“A moda brasileira é uma crise de identidade constante”, diz a coolhunter Sana Skull




Por Rafaella Britto – 


Longe das tendências, a alternative coolhunter e historiadora de moda Sana Skull (nome pelo qual é conhecida na web desde 2001) analisa a moda em seus diversos contextos: é formada em Design de Moda, e mantém os blogs Moda de Subculturas, pioneiro no segmento de moda alternativa no Brasil, e História da Moda, dedicado à pesquisa histórica. É especializada em Moulage e Modelagem Feminina, embaixadora brasileira da marca alemã Queen Of Darkness, e integra a equipe organizadora do evento Picnic Vitoriano em São Paulo.
Nesta entrevista, conversamos sobre as subculturas universais, criatividade, passado, presente e futuro da moda brasileira. Sana chama a atenção para a importância da compreensão histórica da moda e questiona: “Como desconstruir o que já existe?” Para ela, temos ainda muito a aprender, pois “a moda brasileira é uma crise de identidade constante”.

(Foto: Reprodução)


Império Retrô - O que é a moda?

Sana - Moda vem do latim “modus”. Significa modo, maneira e comportamento. É a ligação entre o vestuário e o período histórico em que vivemos, assim como é a tendência de consumo da atualidade.

Império Retrô - O que caracteriza a moda alternativa? Qual foi o marco inicial do vestuário alternativo na história?

Sana - A moda alternativa se caracteriza por estilos que se diferenciam da moda que está sendo consumida pela massa. Podemos dizer que, em termos de comércio, como conhecemos hoje, o marco inicial foi no fim dos anos 1970. Mas quanto mais estudo moda alternativa, mais percebo que existiram muitos estilos alternativos nos séculos passados. Os Macaronis e as Merveilleuses são exemplos. Acredito que tenham existido pessoas que, de certa forma, fugiam do padrão estético de suas épocas.

As estéticas Macaroni e Marveilleuse - (Foto: Reprodução)

Império Retrô - Como está, na atualidade, o mercado brasileiro de moda alternativa?

Sana - Tenho notado um crescimento nos últimos anos com lojas apresentando peças com muita qualidade. Nós estamos aos poucos saindo da zona underground e amadora e partindo para o profissionalismo. Muitas peças de lojas alternativas me surpreendem por ter tanta qualidade quanto as peças de renomadas grifes nacionais. Mas boa parte do mercado ainda é amador, com muita cópia, peças com pouca qualidade (adolescentes tendem a não se importar com qualidade contanto que a peça seja diferenciada), pouca diversidade, muitas empresas ainda sem registro devido aos impostos, além da difícil burocracia, pra quem quer abrir uma pequena empresa aqui no Brasil.

Império Retrô - Quais países são os principais lançadores de tendências alternativas no mundo?

Sana - Japão, Alemanha, Inglaterra e EUA. Não apenas por terem um mercado profissional há mais de 30 anos, mas porque eles são adaptados ao mercado de consumo e parecem ter menos medo de ousar e criar coisas fora do padrão.

(Foto: Reprodução)

Império Retrô - Paralelamente à pesquisa de tendências alternativas, você desenvolve o trabalho de pesquisa histórica do vestuário em outro blog, o História da Moda. Qual é a importância da compreensão histórica da indumentária?

Sana - A importância é imensa. A história da moda costuma ser tratada com pouca importância nas faculdades do Brasil que insistem em focar somente na criação. Mas como criar sem o aluno saber de onde vieram as roupas, sem uma base histórica do que já foi feito e porquê foi feito? Como desconstruir o que já existe? Os educadores precisam ir além de Karl Köhler (autor de "História do Vestuário") e buscar publicações de leitura mais fácil e envolvente ao aluno, de preferência com muito apelo visual. No Brasil, o profundo conhecimento de história da moda está, infelizmente, nas mãos de poucas pessoas devido ao acesso limitado que temos a publicações, exposições e eventos internacionais. Não deixa de ser elitista, pois os poucos cursos que aparecem tem um valor elevado para estudantes, assim como os livros, que precisam ser importados. A divulgação de conhecimento não pode mais ser restrita a tão poucas pessoas. E é aí que os blogs entram como uma ferramenta educativa acessível de informação para todos. Moda alternativa e subculturas são áreas menosprezadas em livros História da Moda e até por professores, e esse desdém se revelou um grande erro, pois hoje em dia é a Moda Alternativa que lança muitas das tendências que estarão nas lojas em alguns anos. E é justamente o alternativo e subcultural que usa muita referência de história da moda em suas roupas. Chega a ser interessante como membros da subcultura gótica podem entender mais de história da moda do que um aluno regular do curso de Moda.

