Os grandes momentos de Eva Wilma

Por Rafaella Britto

Eva Wilma em retrato da década de 1960 (Foto: Reprodução)

Em depoimento concedido na década de 1970 à jornalista Liba Frydman, da revista Sétimo Céu, a premiada atriz Eva Wilma revelou quais foram os grandes momentos de sua vida.
Eva Wilma nasceu em São Paulo, em 14 de dezembro de 1933. Dama do teatro, cinema e televisão brasileiros, iniciou sua carreira aos 14 anos, como bailarina. Liba Frydman escreveu: “Filha única, Vivinha teve uma infância de solidão. Aos doze anos sentiu os reflexos da guerra, vivendo a angústia de ver o pai – que era alemão – ser preso a qualquer momento. Ele escapou, mas Eva aprendeu ‘o que era medo e rejeição. Hoje considero esse momento muito positivo, porque tirei a lição da volta por cima em torno do medo e da autocensura’.”  

Eva Wilma durante a infância e adolescência (Fotos: Acervo pessoal disponível em eva-wilma.blogspot.com)

Eva Wilma protagonizou, ao lado de seu então marido, o ator John Herbert, o famoso seriado da televisão brasileira, “Alô, Doçura!”, exibido de 1953 a 1964 pela TV Tupi. No teatro, interpretou, dentre outros papéis memoráveis, Blanche DuBois, na montagem brasileira da peça norte-americana “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams, em 1974. Fez teste em Hollywood para o filme "Topázio", de Alfred Hitchcock, e teria sido musa do diretor – não fosse o inconveniente de um dente encavalado que possuía. Mas este fato em nada diminuiu o brilho da diva: Eva Wilma coleciona mais de 50 prêmios por seus trabalhos no teatro, televisão e cinema.

Eva Wilma e John Herbert em "Alô, Doçura!" (1953-1964) - (Foto: Reprodução)

Pepita Rodrigues como Stella e Eva Wilma como Blanche DuBois na montagem brasileira da peça americana "Um Bonde Chamado Desejo", de Tennessee Williams (Foto: Acervo de Orias Elias)

Após vinte anos de casamento com John Herbert, Eva encontrou o amor em outro premiado ator: Carlos Zara, que fora seu par romântico na novela “Mulheres de Areia”, de 1973: “Acho que ninguém vive sozinha, ninguém vive sem amor. E é maravilhoso a gente conseguir amar e se dar por inteiro”, disse a musa.

Eva Wilma em dois momentos de sua carreira: 1967 e 1974 (Fotos: Acervo de Orias Elias)

No depoimento concedido à revista Sétimo Céu, Eva Wilma revela os altos e baixos da carreira de atriz paralela à outra difícil carreira: ser mulher. O relacionamento abusivo que mantinha antes do envolvimento com John Herbert; o amor de Carlos Zara. Eva Wilma aponta “Cidade Ameaçada”, drama policial de 1960 dirigido por Roberto Farias e indicado à Palma de Ouro em Cannes, como um dos mais importantes filmes que realizou – atrás somente de “São Paulo, Sociedade Anônima”, obra-prima do cineasta Luís Sérgio Person.

Confira trechos do depoimento da atriz:

Relacionamento abusivo e paixão por John Herbert

“Um grande momento, que pode ser dividido, foi quando tive que aprender o que era opção. Aprendi a palavra, mas só fui racionalizar o sentido mais tarde: é abrir mão de uma coisa escolhendo outra e sofrendo demais pela que se deixou. Eu estava no Ballet do IV Centenário, o lugar mais alto que uma bailarina poderia aspirar, em 1954, quando decidi largar tudo para fazer teatro, cinema e televisão. A opção paralela, que aconteceu na mesma época, foi o meu namorado – que era aquele grande amor pelo qual eu faria qualquer coisa no mundo. Ele não me apoiava em minhas aspirações artísticas e ficava muito bravo quando eu concordava em tocar violão, cantar ou dançar – que era o que todo mundo me pedia nas festinhas. Ele não me permitia, eu sofria demais, e isso durou até o dia em que conheci John Herbert em pleno palco, numa filmagem em que eu dançava e ele fazia figuração na plateia. Johnny ficou me cantando e eu dizendo que não adiantava, que gostava de um outro. Mas ele me deu tanto apoio que eu acabei dizendo basta! para meu namorado e aceitando a corte que Johnny me fazia. Uma corte, que depois de três anos se transformou em casamento.”

