A origem dos brechós

Por Rafaella Britto

Mural de Diego Rivera ilustra o comércio de compra, venda e troca de artigos e manufaturas nas cidades do Império Asteca (Imagem: Reprodução)

Em tempos em que são questionadas as consequências do fast-fashion no seio da sociedade e meio-ambiente, há maior preocupação acerca do consumo desenfreado de roupas descartáveis, e cresce o interesse pelos brechós – estabelecimentos de compra e venda de produtos usados a preços acessíveis. Na atualidade, brechós tornaram-se referência para artistas, amantes de antiguidades, e adeptos de subculturas alternativas à procura de artigos originais e únicos, uma vez que, neste tipo de estabelecimento, encontram-se raridades como peças de vestuário genuinamente vintages e objetos de decoração em qualidade duradoura. Mas quando e de que maneira teria surgido este comércio?

Mercado ambulante (tianguis) na Cidade do México, 1885 (Foto: Wikipédia)

Nos países de língua inglesa, a palavra thrift (economia, poupança) designa o que, no Brasil, conhecemos como brechó, porém, ao redor do mundo, há outras palavras para designar o comércio de compra e venda de artigos usados: nos EUA, os termos comuns são flea markets (literalmente, ‘mercado de pulgas’) e charity shops (lojas de caridade). No Reino Unido, chama-se car boot sales (venda de carregadores de carro) quando o bazar é realizado ao ar livre – geralmente, em estacionamento de carros. Quando realizado em local fechado, é chamado jumble sale (bazar) ou bring and buy sale (trazer e comprar). Na Austrália, é chamado trash and treasure market (mercado de lixo e tesouro).
O editor literário norte-americano Albert LaFarge aponta que um dos eventos precursores dos flea markets chamava-se Monday Trade Days, e ocorreu pela primeira vez em Canton, Texas, no ano de 1873, para negociar compras, vendas e trocas de cavalos. Mais tarde, foram trazidas outras variedades de artigos, e a ideia espalhou-se ao redor de outras cidades dos EUA. Os bazares como ocorrem atualmente nas grandes cidades teriam sido idealizados na década de 1950 pelo colecionador de antiguidades Russell Carrell. Carrell, que, à época, era leiloeiro em Connecticut, tencionava administrar uma nova espécie de leilão ao ar livre, e acredita-se que o evento, ocorrido em 1956, seja o responsável pelo moderno padrão de flea market.

Flea Market nos Estados Unidos - Dias atuais (Foto: Reprodução)

Entretanto, antropólogos apontam as raízes do comércio de compra, venda e troca de artigos novos e seminovos na Antiguidade: no México e demais países da América Central, o bazar de artigos usados e manufaturas é chamado tianguis, palavra advinda do Nahuati (idioma do Império Asteca) ‘tiyanquiztli’ (mercado ao ar livre) e ‘tiyamiqui’ (vender).
A tradição dos tianguis remonta o período pré-Hispânico. Áreas onde existiram mercados foram identificadas nas ruínas do sítio arqueológico de El Tajín, em Veracruz (sul do México), e cidades pré-colombianas inicialmente fundadas como mercados regionais, como o município de Santiago Tianguistenco, na Cidade do México, e Chicicastenango, na Guatemala. Anteriormente a Conquista Espanhola, as tianguis eram uma das principais formas de comércio que sustentavam a economia de Tenochtitlan (Cidade do México), e os europeus buscaram manter esta tradição asteca pelos anos posteriores.

Museu Nacional de Antropologia do México - Reconstituição histórica de uma tianguis no Império Asteca (Foto: Wikipédia)

Na atualidade, o termo tianguis designa um tipo de comércio ambulante que se instala nas ruas dos centros urbanos (mais popularmente conhecido como camelô). Por este motivo, é conhecido, em alguns lugares, como ‘mercado sobre ruedas’. As tianguis permanecem em sua estrutura tradicional, especialmente nas regiões rurais, onde a economia local baseia-se na agricultura, e vendem-se variados utensílios, dentre eles, suprimentos agrícolas e manufaturas artesanais.

México - Tianguis na década de 1960 (Foto: Tianguis Tonala)

México - Tianguis na década de 1960 (Foto: Tianguis Tonala)

México - Tianguis na década de 1960 (Foto: Tianguis Tonala)

México - Tianguis na década de 1960 (Foto: Tianguis Tonala)

México - Tianguis na década de 1960 (Foto: Tianguis Tonala)

Uma vez que, em países como Bangladesh, China e Índia, o comércio de usados sustenta-se há milênios, não é possível especificar a data e local de sua origem. Porém é certo que, durante a Revolução Industrial, o capitalismo consolidou-se como sistema vigente no mundo Ocidental, o que, consequentemente, propiciou o aumento da desigualdade e ascendeu nas classes trabalhadoras a necessidade de adquirir peças a preços acessíveis. Albert LaFarge, em artigo publicado na edição de inverno da revista Today’s Flea Market, escreve: 

“Há uma concordância geral em que o termo flea market é uma tradução literal do francês marché aux puces, um bazar ao ar livre em Paris, França, que recebeu este nome depois que aqueles parasitas da ordem Siphonaptera (sanguessugas sem asas) infestaram a tapeçaria e o mobiliário antigo que estava à venda.”

