A influência de Serge Gainsbourg na moda

Por Rafaella Britto

(Foto: Reprodução)

Ele era feio. Franzino, orelhudo, alcoólatra, fumante inveterado, e se autointitulava “cabeça de repolho”. “Eu tenho o que as pessoas chamam de um rosto não atraente” – disse em entrevista concedida à televisão francesa em 1969. O site norte-americano Complex, especializado em cultura pop, listou-o em primeiro lugar entre os “10 ícones de estilo mais feios”. Entretanto, o músico Serge Gainsbourg ensina que o estilo transcende a beleza: exímio poeta erótico, considerado um dos maiores sedutores da história, Gainsbourg teve a seus pés as mais belas mulheres de seu tempo, de Brigitte Bardot a Jane Birkin, e protagonizou a revolução sexual da década de 1970. 

Marianne Faithfull, que conhecera Serge em 1965, disse: “Eu na verdade nunca tive uma relação com ele. Mas às vezes eu queria ter. Você podia dizer que qualquer mulher que tivesse dormido com ele ia embora plenamente satisfeita. Ha ha! Ele exalava uma aura maravilhosa de confiança e tranquilidade, e ao mesmo tempo uma estranha mistura de timidez e arrogância”.

Serge Gainsbourg é considerado tesouro nacional francês: nascido em Paris, em 2 de abril de 1928, filho de judeus russos fugidos da revolução de 1917, foi introduzido à música através do pai pianista, que tocava em clubes da cidade. Sua extensa obra abarca do gênero popular às distorções psicodélicas, e teve canções interpretadas por nomes como Juliette Gréco, Françoise Hardy, France Gall, Jacques Dutronc, Anna Karina, Catherine Deneuve, Vanessa Paradis, Isabelle Adjani e Alain Bashung. 

O romantismo masculino e boêmio, que fala de mulheres, álcool, café e cigarros, exerce influência definitiva na música contemporânea. “Sempre ouvi esses artistas, assim como Gainsbourg; eles entram no meu trabalho de um jeito muito natural”, disse o cantor Thiago Pethit ao site O Globo. A vida e obra do músico francês foi narrada no premiado filme de Joann Sfar, “Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres”, lançado em 2010, e estrelando Eric Elmosnino no papel principal, Lucy Gordon como Jane Birkin e Laetitia Casta como Brigitte Bardot.  

(Foto: Reprodução)

Primeiros anos

Os primeiros anos da carreira de Serge Gainsbourg, marcados pelos lançamentos dos álbuns “Du Chant à la Lune!” (1958) e “N°2” (1959), apresentam-nos um jovem de aparência sutilmente asseada. Distante do sarcasmo e despojamento que marcariam seu estilo nos anos posteriores, Gainsbourg, em fins da década de 1950, fazia o típico compositor popular do jazz francês, intérprete das chansons de atmosfera cabaré de Charles Aznavour – terno italiano e lenço na lapela.



Em 1966, Serge emerge com fama no cenário musical ao ter sua canção de iê-iê-iê “Les Sucettes” como hit na voz da jovem cantora France Gall. “Les Sucettes” conta a história de Annie, uma menina que gosta de pirulitos com sabor de anis. A inocente Gall, então com 18 anos, gravou a canção sem jamais ter se dado conta de seu duplo sentido ou que se tratava de uma “música sacana”. “Les Sucettes” (em francês, “Os Pirulitos”) não tratava propriamente de pirulitos, mas fazia referência explícita ao sexo oral. Somente anos mais tarde Gall descobriria e ficaria “mortificada, se escondendo durante semanas, se recusando a ver qualquer pessoa”. A cantora disse que cantava as músicas de Gainsbourg “com uma inocência da qual me orgulho. Foi doloroso saber que ele tomou a situação em vantagem própria, zombando de mim”.

Nos anos de 1960, Serge desabotoa as camisas e gradualmente abandona o esmero dos ternos bem-passados.

(Foto: Reprodução)

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Serge Gainsbourg e France Gall, 1966
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Brigitte Bardot

Gainsbourg fora, até então, casado por duas vezes: a primeira em 1951, aos 23 anos, com a estudante de arte Elisabeth Letivsky, e em 1964, com Françoise Pancrazzi, com quem teve um filho. Foi durante o casamento com Pancrazzi que Serge envolveu-se em seu primeiro affair de notoriedade midiática, com Brigitte Bardot. Bardot, aos 34 anos, era a mulher mais desejada da época. A musa transitava do cinema para a música, e Serge ofereceu-se como compositor. O caso de amor foi rápido, mas juntos compuseram algumas canções famosas, como a clássica “Je T’Aime... Moi Non Plus”, e gravaram, ainda, hits como “Bonnie & Clyde” e “Initials BB”. Serge consolidou-se como um tipo 'improvável' de sex symbol.