(Foto: Reprodução)

Império Retrô - Por que a pesquisa histórica de moda volta seus olhares, principalmente, para a Europa?

Sana - No caso do blog foi uma escolha pessoal estudar primeiramente a história da moda no Ocidente. Notei uma carência de artigos sobre o tema em português quando criei o blog. Abordar a história da moda do mundo todo no blog é só uma questão de tempo. Como vivemos no Ocidente e nosso mercado de consumo é baseado no modo de vida ocidental, acaba que o estudo da moda histórica europeia se torna fundamental pra entender o que a moda ocidental é hoje e de onde ela veio.

Império Retrô - Um dos artigos publicados recentemente no HdM traça um panorama histórico-social da roupa como ferramenta política para as sufragistas, entre os séculos 19 e 20. Em que período da História a Moda perdeu o seu sentido ideológico, se consolidando definitivamente como indústria?

Sana - Acredito que a partir da década de 1970. E as subculturas alternativas tiveram influencia nisso, pois depois dos hippies e do niilismo punk, as modas deixaram de ser movimentos sociais, perderam as ideologias e se tornaram um fenômeno recreativo. Sendo a moda apenas recreação, se torna indústria.

Cholas - (Foto: Reprodução)

Império Retrô - Qual é o impacto dos blogs de moda?

Sana - Moda é comércio e os blogs se revelaram um meio de promover essa indústria através de um marketing barato para as empresas, e que chega muito rapidamente ao público alvo. As blogueiras tem algo que as revistas de moda não têm, que é o contato diário e direto com o leitor, criando uma proximidade e até amizades. Assim, os blogs se tornaram o veículo que comunica ou que cria esses desejos de consumo no leitor. Em contrapartida, alguns blogs focam apenas no lado efêmero da moda, ajudando a manter um certo estereótipo, preconceito e glamourização a respeito da Moda como profissão, e nem sempre há uma analise critica das coleções, porque criou-se a mentalidade de que isso não importa ao leitor. Algumas blogueiras não podem criticar produtos porque "se queimam", então as empresas se colocam numa situação de poder sobre elas, ao mesmo tempo em que garotas criam blogs com o intuito de receber produtos. Se antes as meninas sonhavam em ser modelos, hoje elas querem ser blogueiras por causa da aura glamourizada da atividade.

Império Retrô - O século 21 é barroco ou minimalista?

Sana - Ao mesmo tempo em que a moda caminha para uma tentativa de minimalismo no conceito clássico de elegância (menos é mais) e consumo, existem aqueles que ainda celebram a Moda como autoexpressão artística, sem medo da ousadia e do excesso. No caso da moda alternativa, o minimalismo costuma ser evitado por ser muito próximo do "normal" e padronizado. A não ser que seja um minimalismo conceitual, irreverente ou desconstruído.  Eu acho que um precisa do outro pra contrabalançar. Torço pela permanente existência da exuberância barroca, mesmo que apenas na cena alternativa.

(Foto: Reprodução/Nasty Gal)

Império Retrô - Nós estamos vivendo um período de revival de tendências da moda do passado. Não é à toa que o mundo está cada vez mais vintage.  Mas, se nós analisarmos o passado de uma forma mais aguçada, veremos que Paul Poiret, no início do século 20, criou sua moda inspirado pelas tendências da silhueta Império, do início do século 19. A moda Império, por sua vez, tinha como referência a Antiguidade Clássica. Será que a Moda sempre teve uma característica nostálgica?

Sana - Acredito que a nostalgia é muito presente, pois tendemos a romantizar as épocas passadas, imaginando histórias e situações. Ao mesmo tempo, existe a curiosidade sobre as estéticas de outras culturas, tanto que a moda ocidental sofreu influências de vários países ao longo dos séculos e isso, de certa forma, reflete desejos de fuga, admiração ou fantasias dos criadores em relação ao período em que se vive, e/ou ao povo usado como inspiração. O vintage se compõe de peças originais, inalteradas. Me pergunto se ainda haverá o vintage no futuro, já que as roupas produzidas nas últimas décadas se desfazem em questões de meses, se tornando super descartáveis.

(Foto: Reprodução)

Império Retrô - Como está a moda no Brasil?

