“Os clássicos rebeldes”, por Fernando de Barros

Por Rafaella Britto

Calças jeans, camisas de baixo e jaquetas de couro, símbolos da atitude rebelde da juventude da década de 1950: Marlon Brando no filme "O Selvagem" ("The Wild One", László Benedek, 1953) - (Foto: Reprodução)

No terceiro capítulo de seu livro “O Homem Casual – A Roupa do Novo Século”, o cineasta e editor de moda Fernando de Barros narra a história de duas peças que revolucionaram a moda e comportamento, e se tornaram símbolo da rebeldia juvenil das décadas de 1950 e 60: a calça jeans e a minissaia.
Fernando de Barros nasceu em 1915, em Portugal, mas mudou-se para o Brasil em 1940, e naturalizou-se brasileiro. Em 1950, tornou-se assistente de direção de fotografia na Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, São Paulo, e, posteriormente, diretor de premiados clássicos do cinema nacional, como “Apassionata” (1952), “Uma Certa Lucrécia” (1957), “Moral em Concordata” (1959), “As Cariocas” (1966) e “Lua de Mel e Amendoim” (1971).

Fernando de Barros e Roberto Ressellini. São Paulo, set. 1954 (Foto: Coleção Particular/Unicamp)

Após deixar o cinema, Barros foi editor de moda e beleza das revistas O Cruzeiro, Quatro Rodas e Playboy – nesta última, trabalhou durante 26 anos, até sua morte, em 11 de setembro de 2002. Seu estilo pessoal era notável por seu refinamento, e teve romances com algumas das mais belas atrizes brasileiras, como Tônia Carrero, Odete Lara e Maria Della Costa. Consagrado no circuito fashion brasileiro como uma das maiores autoridades em moda masculina, o cineasta assinou sua própria coleção para a grife Dudalina, e lançou os livros “Elegância – Como o Homem Deve se Vestir”, de 1997, e “O Homem Casual – A Roupa do Novo Século”, de 1998, ambos de grande sucesso comercial. Em “Elegância - Como o Homem Deve se Vestir”, Barros dá dicas para a combinação de ternos, gravatas, meias e camisas. Já em “O Homem Casual”, o jornalista volta-se para a praticidade dos tempos modernos, e ensina aos homens como priorizar o conforto sem, contudo, deixar de ser elegante.


Os clássicos rebeldes

(Terceiro capítulo de "O Homem Casual - A Roupa do Novo Século")

Fernando de Barros

 Algumas peças de roupa foram decisivas para a transformação de uma geração no século XX. Uma delas foi a calça jeans, que Jacob Davis criou em 1853, com um pano geralmente usado para cobrir carroças. Outra foi a minissaia, nascida da imaginação e audácia da estilista Mary Quant.
 O pano que deu origem ao jeans começou a ser fabricado em Nîmes, na França, em fins do século XVII. No século XVII já era produzido em Halifax, na Inglaterra, onde ficou conhecido como De Nimes, que deu origem ao seu nome: denim. Da Europa, ele surgiu para os Estados Unidos junto com imigrantes, como o alemão Lévi-Strauss, que foi para a Califórnia em 1847 e abriu uma distribuidora de tecidos importados em San Francisco com seu cunhado.
 Na mesma época, o alfaiate Jacob Davis fazia calças para os mineiros que trabalhavam nas minhas da Califórnia. A clientela não estava muito satisfeita, pois a roupa se estragava com facilidade no seu tipo de trabalho. Para resolver o problema, Davis foi a San Francisco procurar um pano mais resistente. Lévi-Strauss então lhe vendeu um lote de tecido de sarja marrom, usada geralmente para cobrir tendas e carroças. Foi com ele que Davis fez as novas calças, reforçadas nos bolsos com rebites e fechadas na bagruilha por botões de metal. O negócio foi melhorando devagar. Faltava a Davis o capital necessário para desenvolvê-lo, com um bom sistema de fabricação e distribuição. Ele então escreveu a Lévi-Strauss, que continuava a ser seu fornecedor de tecidos, e propôs lhe dar 50 por cento dos  lucros se a firma fizesse registrar comercialmente o modelo de calça e fornecesse mais tecidos. Strauss aceitou sua proposta. Em 1873 a marca e o feitio das calças estavam registrados. Assim foi criada a primeira grife de roupas jeans.
 A partir daí começaram a coexistir dois panos. Como o escritor John Hayes já observava numa obra de 1942, um deles era o próprio jeans, um pano sarjeado de algodão com fios da mesma cor, utilizado em calças rancheiras, camisas para trabalhar e macacões. O outro era o denim, uma versão na qual o sarjeado compreendia fios de algodão cru, tecido mais caro utilizado nas roupas de trabalho. No século XIX as calças de Lévi-Strauss já eram de tecido azul com fios de algodão cru e o tecido na cor marrom tinha sumido de circulação.

