando, em 1961, aos 18 anos, venceu o concurso A Voz de Ouro ABC, em Belo Horizonte, com a música “Serenata do Adeus”, composta por Vinícius de Moraes e originalmente interpretada por Elizeth Cardoso. Influenciada pelo produtor musical Cid Carvalho, adotou o nome artístico Clara Nunes – Nunes era o sobrenome de solteira de sua mãe. “Naquela época, eu ainda era tecelã”, disse. “Mas optei pela carreira de cantora porque meu sonho era cantar”. Após vencer o concurso, foi contratada pela Rádio Inconfidência e passou a apresentar-se em clubes e boates na capital mineira.

(Foto: Reprodução)

Clara deixou Belo Horizonte em 1965, e mudou-se para o Rio de Janeiro. Nesta época, interpretava, principalmente, boleros e canções românticas, porém somente na década de 1970, após afirmar-se definitivamente no samba, viria a tornar-se a primeira cantora a alcançar a vendagem de mais de 100 mil cópias, derrubando o tabu de que mulher não vendia discos.
Sua morte, ainda hoje, é objeto de especulação. Sofreu parada cardíaca e permaneceu internada na UTI durante 28 dias. Faleceu em 2 de abril de 1983, aos 40 anos, vítima de choque anafilático. Os meios de comunicação apontaram como possíveis causas de sua internação aborto – a cantora já havia sofrido três -, tentativa de suicídio, inseminação artificial e espancamento por seu marido, o compositor Paulo César Pinheiro.


(Foto: Reprodução)


Estilo

Clara Nunes relacionava-se estreitamente com a moda: por mais de quatro anos, foi musa da Escola de Samba Portela. No Carnaval de 1975, puxou o samba-enredo “Macunaíma, o Herói de Nossa Gente”, vestida em fantasia de autoria do costureiro Geraldo Sobreira. A fantasia, inspirada nas estrelas, foi batizada de “Macunaíma na Constelação”. Geraldo Sobreira, em reportagem publicada em janeiro de 1975 na revista Amiga, falou sobre sua criação: “A roupa de Clara foi inspirada no tema da escola e no samba Vou Virar Constelação. Eu me baseei nas estrelas porque trata-se de uma estrela cobrindo a estrela maior que é Clara. A fantasia é de organza, tule francês, plumas, estolas bordadas em paetês, pérolas e miçangas.”


O costureiro Geraldo Sobreira vestindo Clara Nunes para o samba-enredo "Macunaíma, o Herói de Nossa Gente", da Escola de Samba Portela, no Carnaval de 1975. A esta fantasia, inspirada nas estrelas, Sobreira chamou "Macunaíma na Constelação" (Foto: Revista Amiga - 29.01.1975)

Em seu estilo, Clara glorificava as raízes afro-brasileiras: a cantora, supersticiosa e devota dos orixás, não abria mão do batom vermelho e estava sempre de branco – no candomblé, a cor da paz e da purificação. “O candomblé é minha religião e minha verdade”, disse. Sua marca registrada eram os cabelos ruivos e volumosos, apelidados pelo compositor João Nogueira de ‘Ser de Luz’. Estudiosa do folclore nacional, por diversas vezes viajou à África, e de lá trouxe elementos que constituíam a teatralidade de suas performances: golas camponesas, tecidos fluidos, turbantes, pérolas, colares e coroas de conchas – os símbolos de Iemanjá. Como descreveu a amiga Dora: “Moça simples, boa. Obediente, nunca esqueceu suas raízes. Aberta, desprendida, fazia espetáculos beneficentes por aqui e ajudou a construir um asilo. Todos os fins de ano dava tecidos para que sua irmã mais velha fizesse roupas e distribuísse entre os mais necessitados. Acho que ela nunca esqueceu a criança pobre que foi, desde menina trabalhando como tecelã.”

O Estilo Clara Nunes em fotos

Uma seleção de imagens mostrando os melhores momentos fashion da cantora.

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

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(Foto: Revista Amiga)

(Foto: Reprodução)

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(Foto: Reprodução)

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

5 comentários:

  1. Linda e além de tudo tinha uma voz maravilhosa!
    O estilo de Clara me encanta.Verdadeiramente ♥ Na nona imagem de cima para baixo, ela está deslumbrante!

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  2. Que linda! Quero parabenizar o blog, porque além dos assuntos da hollywood clássica vcs também apresentam posts sobre o retrô brasileiro. Não conhecia a Clara Nunes e agora estou encantada! Muito obrigada! E continuem com o bom trabalho :)

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    1. Letícia, fiquei muito contente com seu comentário. Muito obrigada pelo carinho e volte sempre! ♥

      Beijos,

      Rafaella

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    2. Amo esse site! Obrigada a você por responder ^^

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