José de Alencar: “A moda e a política são hoje as duas soberanas da sociedade”

Por Rafaella Britto

Uma festa em 1860 - Fotógrafo não-identificado
(Foto: Reprodução)

Dando continuidade à série de publicações do autor José de Alencar e suas análises comportamentais da moda na sociedade brasileira do século 19, apresentamos, a seguir, uma crônica de folhetim publicada em 2 de junho de 1856, no jornal Diário do Rio de Janeiro: nela, Alencar, de maneira poética, perpassa questões de gênero para, por fim, discutir as relações entre moda e política.

Neste texto foi mantida a grafia original.


VI – Folhetim: conversa com os meus leitores

 O que há de mais notável na época atual é a tendência manifesta da moda, de que vos falei segunda-feira passada.
 Essa tendência porém se revela de uma maneira bem diversa em relação ao homem e à mulher; ao passo que se estreita, se afina, se adelgaça para o primeiro, para a segunda toma proporções enormes e gigantescas.
 Pode-se, matematicamente falando, dizer que em matéria de moda o homem aspira a forma linear, e a mulher vai numa progressão espantosa para a forma circular ou esférica.
 Se quereis confirmar a veracidade deste fato, lançai os olhos de relance sobre os dois primeiros fashionables, de ambos os sexos, que passarem diante de vós.
 O cavalheiro, empertigado, esguio, apresenta todos os indícios da moda ética: as calças têm privilégios de meias, a casa afina as abas; e até o chapéu, que não sabia como esconder as suas, retorceu-as para cima, a fim de não quebrar essa graciosa uniformidade que fez do homem uma espécie de habillé.
 Quanto à moda das senhoras, esta, em vez de ser ética como as cavalheiros, é ao contrário perfeitamente hidrópica. Não falo do vestido, que os leitores sabem ser uma máquina arranjada conforme as regras da estética e da física; os cabelos formam um círculo perfeito, maior do que duas cabelas ordinárias; os bouquets gigantes dir-se-iam pequenas árvores florescentes; os leques espantariam as vantarolas de um bramina; as fitas parecem cortes de seda, de tão largas que são.
 E assim tudo vai aumentando, tudo concorre para tirar à mulher aquela graça delicada, aquele mimo encantador, que sempre foi o privilégio dessas criaturas frágeis, a quem Deus concedeu o maior poder deste mundo, a força que vem da fraqueza.
 Mas é preciso confessar que a moda ao menos é lógica nas suas criações: tendo inventado esses vestidos de balão, era natural, era até mesmo necessário que procurasse harmonizar as outras partes da toilette com as proporções da primeira.
 Com efeito, que impressão produziria uma mulher, cujo penteado, cujo rosto se tornasse um ponto imperceptível no meio de uma nuvem imensa de rendas, de veludos, de cambraias e de fitas?
 Para evitar semelhante defeito é que a moda foi puxando os cabelos das moças, deitando-lhes ora mais uma fita, ora mais um enchimento, até que chegou a conseguir que o belo oval de um rostinho gracioso desaparecesse sob essa mole ingente de cabelos, verdadeiro pagode chinês, onde os grampos, os cosméticos e as pomadas fazem o efeito do cimento e de outros materiais de construção.
 Entretanto o que a moda nunca poderá disfarçar, e harmonizar com as suas invenções modernas, é a mãozinha delicada que aparece entre as rendas de uma manga de folhos, e o pezinho mimoso que às vezes se descobre de surpresa sob a orla de um vestido: é por aí que ainda hoje em dia nos salões se reconhece a mulher, o símbolo da graça e da fragilidade.
 É natural que o leitor se recorde da fábula da rã, do bom La Fontaine; pois a moda hoje em dia não é outra cousa senão uma reprodução constante dessa fábula.
 Deus criou o homem como símbolo da força e deu-lhe formas em harmonia com a missão que lhe destinava neste mundo; fez a mulher frágil e mimosa, como os sentimentos de que a animou.
 A mulher e o homem, que sempre estiveram contentes com a sua sorte, um dia no século XIX, no século do bloomerismo, olharam para o outro; e eis que começa a fábula da rã.