Anúncio publicitário da primeira grife de roupas jeans, Levi Strauss & Co. - Século 19 (Imagem: Levi Strauss & Co.)

 No campo, nas indústrias e nas ferrovias que rasgavam o território americano, o jeans começava a fazer parte da paisagem. Quem usava uma camisa, um blusão ou uma rancheira jeans era identificado como trabalhador – não só os mineiros, como os trabalhadores do campo, os caubóis e os ferroviários. O jeans começou a se popularizar ainda mais no começo do século XX, com o lançamento dos filmes com o caubói Tom Mix, que se tornaram sucesso no mundo inteiro. Em No tempo das diligências, do diretor John Ford, filmado em 1939, John Wayne usava jeans. O filme que mais lançou o jeans no cinema, contudo, foi As vinhas da ira, 1940. Baseado no romance de John Steinbeck, tinha como personagem principal Henry Fonda no papel de um agricultor. A figura dos heróis do cinema com jeans se tornou quase uma marca nos filmes que Hollywood passou a produzir. Elvis Presley usou jeans em seu primeiro filme, Ama-me com ternura, 1956. Marlon Bando, em Uma rua chamada pecado, também. Marilyn Monroe em O rio das almas perdidas, de Otto Preminger, estava de jeans. James Dean, o astro rebelde do cinema americano, era tão associado ao jeans que os fabricantes passaram a utilizar sua imagem em material publicitário.

John Wayne em "No tempo das diligências" (1939), Henry Fonda em "As Vinhas da Ira" (1940) e Elvis Presley em "Ama-me com ternura" (1956) - (Fotos: Reprodução)

Marlon Brando em "Uma Rua Chamada Pecado" (1951), Marilyn Monroe em "O Rio das Almas Perdidas" (1954) e James Dean em "Juventude Transviada" (1955) - (Fotos: Reprodução)

 Na Segunda Guerra, aquelas calças de sarja grossa deixaram de ser usadas apenas no trabalho das fábricas para ganhar destaque no dia-a-dia. As mulheres que trabalhavam como operárias não só usavam roupas jeans como as mesmas roupas jeans dos homens. Descobriram rápido a praticidade daquela roupa sem grandes pretensões e de preço acessível.
 O jeans se tornou o espírito da América que estava saindo da guerra. Começavam naqueles anos as mudanças que iriam influenciar as gerações seguintes. Depois disso, as pessoas e o modo como elas se vestiam nunca mais seriam os mesmos.
 Era o princípio também de um período delirante em que se buscava um novo estilo, e o jeans era o material favorito para essa transformação.
 Não bastava usar a calça jeans; era preciso ser rebelde como ela. Aqueles tempos da moda no pós-guerra procuravam novas afirmações. E o jeans, que nada mais era do que uma roupa popular, boa para o trabalho e o lazer, começou a se transformar em elemento de estilo.

Fonte:
BARROS, Fernando de. O homem casual. São Paulo, Mandarim, 1998. p. 54-9.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

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