Lia Torá e Olympio Guilherme, brasileiros na Era de Ouro de Hollywood

Por Rafaella Britto

Lia Torá
(Foto: Reprodução)

Desde os primórdios do cinema, Hollywood desponta como império de belezas que permeiam o imaginário popular universal. Hollywood alimentou sonhos de juventude mundo afora. E mundo afora, jovens embarcaram nestes sonhos. Alguns destes jovens permanecem na obscuridade, e somente a investigação minuciosa é capaz de trazê-los novamente à luz. Dois deles são brasileiros, e chamam-se Lia Torá e Olympio Guilherme.
Os primeiros brasileiros em Hollywood experimentaram as delícias e, sobretudo, as dores por trás do glamour da indústria cinematográfica.

(Foto: Reprodução)

Ao longo dos anos, criaram-se mitos acerca dos primeiros brasileiros em Hollywood. Estudiosos como Ruy Castro, entretanto, afirmam que Lia Torá e Olympio Guilherme, foram, na verdade, vítimas de uma farsa arquitetada pela Fox Films, que via no ato de promover concursos uma eficaz ferramenta de vendas. Jamais houve interesse na promoção desses dois jovens e, em dado momento, Hollywood “jogou-os fora”. Lia Torá e Olympio Guilherme, são, respectivamente, a primeira brasileira a abrir estúdio em Hollywood, e o responsável pela primeira produção neorrealista brasileira.

Lia Torá em revista americana
(Foto: Reprodução)

A história de Lia Torá inicia-se no bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro, em 12 de maio de 1907. Nascida Horácia Corrêa D’Avilla, filha de mãe espanhola e pai português, viveu parte de sua infância no Rio, e logo após foi enviada a Academia de Dança de Barcelona. Aos 18 anos, retornou ao Brasil, e tornou-se notável dançarina na Companhia de Revistas Velasco.
Em fins de 1924, conheceu o corredor automobilístico Júlio Moraes, imigrante português, herdeiro de fortunas, 26 anos mais velho, casado e pai de um filho. Apaixonaram-se e casaram. Em 1925, nasceram os gêmeos Mário Júlio e Júlio Mário.

(Foto: Reprodução)



Lia Torá encantava por sua beleza fotogênica, de pele alva e cabelos escuros. Júlio Moraes era contrário aos sonhos da esposa em tornar-se atriz. Ainda assim, Lia adquiriu uma câmera e passou a produzir filmagens caseiras.
Em 1927, foi noticiado que a Fox Films, de passagem pelo Brasil, promoveria o concurso “Beleza Fotogênica Feminina Varonil”, no intuito de descobrir novos rostos para integrarem o elenco da cinematografia hollywoodiana. Dentre as concorrentes desclassificadas pelo júri, estavam Carmen Miranda (que, posteriormente, seria consagrada como um dos mais importantes símbolos brasileiros do século XX) e Pagu (poetisa, escritora, jornalista, e a primeira mulher a ser presa por razões políticas no Brasil).
Lia Torá venceu em seguida de uma das atrizes precursoras do cinema brasileiro, Eva Nil. A produtora, entretanto, utilizou como um dos critérios de avaliação a nacionalidade das concorrentes. Buscavam por uma atriz de nacionalidade genuinamente brasileira, e Eva Nil havia nascido no Egito.
A Fox procurava, também, por um representante masculino da beleza brasileira nos EUA. Ao lado de Lia Torá, venceu o jornalista de Bragança Paulista, Olympio Guilherme, então com 22 anos. Diferentemente de Lia, que tinha considerável experiência nos palcos, Olympio não tinha experiência alguma como artista, mas despertava interesse por seu tipo físico de “Latin lover”.
Os new faces da Fox chegaram a Nova York em setembro do mesmo ano, e partiram no trem para Los Angeles. Em carta publicada pela revista Ilustração Paranaense, Lia descreve suas primeiras impressões dos EUA:

"Chegamos a 19 de Outubro em Hollywood, depois de quatro dias e meio de trem. Estamos todos cansados desta viagem, feita toda ela sem descanso" (...) "A Olive Borden é minha amiga, e eu estou até aprendendo inglês com ela. Todos os artistas são muito simpáticos, bons camaradas, e cada quinze dias dão uma reunião onde se reúnem todos (...) Não vou dizer a idade de todos os artistas que já vi, pois se tem cada decepção (...) eu falo assim para me dar ao "potin" de dizer que já estou familiarizada com as estrelas do meu tempo de fã..."

O primeiro trabalho de Lia Torá em Hollywood foi no curta-metragem “The Low Neck”, ainda em 1927. No ano seguinte, estrelou curtos papéis em filmes como “Dry Martini” e “Street Angel”. Seu papel de maior destaque foi no filme “The Veiled Woman” ("A mulher enigma"), de 1929, contracenando com Bela Lugósi.