Eva Wilma como bailarina em 1954 (Foto: Acervo pessoal disponível em eva-wilma.blogspot.com)

Casamento com John Herbert

“Lembro que tomei um susto muito grande quando cheguei na porta da igreja – porque eu casei de véu, grinalda, igreja e civil, tudo muito direitinho (não como mandava o figurino, mas como mandava o meu coração) – eu levando tudo muito a sério. Cheguei rodeada de guardas de segurança – era o auge de Alô Doçura – e levei um susto enorme porque meus convidados não cabiam, o povão tinha tomado conta, enquanto o padre batia palmas e mandava todo mundo se sentar.”

Eva Wilma e John Herbert em foto publicada na revista Intervalo, no início da década de 1950 (Foto: Acervo de Orias Elias)

Maternidade

“O grande momento seguinte foi o nascimento de minha filha, Vivian Patrícia. Johnny estava no Rio filmando e antes de partir tinha pedido, entre sério e brincalhão: ‘Olha lá, hein? Espera eu chegar para ir para a maternidade...’ Eu brinquei: ‘Vai nascer é agora’. E não deu outra. Meu pai foi lá em casa ficar comigo e teve que me levar correndo para a maternidade. Johnny só conseguiu chegar dez horas depois”.

Eva Wilma e a filha Vivian Patrícia (Foto: Revista Sétimo Céu/Acervo de Orias Elias)

Cinema

“Entre os filmes, posso destacar São Paulo S.A. Ainda estávamos no Rio quando Luís Sérgio Person veio à minha casa para me oferecer o filme, que Johnny achou uma bobagem. E foi uma das raras ocasiões de nossas vidas em comum em que eu não o ouvi. Fui fazer o filme, que acho da maior importância.
Houve, também, o filme Cidade Ameaçada. Nunca me esqueço do nervoso que passei quando ganhei o papel, após um teste. Teve também o lance de gravar cenas na penitenciária, e tudo o que representou de pesquisa, de realização de um trabalho muito bom, com direção de Roberto Farias – ainda no comecinho de sua carreira.”

Eva Wilma e Walmor Chagas em "São Paulo, Sociedade Anônima" (Luís Sérgio Person, 1965) - (Foto: Reprodução)

Crise

“Marcante, mesmo, foi o momento em que levamos a peça – eu e o Johnny, com quem vivi momentos maravilhosos – Os Rapazes da Banda para o Rio. Havíamos feito sucesso com a peça em São Paulo por mais de um ano e, chegando no Rio, ninguém esperava a interdição da Censura. Durante dois meses lutamos contra isso, pagando o elenco e mantendo o teatro. Quando conseguimos desembrulhar a meada e recolocar a peça em cartaz, os prejuízos não foram recuperados. Começou uma bola de neve, de derrocada financeira na nossa vida. Esse foi um grande momento na minha vida, porque eu percebi que a gente estava na estaca zero, vírgula zero, zero, zero... A solução foi fazer uma remontagem do ‘Putz’ e viajar com a peça. Foi uma coisa muito violenta carregar esse espetáculo por todo o Norte e Nordeste, sem saber se a gente ia conseguir se levantar ou não. Isso tudo precedeu uma virada na vida minha profissional. Voltei por solicitação da TV e foi a primeira vez na minha vida que eu impus condições. Foi a primeira vez que eu enfrentei todos: cúpulas, estruturas, o diabo a quatro, impondo minhas condições para voltar.”

Eva Wilma (Foto: Reprodução)

Casamento abalado

“Outro momento enorme, que merece ser falado, foi aquele em que me conscientizei de que eu e Johnny não podíamos mais seguir juntos. Mas isso não veio de repente. Começou por volta de 1970, exatamente na montagem de Os Rapazes da Banda. Eu relutei demais em aceitar a deterioração do nosso relacionamento, e lutei muito contra isso. Procurei dialogar com ele, ao mesmo tempo em que procurei uma terapia de grupo, intercalada por individuais. O engraçado é que fui procurar o médico porque perdia a voz em momentos em que me emocionava em cena, e em menos de um ano descobri que estava lá para salvar meu casamento.
Não posso esquecer da vivência com a peça Black-Out, no seu retorno do Rio para São Paulo. Johnny havia resolvido transformar-se num empresário e Black-Out foi sua primeira produção. Ele me deu a peça para ler, e eu não tive dúvidas: ‘Essa porcaria eu não faço!’ Ele também não teve dúvidas: ‘Não faz mal, eu chamo a Dina Sfat.’ Então recuei e pedi para ele esperar, porque queria estudar a peça melhor... ainda mais por saber que a direção seria do Antunes Filho. Foi nessa época que minha voz desapareceu em cena, lá pelo terceiro mês, e o Antunes e o Johnny chamaram a Dina para me substituir. Mas no dia em que ela chegou no camarim para me ver, recuperei a voz no ato.”