 O homem, a querer imitar a mulher, começou a fazer-se esbelto, delicado, começou a dinamizar-se completamente; a mulher, a querer imitar o homem, tratou de engrandecer-se e de aumentar como um objeto ao microscópio.
 Ora, como a fábula é recíproca, não sei de que maneira acabará isto: o homem à força de afinar-se tornar-se-á um dia invisível; a mulher à força de distender-se ficará transparente.
 Então o homem e a mulher procurarão um ao outro, e não se reconhecerão; o gênero humano terá desaparecido, para dar lugar aos gêneros neutros, os únicos possíveis em tal estado de coisas.
 O que eu lamento no meio de tudo isto são os pais de família, que correm um risco tremendo guardando dentro de casa uma tal porção de matéria combustível, como sejam as fazendas de linho e sedas; porque naturalmente o seguro lhes levará o mesmo prêmio que em tempo de guerra.
 Lamento também os poetas, que estão privados das comparações clássicas da literatura romântica. Já não poderão dizer que uma moça “é esbelta como a palmeira do deserto, que se balança aos sopros da brisa fagueira da tarde”.
 A palmeira do deserto tem, quando muito, vinte ou trinta polegadas de grossura, e os vestidos atuais formam um diâmetro de dez ou doze palmos; não há portanto comparação possível entre uma e outra.
 Quanto à brisa fagueira da tarde, é outro impossível; porque um vestido elegante quando se agita produz uma viração forte, pouco mais ou menos como a que houve alguns dias.
 Portanto, se os poetas quiserem continuar a usar dessas comparações vegetais, não há remédio senão procurarem alguma árvore capaz de competir com a moda.
 Lamento ainda, e seriamente, os homens que, pensando que vão casar-se com uma mulher, acharem que se casam com um belo vestido e suas pertenças, talhado por algumas das hábeis modistas desta corte.
 Lamento os bichos da amoreira, porque no progresso em que vão as coisas, não haverá daqui a pouco seda que baste para o consumo; e os tais bichinhos serão obrigados a produzir o dobro ou triplo.
 Lamento as criadas graves, que para dobrarem um vestido de seda precisarão fazer uma viagem de uma ponta a outra, e só a custo de muito esforço realizarão esta famosa empresa.
 Lamento enfim o meu leitor, que teve de ler tudo o que escrevi; e a mim mesmo, que tive de escrever tudo o que ele acabou de ler.
 Agora é justo que da moda passemos à política, sua irmã gêmea. A moda e a política são hoje as duas soberanas da sociedade: a primeira veste o corpo, a segunda veste o espírito.
 A moda tem um cetro de agulhas, e um trono de sedas; a política tem um cetro de penas, e um trono de papel.
 A moda toma uma mulher muito feia e umas formas desjeitosas, e faz delas um belo e elegante toilette; a política toma um espírito pouco atilado e umas idéias tacanhas, e faz disto um estadista.
 Depois o toilette pavoneia-se no salão e ri-se e escarnece do corpinho gentil de uma moça que na sua singeleza apenas mostra a beleza graciosa com que a natureza a dotou; e diz, com um certo arzinho de superioridade, e com uma voz aflautada: - Meu Deus! Como isto é soberanamente ridículo!
 O estadista, do seu lado, enche-se de sua importância e da sua gravidade, e lançando um olhar de desdém para aqueles que, trabalhando com os pequenos recursos que Deus lhe deu, erram porque são homens, exclama com toda a morque: - Estes moços levianos que querem tudo saber!
 O primeiro acha ridícula a obra de Deus, porque não foi aperfeiçoada por M.me Gudin ou Barrat; o segundo nota os erros dos outros, porque não faz nada, porque cuida que o homem que tomou sobre si o encargo de trabalhar todos os dias sem descanso, de escrever sobre o joelho um artigo, cujo princípio está-se compondo enquanto o fim ainda não existe, tem o mesmo direito que ele, o estadista, o homem grave, de ruminar um ano antes de expender uma idéia!
 Tomara eu errar sempre, contanto que depois tenha a consciência do meu erro, e a vontade sincera de o corrigir! Tomara errar sempre, contanto que cada erro seja uma boa e profícua lição! Prefiro isto à inércia desses espíritos que se parecem com uma dessas mãozinhas apontadoras dos erros alheios.