Brigitte Bardot e Serge Gainsbourg no videoclipe de "Bonnie & Clyde", uma das faixas gravadas em dueto enquanto estiveram juntos
(Foto: Reprodução)

Jane Birkin

Durante as filmagens do filme “Slogan”, de 1969, Serge encontrou-se pela primeira vez com aquela que viria a ser sua terceira esposa e com quem desenvolveria sua mais sólida parceria: a modelo e atriz inglesa Jane Birkin, 18 anos mais jovem. Birkin divorciara-se recentemente de seu primeiro marido, o maestro e compositor John Barry, e apaixonou-se por Serge: “Ele era uma companhia hipnotizante”, disse a modelo. “Seu talento e timidez pareciam exigir afeição”. Algum tempo antes, Birkin havia escandalizado em “Blow Up”, de Michelangelo Antonioni, em uma das primeiras cenas de nu frontal da história do cinema.

O relacionamento entre Serge e Birkin não foi controverso até o lançamento de “Je T’Aime... Moi Non Plus” (que Brigitte se recusara a gravar por receio de polêmicas e problemas com seu então marido, o milionário alemão Gunter Sachs, devido ao conteúdo erótico da canção). A música, um diálogo entre dois amantes, cantada em sussurros, contém gemidos de orgasmo simulados por Birkin, e tornou-se símbolo da revolução sexual. “Je T’aime...” foi proibida em países como Brasil, Portugal, Espanha, Polônia, Itália, Islândia, Reino Unido, Suécia e Iugoslávia, além de ser declarada pelo Vaticano como ‘ofensiva’.

A década de 1970 traz um Serge boho, rock ‘n’ roll e experimental.



Serge Gainsbourg e Jane Birkin tornaram-se o terror das famílias conservadoras: despojados e audaciosos, exploravam as sexualidades alternativas e frequentemente estrelavam campanhas e editoriais de renomadas grifes como Paco Rabanne. A união com Birkin marca, também, o período mais criativo da carreira do músico: em 1971, é lançada sua obra-prima, o álbum-conceito de rock psicodélico “L’Histoire de Melody Nelson”. A narrativa do álbum, inspirada no livro “Lolita”, de Vladmir Nabokov, percorre os encontros de um homem mais velho com uma ninfeta de nome Melody Nelson, vivida por Jane. A modelo, de silhueta andrógena, longilínea, e beleza despretensiosa e natural, é a personificação do arquétipo Lolita na moda e comportamento.

Da união entre Serge e Jane nasceu uma filha, Charlotte Gainsbourg (atual musa de Lars Von Trier). O casal ainda adotou a primeira filha de Birkin, Kate Barry, fruto de seu casamento anterior com John Barry.


Serge Gainsbourg e Jane Birkin vestem Paco Rabanne
(Foto: Reprodução)


Serge Gainsbourg e Jane Birkin vestem Paco Rabanne
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Anos finais

Em fins da década de 1970, Serge, consolidado por sua fama mundial, viaja a Kingston, Jamaica, e se une a importantes músicos jamaicanos para a gravação do álbum reggae “Aux Armes et Caetera”. O disco, lançado em 1979, foi uma das primeiras manifestações do reggae na música francesa, e vendeu mais de um milhão de cópias.

Serge não escapou às controvérsias: a canção que dá título ao álbum, “Aux Armes et Caetera”, uma adaptação da Marselhesa (hino nacional francês), foi considerada pela imprensa como uma afronta à República. Segundo o jornalista Michel Droit, do Le Figaro, o músico estaria alimentando o antissemitismo por “tentar fazer dinheiro com o hino nacional”.  

O Serge reggaeiro, já de cabelos brancos, escolheu os jeans e tênis, combinados à clássica camiseta branca de aspecto encardido.


Serge Gainsbourg na Jamaica, 1979
(Foto: Reprodução)

Serge Gainsbourg na Jamaica, 1979
(Foto: Reprodução)

Gainsbourg ajustou-se a mudança dos tempos e ao advento dos sintetizadores na música pop: em 1985, em dueto com a filha Charlotte Gainsbourg, lançou o álbum “Lemon Incest” (também conhecido como “Charlotte For Ever”), cuja temática gerou acusações de incesto e pedofilia, pois Charlotte, então com 13 anos, canta de maneira ambígua, o que leva a crer que se trata de um relacionamento amoroso entre um adulto e uma criança. Charlotte e Serge negaram as acusações.


Charlotte Gainsbourg e Serge Gainsbourg, 1985
(Foto: Reprodução)

Após 13 anos, o casamento entre Gainsbourg e Jane Birkin encerrou-se de maneira trágica em 1980, devido ao alcoolismo do músico. “Ele ficou insuportável, tão bêbado e tão difícil!”, disse ela. “Ele chegava às 4 horas da manhã, sempre tão bêbado que não conseguia nem ao menos pegar a chave na porta da frente”.
Após o divórcio, Birkin casou-se com o cineasta Jacques Doillon. Rumores afirmam que Serge estaria envolvido com Catherine Deneuve. Entretanto, é certo que, até sua morte, em 1991, esteve em um último relacionamento, este com a modelo Caroline Paulus, conhecida pelo nome Bambou.


Serge Gainsbourg e a modelo Caroline Paulus, 1990
(Foto: Reprodução)

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

2 comentários:

  1. Que post maravilhoso *-*
    As imagens, sua maneira de falar sobre o Serge ♥ Adorei, de verdade.
    Seus posts sempre são um deleite!

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    1. Fico imensamente feliz que goste dos meus textos, Gabi. Muito obrigada!

      Beijos! ♥

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