O astro Bela Lugósi e Lia Torá em "A Mulher Enigma" (The Veiled Woman), de 1929, dirigido por Emmett J. Flyn
(Foto: Reprodução)

Com a chegada do cinema falado, sua curta carreira foi desfavorecida, pois dominava com fluência o espanhol e o francês, mas pouco falava inglês. Findo o contrato com a Fox, Lia, ao lado do marido, fundou sua própria companhia cinematográfica em Hollywood, a Brasilian Southern Cross Productions, trazendo técnicos da Tec-Art Studios. O primeiro projeto da companhia foi “Mary, the Beautiful” (o título pode ter sido mudado, mais tarde, para “Soul of a Peasant”) com Júlio Moraes na direção e Lia Torá no papel principal. Mas depois deste filme inicial, a companhia pouco produziu.
Em 1931, trabalhou na Universal Studios, no filme “Don Juan Diplomático”, e retornou a Fox para uma participação na versão em língua espanhola do filme “Charlie Chan Carries On (Eran Trece)”.


Frustrada, Lia Torá pôs um ponto final a sua carreira cinematográfica em 1932. Ao retornar ao Brasil, passa a compartilhar com o marido da paixão pelas corridas automobilísticas e chega a integrar o Circuito Gávea, no Rio de Janeiro. Após quatro anos na indústria do entretenimento automobilístico, abandona a carreira acusada de ser cúmplice na conspiração nazi-fascista que pretendia a derrubada do governo do presidente Getúlio Vargas. O Tribunal de Segurança Nacional acusou a ela e a Júlio Moraes de participação no Levante Integralista de 11 de maio de 1938.

Lia Torá em "Don Juan Diplomático" (1931)
(Foto: Reprodução)

Júlio Moraes continuou a correr até 1941. Faleceu em 1956, aos 75 anos de idade. Lia Torá faleceu em 1972, aos 65. Um ano antes de sua morte, teve uma aparição de segundos no filme “As Confissões de Frei Abóbora”, com Tarcísio Meira. Ela aparece como mãe da personagem Paula, interpretada por Norma Bengell, e conserva ainda traços da “beleza varonil” que quase a transformou em estrela de sucesso.

(Foto: Reprodução)

A carreira cinematográfica de Lia Torá fracassou, mas a de Olympio Guilherme permaneceu durante muito tempo sob o mito do ideal de beleza bragantino. Jornalista, Olympio mudou-se de Bragança Paulista para São Paulo aos 22 anos. Trabalhou no jornal Correio Paulistano e logo, por sua beleza, foi vencedor do concurso promovido pela Fox e contemplado com a oportunidade de uma carreira nos estúdios americanos.


Olympio Guilherme em notícia de jornal da década de 20 (Foto: Reprodução/Arquivo Cidade de Bragança)


Na página 67 do livro “Carmen – Uma Biografia” (livro sobre a vida de Carmen Miranda, Companhia das Letras, 2005), o autor Ruy Castro relata:

“O destino de Olympio Guilherme, que esperava se tornar o Valentino de sua geração, foi ainda mais terrível [que o de Lia Torá]. A exemplo do que fizera com Lia, a Fox o recebeu festivamente em Hollywood e o fotografou ao lado dos astros do estúdio, como se ele fizesse parte da turma. As fotos saíram no Brasil. Mas, assim que o fotógrafo terminou o serviço, os astros lhe deram as costas e ele nunca mais os viu. Era só uma encenação. A Fox o mandou ficar em casa esperando ser chamado.
Nas poucas vezes em que o estúdio o solicitou, era para aparecer de costas ou de longe em algum filme bobo. Com seu salário de figurante, Olympio passou fome em Hollywood – que ele depois descreveria como a fome sórdida, sem poesia, esfarrapada e trágica, de cidades como Londres, Paris e Chicago, a fome típica de Hollywood, ‘que se barbeia duas vezes por dia, a fome dandy, que sorri e passeia pelo Sunset Boulevard à tardinha, com uma flor na lapela.”

Reportagem publicada na revista Manchete após a morte de Olympio Guilherme, nos anos 1970
(Foto: Reprodução/Arquivo Cidade de Bragança)

Observando técnicas do estúdio da Fox, Olympio aprendeu a fazer cinema. Permaneceu em Hollywood e, com o parco dinheiro que economizou, produziu seu único filme: “Fome”, de 1929, uma obra semiautobiográfica, filmada aos moldes de um documentário. A obra mostra o dia-a-dia de indigentes e andarilhos no submundo de Hollywood, e a luta de um ator latino-americano pela sobrevivência. É o primeiro filme neorrealista brasileiro, visto por poucos, fracasso de público e crítica.
Após retornar ao Brasil, Olympio, em necessidades financeiras, foi empregado no Departamento de Imprensa (DIP) de Getúlio Vargas e, sob ordens do governo, iniciou uma dura perseguição aos jornais contrários ao regime. Sempre inspirado pelos desencantos de sua vida pessoal, escreveu ainda um romance, “Hollywood”, onde defende o retorno às “formas puras” da arte e critica ferrenhamente os primórdios da industrialização cinematográfica. Faleceu na década de 1970.

    
Referências:

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e comportamento.

Um comentário:

  1. Maravilhoso esse post!
    Infelizmente como eu falei, a indústria cinematográfica se volta demasiadamente para o mundo ''branco''.E o pior é que ainda hoje nós podemos perceber que esses esteriótipos construídos no passados permanecem no imaginário de alguns diretores.

    É um processo gradual desconstruir essas questões, particularmente não sei se vou viver tempo suficiente para ver essa revolução, porém eu espero profundamente que algumas representações sejam postas de lado.

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