Sana - A indústria têxtil precisa de inovação no maquinário para o país se tornar mais competitivo e não ficar na dependência de importar boa parte das coisas. A burocracia é desmotivadora. No Brasil, demora-se meses pra abrir uma empresa, enquanto no Chile demora dias. Então o empreendedor abre negócio lá e exporta pra cá, e perdemos a criação de empregos. Vivemos o mito de que a moda no Brasil é super democrática. Não a vejo tão democrática assim. Nossos empresários focam muito em tendências e modinha, mas esquecem do público que gosta de estilos específicos ou que não consome tendências. É preciso acabar com a ideia de que roupa sem estampa não pode ter design. Nem todo mundo ama estampas e vive na praia. O Brasil precisa aceitar suas diversas facetas. Somos um país com um interior imenso e com Estados culturalmente diferentes. Nem todo mundo vive o lifestyle carioca ou o oposto, a seriedade paulistana workaholic. É preciso acabar com a mentalidade de que se a roupa está vendendo, então o mercado está bom, não precisa inovar. Temos um consumidor conservador, é verdade, mas não significa que não haja uma parcela da população ávida por criações e tendências mais diferenciadas. Esse pessoal acaba importando roupa e o dinheiro vai lá pra fora ao invés de ficar aqui, girando nossa economia. Já passou da hora de os empresários perceberem que o plus size não é mais um nicho, já que boa parte da população brasileira está acima do peso. Todos os estilos precisam estar disponíveis para esse público que sente necessidade de uma moda a preço acessível. Lingerie também é um segmento bastante atrasado na questão de variedade de tamanhos e nisto percebemos a urgência do empresário notar certos nichos e oferecer produtos a eles. A valorização do artesanal e o slow fashion já são uma realidade em outros países, mas aqui ainda estamos engatinhando. Eu vejo a moda brasileira como uma crise de identidade constante, medo de arriscar ou inovar. Há muita coisa de nossa cultura que poderia ser mais explorada. Precisamos quebrar pensamentos antigos, criar uma nova mentalidade de administração e criação. Copiar menos e olhar mais pra nossa diversidade. Aceitar-se como um país de potencial criativo.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

18 comentários:

  1. Sana e Rafa juntas, melhor entrevista <3 Parabéns, muito bem questionada e respondida a entrevista. Beijos

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  2. Só vi realidade literalmente, eu ja venho acompanhando os trabalhos da Sana a um tempo e acho incrível o que ela faz .Fora que estamos perdendo nossos profissionais na área pelo menos os que eu vejo e escutam querem ir para fora do país e trabalhar morar por lá

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    1. É verdade, Joelma. É triste saber que temos tantos profissionais "acomodados" à situação da moda no Brasil, e sem a ousadia de querer transformar essa realidade paupérrima.

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  3. Sana é maravilhosa! A entrevista trouxe muitas questões interessantes, estão de parabéns ♥

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  4. Gostei muito! Muitas vezes não compro roupa por não encontrar as peças que procuro, pois o mercado
    está cheio de modinha e tendências.

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    1. Concordo, Ieda, e passo pelo mesmo. É bastante difícil encontrar no mercado brasileiro de tendências algo que se adeque ao meu gosto pessoal.

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  5. ótima entrevista!!! Na parte que falou sobre a história da moda e as faculdades de design, me lembrei de um fato que vejo muito como estudante de moda em uma faculdade de Fortaleza/CE. Aqui pelo menos acontece muito da gente ser incentivado à cópia. Pelo menos nos trabalhos a gente nunca pode se expressar, sempre temos que buscar inspiração em décadas passada, em estilistas já renomados, enfim... acho que por isso a moda do Brasil está como a Sana comentou na entrevista.

    Abraços.
    www.duasvezesm.com

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    1. É verdade, Natasha. A liberdade de expressão na moda é bastante sufocada no nosso país.

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  6. A Sana arrasa sempre mesmo, né!?
    Adorei a entrevista!
    Muito bem elaborada e muito bem respondida. Levantando vários questionamentos dos leitores para podermos repensar a moda e como a usamos.
    Adorei!
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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  7. Amei a entrevista, concordo com moda sem identidade no Brasil, realmente imitamos muito lá fora, eu sou apaixonada pela moda de cultura japonesa eles não tem medo de ousar, mas quem inova no Brasil é visto com olhos de critica, beijos


    http://www.angelimcosmeticos.com.br/

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    1. Concordo com você. A moda japonesa é marcada por muita ousadia e criatividade. Seria ótimo se nós, brasileiros, tivéssemos toda essa liberdade de expressão.

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