Folies Bergère, o esplendor da folia parisiense

Por Rafaella Britto

Caroline Otero
Foto: Reutlinger

Localizado no número 32 da Rue Richer, o cabaré Folies Bergére, em Paris, é palco da história dos espetáculos burlescos: ao longo de décadas como símbolo do entretenimento popular, revelou artistas cujo encanto permeou o imaginário de gerações.


Interior do Folies Bergère - ca. 1900s
Foto: Reprodução

O Folies Bergère foi o primeiro café-concerto inaugurado em Paris, inspirado pelo teatro londrino Alhambra. Foi projetado pelo arquiteto Plumeret, em princípio, como casa de ópera, e inaugurado em 2 de maio de 1869 sob o nome Folies Trévise, pois situava-se na esquina da Rue Richer com a Rue de Trévise. O Duque de Trévise, entretanto, não permitiu ter seu nome estampado em um local de má reputação. A casa, então, apropriou-se do nome da Rue Bergère, situada a uma quadra de distância. A palavra Folies, do latim, “foliae”, teve seu significado original, “folha”, modificado para “field” (em inglês, campo). Assim sendo, atribui-se ao nome Folies Bergère o significado de “entretenimento popular a céu aberto”. À época de sua inauguração, o custo de entrada foi de 2 francos para assentos não reservados. Nos primeiros anos, os números consistiam em operetas, acrobacias, pantomimas, cançonetas populares e comédias.

Foto: Reprodução

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Em novembro de 1871, após sucessivas interrupções causadas pela Guerra Franco-Prussiana, o cabaré teve seu auditório reformado por Leon Sari, que dedicou-se, também, à instalação de um jardim com fonte central. Em 1886, o diretor artístico Édouard Marchand revolucionou o conceito de gênero popular, e introduziu aos palcos do cabaré lendárias atrizes e cantoras como Mistinguett, à época, a vedete mais bem paga do mundo, a mítica e grandiosa "femme fatale" holandesa Mata Hari, fuzilada durante a Primeira Guerra Mundial, acusada de espionagem, a dançarina norte-americana Loie Fuller, criadora da “serpentine dance”, e pioneira da dança moderna, e a francesa Cléo de Merode, musa de Gustav Klimt.

Mata Hari e Cléo de Merode
Foto: Reprodução

A consagração mundial do cabaré viria em 1881, ao ser retratado na pintura impressionista “Le Bar de Folies Bergère”. O quadro, símbolo da moderna vida parisiense, foi a última obra-prima de Édouard Manet: nele, a balconista do café-concerto, Suzon, posa como modelo; sobre o balcão, têm-se uma das mais célebres naturezas-mortas da história da arte, e, ao fundo, um enorme espelho reflete a multidão.

"Le Bar de Folies Bergère" - Édouard Manet - 1881
Foto: Reprodução

A espanhola Caroline Otero, famosa dançarina e cortesã da Belle Époque, consolidou-se no Folies Bergère como a “sereia dos suicídios”, seduzindo reis e aristocratas como Leopoldo II da Bélgica e Eduardo VII do Reino Unido. Caroline Otero apresentava-se com seu número “La Belle Otero” vestida em trajes de decotes avantajados e joias de valor inestimável - algumas pertencentes à Imperatriz Eugênia de Montijo.

Caroline Otero
Foto: Reprodução

Porém somente a partir de 1918, sob a direção de Paul Derval, a companhia incorporou aos palcos trajes exóticos, espetáculos extravagantes entremeados de efeitos especiais, e “pequenas mulheres nuas”. Josephine Baker, a “Vênus Negra”, causou frenesi ao exibir-se vestida em sua saia de bananas artificiais no número de revista "La Folie du Jour".

Josephine Baker no número de revista La Folie du Jour
Foto: Reprodução

O impacto cultural do Folies Bergère refletiu-se, para além das artes plásticas, no cinema: um dos mais rememorados momentos do premiado filme “Wings” (no Brasil, "Asas"), de 1928, estrelado por Clara Bow e Buddy Rogers, é ambientado no café-concerto parisiense.
Em vista de interesses em voga, tais como o orientalismo e a ideologia racial, os espetáculos apropriavam-se de elementos culturais universais. No palco do Folies Bergère, desfilavam os gloriosos modelos artísticos do estilista e ilustrador francês Ertè. Ertè é reconhecido por seus designs vanguardistas influenciados pela Art-Déco.

Designs de Ertè
Foto: Reprodução

A nudez das artistas, em performances recheadas de erotismo, caiu no gosto do público. Ao estabelecimento, dirigiam-se curiosos, poetas, artistas e intelectuais, no intuito de presenciar o espetáculo da antropologia social, em um local onde a estrita moral burguesa não exercia influência comportamental.

“O esplendor de Paris é condensado e enche o ar neste ambiente caloroso e perfumado; mas compreende-se, assim, que este lugar de deleite, um teatro, um café, um jardim, foi também criado tendo em mente a aglomeração cosmopolita... É uma espécie de paraíso maometano temperado ao gosto Parisiense, e encontra-se transplantado a dois passos da Avenida Montmartre. O hindu faz amizade com o escandinavo; o inglês, com o fidalgo; o italiano, o alemão, o russo e o turco convivem ali em perfeito entendimento. Uma alegria miscigenada os une; não há lugar para a diplomacia – politicos não encontram maneira de lançar seu apelo à discórdia. Todos compreendem a linguagem universal falada no Folies Bergère, porque é a linguagem do prazer... por todo canto há condes seduzidos pelo charme das garçonetes, cujos olhares astutos e sorrisos graciosos atraem multidões de clientes.”

(Trecho de exemplar da revista francesa La Vie Parisienne, fundada em Paris em 1863, e publicada até 1970 – Tradução livre)

Folies Bergère nos dias atuais
Foto: Reprodução

O Folies Bergére, em nossos dias, mantém-se como casa de espetáculos, preservando-se na memória romântica do mito popular. No site oficial, é possível desfrutar do esplendor de seus séculos de história através de textos e visita virtual.

Fontes:

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

6 comentários:

  1. Dei uma olhada e hoje tem de tudo nas atrações. Já tive a oportunidade de conhecer a França, mas ainda faltaram tantos lugares para visitar.
    Achei interessante sobre as dançarinas, especialmente a que foi fuzilada. Vou pesquisar mais.

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    1. É verdade, Lais, hoje tem de tudo - até Fiona Apple já tocou por lá, se não estou enganada. Espero realizar o sonho de conhecer a França em breve, e uma visita ao Folies Bergère está no meu roteiro de passeios indispensáveis. Mata Hari era grandiosa, tenho certeza que você vai adorar saber mais sobre ela.

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  2. <3 Eu morro de vontade de visitar a França e conhecer esses lugares.Essas casas de espetáculos são tudo de bom.A musa de Klimt eu já conhecia, mas vou procurar sobre as outras *-*

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    1. São lugares maravilhosos. Você vai adorar conhecer as dançarinas da Belle Époque, Gabi. <3

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  3. Quanta roupa linda e enfeitada! Belíssimo post!

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