 Mas isto ainda nada tem conosco; passemos adiante. Provava que a política era uma espécie de moda do espírito.
 Se a política é uma moda, deve haver entre os homens políticos, em vez de partidários, liberais ou saquaremas, homens elegantes, jarretas e indiferentes.
 Os elegantes e fashionables são os homens que trajam roupa do Dagnan, compram luvas no Wallerstein, e fumam charutos no Desmarais; isto quanto ao corpo, porque quanto ao espírito são os que trajam as idéias do ministério, e fumam com qualquer pequena oposição.
 Os indiferentes são aqueles que vestem à vontade do seu alfaiate, sem perguntar-lhe qual é a moda reinante; vivem com o tempo, e para eles pouco importa que o alfaiate corte casacas de abas finas, ou o ministério corte à larga pelas reformas; não têm o dom da elegância.
 Os jarretas amam sempre a moda anterior à moda reinante; vão atrás dos outros como dois homens que sobem uma escada, degrau por degrau; o jarreta não entra no Dagnan, nem no gabinete do ministro, ainda que o serrem; tem horror às luvas dos ministros; o jarreta é enfim uma espécie de urso político.
 Há ainda na política uma espécie mista, que também se nota nos domínios da moda: na moda é a destes homens que já passaram da idade própria da elegância, e que contudo ainda persistem em ser elegantes e fashionables; na política é a daqueles que, tendo sido jarretas, querem agora fazer-se elegantes.
 Se quereis, meu bom leitor, vamos à câmara dos deputados, e aí veremos perfeitamente os diversos tipos dessa classificação político-elegante da atualidade; e deixai-me dizer-vos uma cousa: parece-me que os dois lados característicos acham-se tão bem combinados, que bastará uma vista de olhos sobre a moda da roupa, para conhecer a moda do espírito.
 Depois de tão longa maçada, não tenho ânimo de falar-vos do teatro Lírico: podeis tomar como continuação ou segunda parte da primeira.
 Quanto aos outros teatros, não vos faltam notícias deles; e se as quereis mais completas, o melhor conselho que vos posso dar é de as ir buscar pessoalmente.
 Ganhais com isto três coisas: a primeira é não serdes iludidos senão uma vez, o que é pouco; a segunda é animar a arte dramática; a terceira é concorrerdes com o vosso contingente para a circulação dos capitais, o que sabeis é um princípio econômico.
 Fala-se já muito em regatas, porém, ainda nenhuma palavra ouvimos a respeito do prado, que sempre foi costume abrir-se em junho ou julho. Que faz a sociedade do Jockey Club Fluminense? Pretenderá deixar-nos este ano sem corrida?
 Antes de ontem cantou-se ainda uma vez o Trovador em benefício do Asilo de Santa Teresa. Em tempo de chuva parece que a caridade resfria-se e constipa-se, e é naturalmente este o motivo por que o teatro esteve tão despido naquela noite.
 Os bailes de beneficência são quase sempre mais proveitosos do que os teatros; mesmo porque esta espécie de casas ou barracas têm mais necessidade de beneficiar-se a si, para poder beneficiar o próximo.
 Não sei por que, assim como a França e Portugal dão seus bailes de beneficência, a Inglaterra, a Alemanha, a Espanha, a Suíça, a Itália, e finalmente os Chins, não dão os seus saraus de beneficência.
 Teríamos dez ou doze bailes, e entre eles um baile chim, um baile colonizador, que deve ser curioso ou original.
 Antes que diga mais despropósitos, meu leitor, tomo o bom partido de despedir-me à francesa.
 Até logo.

Diário do Rio de Janeiro, 2/jun./1856

Fonte:

Folha de S. Paulo - Coleção Crônicas Escolhidas - José de Alencar; Editora Ática S.A - São Paulo - 1995.

Leia também:

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

Um comentário:

  1. Nossa que post espetacular!!!! fiquei pensando agora com dó do pobres poetas, a mulher naõ precisa perder a delicadeza pra ser forte não é? nem o homem precisa se afeminar para ser fino e elegante, muito interessante fiquei até com vontade de ler o livro.

    Beijos http://www.angelimcosmeticos.com.br/

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