John Herbert e Eva Wilma (Foto: Acervo de Orias Elias)

Reconhecimento

“Uma experiência riquíssima que eu tive foi com o pessoal do Centro de Reabilitação de Cegos, por longos meses. Teve, ainda, a experiência bonita que foi o início da carreira teatral – como profissional – nessa peça [Black-out]. Depois da estreia, Antunes foi para a montagem de nova peça e a responsabilidade da produção de Black-Out ficou sendo minha e do Johnny, o que representou uma carga e significou muito em termos profissionais. Nesse ano, eu perdi todas as votações para prêmios. Não me importei com o Rio, onde perdi para Glauce Rocha, mas em São Paulo, as razões foram políticas. Já a Regina Duarte ganhou todos os prêmios de coadjuvante do ano, com essa peça. O que resultou num outro grande momento, em 1974, quando – no ar – Regina me entregou o Troféu Imprensa – que lhe havia sido conferido pelos cronistas de TV – dizendo de público que eu merecia mais do que ela pelo meu trabalho em ‘Mulheres de Areia’.”

Carlos Zara e Eva Wilma na novela "Mulheres de Areia" (Ivani Ribeiro, 1973) - (Foto: Reprodução)

Olhar romântico sobre a vida

“Eu gostaria muito de me casar outra vez. Se me pedirem em casamento, vou enfrentar a parada. Se não me pedirem em casamento, eu tenho uma aspiração, uma proposta para viver: vou me transformar numa avó muito gaiata, muito alegre e muito feliz. Escapar de ser uma velha chata, porque eu sei que a vida vale a pena ser vivida.”

Eva Wilma e Carlos Zara (Foto: Reprodução)

Créditos:

Trechos extraídos do depoimento de Eva Wilma em reportagem de Liba Frydman na revista Sétima Céu – década de 1970. Acervo de Orias Elias, disponível no blog Astros em Revista.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

5 comentários:

  1. Torna-me prazeroso ser fã da Eva Wilma desde o primeiro momento que oportunamente assisti a novela Meu Pé de Laranja Lima em 1970. então, ao perceber que a atriz cativava sempre a criançada pela simpatia e desenvoltura, tornei-me fã e nunca deixo de acompanhá-la em seus memoráveis trabalho e, sempre colecionando tudo que registra o nome da atriz que torna o Mundo feliz, grato!

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    1. Eva é rainha. Fico imensamente feliz que tenha gostado, Sérgio! Obrigada e retorne sempre.

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  2. Eva foi é e sempre será a maior atriz do Brasil,a grande e talentosa Eva Wilma tivesse nascida no Estados Unido,com certeza teria seu talento mais reconhecido e respeitado pela imprensa e críticos,infelizmente o que não acontece no Brasil,onde grande parte da imprensa tanto escrita,quanto falada e alguns arrogantes críticos ignoram seu enorme feito como atriz que já nos proporciono com grandes interpretações,tanto no teatro,como no cinema e na televisão,alias seu personagens foram e ainda são os mais regravados...comoJandira de Meu Pé de Laranja Lima,Gabriela de Nossa Filha Gabriela, às gémeas Ruth e Raquel de Mulheres de Areias,Jó Penteado de A Barba Azul,Dinah de A Viagem,Laura Prado de Ciranda de Pedra,Rebeca de Plumas e Paetes e agora vão regrava Sassaricando,na qual ela viveu Penélope Bacela e fez uma fantástica parceria com Irene Ravache,Marcos Frota e Roberto Bataglin que era seu par romântico,cujo o personagem dele se chamava Tadeu Há inesquecível como tudo que ela já fez e graça a Deus ainda faz brilhantemente ok.Parabéns pela bonita homenagem ela merecer.

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    1. Concordo plenamente, Beto. Neste país sem memória, não somente Eva, como outros artistas grandiosos que construíram nossa arte não recebem o devido reconhecimento. Fico muitíssimo feliz que tenha gostado da singela homenagem a essa grande diva. Muito obrigada e volte sempre.

      Rafaella

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  3. Linda Eva Vilma! Merecida homenagem...atriz maravilhosa e lindíssima !

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