Comércio ambulante em Paris - Década de 1900 (Foto: Paris Flea Market)

Bazar de peças de segunda-mão em Newcastle, Austrália - Século 19 (Foto: The Guardian)

O livro “Flea Market”, publicado na Europa pela editora Chartwell Books, descreve em sua introdução:

“No tempo do Imperador Napoleão III de França, o arquiteto imperial Hausmann fez planos para as amplas avenidas do centro de Paris (...). Os planos forçaram muitos negociantes de bens de segunda-mão a deixar suas antigas moradias; os becos e bairros pobres foram demolidos. Estes mercadores deslocados, entretanto, continuaram no direito imperturbável de venderem seus artigos no norte de Paris, em frente ao portão do Porte de Clignancourt. As primeiras tendas foram erguidas por volta de 1860. A reunião de todos esses exilados dos bairros pobres de Paris foi logo batizada de ‘marché aux puces’, que significa ‘flea market’ (mercado de pulgas), como traduzido mais tarde.”

Comércio ambulante em Paris - Século 19 (Foto: Paris Flea Market)

Mascates (vendedoras ambulantes) em Paris - Século 19 (Fotos: Paris Flea Market)

No Brasil, o termo ‘brechó’ possui origem no século XIX, devido a um mascate de nome Belchior, que vendia roupas e artigos de segunda mão no Rio de Janeiro. Décadas mais tarde, adotou-se a corruptela ‘brechó’. O estabelecimento, ainda sob o nome ‘belchior’, é mencionado no conto “Idéias do Canário”, de Machado de Assis, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 1895, e, depois, na antologia “Páginas Recolhidas”, de 1899:

“ (...)
No princípio do mês passado, — disse ele, — indo por uma rua, sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de urna loja de belchior. Nem o estrépito do cavalo e do veículo, nem a minha entrada fez levantar o dono do negócio, que cochilava ao fundo, sentado numa cadeira de abrir. Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabeça enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente não achara comprador. Não se adivinhava nele nenhuma história, como podiam ter alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas.
A loja era escura, atualhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dous cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão.”

(Trecho de “Idéias do Canário”, Machado de Assis, 1895)

O Rio de Janeiro de Machado de Assis - Século 19 (Foto: Reprodução)

Em “Idéias do Canário”, Machado descreve o impacto do personagem ao ser ‘atirado’ a loja de belchior, e sua reação de desdém ao adentrar um mundo ‘desorganizado’, ‘sujo’, oposto ao seu – organizado, limpo. Ainda pelas décadas consecutivas a publicação do conto, brechós seriam erroneamente associados às ideias de ‘pobreza’, ‘populacho’, local onde se vendem produtos de qualidade inferior a preços baixos.
No Brasil, o brechó começaria a ser consolidado como negócio somente na década de 1970, quando a cantora Maysa, inspirada pelo conhecimento deste tipo de negócio adquirido em suas viagens à Europa, fundou na rua Djalma Ulrich, em Copacabana, Rio de Janeiro, seu próprio brechó, intitulado Malé de Lixo. A musa comercializava roupas, calçados, bolsas e acessórios que foram utilizados por ela e amigos. 
Em tempos de ufania e valorização da moda nacional, o brechó foi recebido como novidade e uma agradável alternativa de consumo, porém não foi valorizado até as décadas de 1990-2000, período marcado pelo alvorecer do consumo consciente e um crescente interesse pela sustentabilidade.

Maysa em seu brechó Malé de Lixo, localizado na rua Djalma Ulrich, Copacabana, Rio de Janeiro (Foto: Revista Manequim de janeiro de 2009)

Confira, abaixo, dois comerciais do brechó nova-iorquino Ritz Fritz Shop – o primeiro, de 1969, e o segundo, de 1975: 




Maysa não foi a única artista a aderir ao negócio alternativo da venda de peças de segunda mão: a atriz e cantora norte-americana Edith Massey, que conquistou status cult nos anos 1970, após estrelar cinco filmes do cineasta John Waters (“Multiple Maniacs”, de 1970, “Pink Flamingos”, de 1972, “Female Trouble”, de 1974, “Desperate Living”, de 1977, e “Polyester”, de 1981), também possuía seu próprio brechó, chamado “Edith’s Shopping Bag”. Confira neste trecho do documentário “The Egg Lady”:


Memórias de uma brecholista

Dona Anésia Silva Lopes, 74 anos, está a mais de cinco décadas no ramo dos brechós. Começou durante a adolescência, no início da década de 1950, ajudando a irmã mais velha, Alzira, que era dona de um brechó na cidade de Ibiúna, região metropolitana de São Paulo. “Quem me deu a luz, o caminho, foi minha irmã, uma brecholista muito forte que até hoje é muito conhecida em Ibiúna. Eu me espelhei nela e continuei” – diz. Alzira era comerciante ambulante, adquiria peças novas nas feiras do Brás e 25 de março, e revendia-as nas portas das casas. Certo dia, uma japonesa, funcionária da Cooperativa Agrícola de Cotia – onde seu marido trabalhava – entregou-lhe peças usadas para vender, e assim Alzira iniciou o comércio de seminovos. Anésia acompanhou-a. “As pessoas deixavam os endereços das casas onde moravam em um bar de uma família portuguesa no Largo da Batata. Nós pegávamos os endereços nesse bar, depois íamos às casas e comprávamos as roupas direto dos moradores. A gente vendia nos bazares que tinham em salões de igreja católica, centros espíritas...”


Eu com dona Anésia em seu brechó, em Cotia, São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)

Anésia casou-se em 1959, aos 18 anos, e mudou-se para a cidade de Cotia, São Paulo. “Comecei a trazer roupas de lá do brechó da minha irmã, em Ibiúna, pra vender aqui.” A brecholista conta que, entre os anos 1950-60, havia poucos brechós em São Paulo, e os que existiam eram frequentados por moradores de classe social desfavorecida à procura de roupas a preços acessíveis. “Naquela época, muita gente desses interiores mais pobres vinha procurar roupa no meu brechó. Às vezes um rapaz que ia fazer uma entrevista de emprego e não tinha dinheiro pra comprar um bom sapato, ou então meninas que iam fazer formatura, primeira comunhão, e não tinham o que vestir. Aqui no meu brechó elas achavam de tudo, roupa boa e barata. E várias pessoas que arrebentavam sapato e não tinham dinheiro pra comprar uma havaiana vinham pra cá. Eu fui vendo que isso ajudava as pessoas necessitadas e fui ficando. Estou aqui até hoje. Sou a brecholista mais antiga de Cotia. Agora tem muito brechó por aqui, mas eu fui a primeira. Eu amo, eu gosto do que eu faço. Não é aquela coisa que dá dinheiro, mas dá pra sobreviver. Então eu acho que brechó é uma coisa de Deus.”
Dona Anésia, que já viajou a Espanha, afirma que brechós existem há bastante tempo na Europa, e que são frequentados por pessoas de todas as classes sociais interessadas em gastar menos. Porém aqui, no Brasil, ela sofreu preconceito por servir às pessoas de regiões carentes: “Hoje em São Paulo tem muito brechó chique, frequentado por artistas, advogados, médicos. Mas antigamente não era assim, brechó era muito discriminado. Eu sofri muito preconceito, falavam que eu vendia roupa de defunto, roupa brega. Já chegaram a dizer pra mim: ‘Eu tenho medo dessas roupas, acho que dá pra pegar até AIDs usando isso aí’ Todos os brecholistas sofreram preconceito naquela época, mas hoje não. Hoje todo mundo tem brechó.”
Segundo ela, brechós passaram a ser melhor valorizados na virada da década de 1970 para 80, porém, apesar da aparente estabilidade do comércio de usados, nos dias de hoje é difícil confrontar a proliferação das redes de fast-fashion nas cidades: “Hoje em dia é muita concorrência com as lojas que vendem camisetas por R$ 10,00. Por esse preço a gente vende um vestido. A gente não tem como concorrer com essas lojas de liquidação, porque elas são poderosas. Elas têm estoques, fábricas, produzem muito, sempre muito rápido, e é tudo roupa nova. Então fica difícil pra quem tem brechó, se as pessoas podem pagar R$ 10,00 numa roupa nova, por que vão pagar R$ 10,00 numa roupa seminova? E nessa crise também, as coisas ficaram mais difíceis”, diz.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

3 comentários:

  1. Sensacional! Apesar - como disse a cotiana sra. Anésia - da concorrência com as grandes lojas de roupas populares de baixo preço, o brechó tem como apelo - principalmente por atribuição de sua própria natureza - a coisa buscada no passado, na vida útil dos objetos que serviram à uma época, que desenharam, estilizaram, elaboraram, radiografaram o modo de viver e de se comportar das pessoas e do mundo num determinado instante. É o chamado do vintage, da saudade e do glamour que o passado inspira.

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  2. Ótima matéria, sempre com contextos históricos. E o comentário de Anésia, valorizou mais ainda a publicação. Parabéns!

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  3. Poca vida! Tenho um brechó também e não sabia de tudo isso! Muito interessante.. tambem amo meu brechó, não troco por nada ❤

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